São Paulo. Roda de Conversa: Ditadura, Teatro e Vida

 

A resistência sempre foi a marca registrada da periferia, seja nos períodos de democracia ou ditadura. A arte, por sua vez, faz parte do cotidiano periférico e entrelaça este movimento. Juntas, arte e luta, tiveram um papel importantíssimo nos chamados «anos de chumbo» neste territórios, mas são, infelizmente, esquecidas páginas de livros e jornais.

Com o objetivo de tirar de debaixo do tapete tantas histórias escondidas ou esquecidas nas «quebradas», o Núcleo Teatral Filhos da Dita, do bairro Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo, realiza a «Roda de Conversa: Ditadura, Teatro e Vida». O bate-papo aconteceu no sábado (27), às 19h, na sede da Kiwi Cia de Teatro, no centro da capital.

A atividade também abordará o contexto chileno sobre o assunto, contando com a participação de Oscar Castro, dramaturgo chileno que se exilou na França. Oscar é autor da peça A Guerra – encenada pelo Filhos da Dita – e está no Brasil desde o início da semana realizando uma residência artística com o grupo.

O texto do espetáculo, que busca fazer uma reflexão sobre violência, poder e alienação, foi escrito em 1976 quando o Chile vivia sob uma ditadura comandada por Augusto Pinochet, momento em que o Brasil era dirigido pelo militar Ernesto Geisel.

«O Núcleo interpreta este texto no teatro e na rua. Pra gente, esta temática é importante, pois também fala da violência do cotidiano que a gente ainda sofre enquanto jovem, enquanto periférico. Então precisamos refletir e discutir sobre isso. O Oscar vem para aprofundar esta discussão e é muito bom», avalia Luara Sanches, integrante do grupo.

Também participaram da conversa no sábado o ex-preso político e artísta plástico, Alípio Freire, o diretor do grupo Teatro União e Olho Vivo (TUOV), César Vieira, o ex-presidente da Comissão Nacional da Verdade (CNV), Adriano Diogo, além de integrantes do Filhos da Dita, outros grupos artísticos e moradores de outras periferias paulistanas.

Intercâmbio cultural

Formado por moradores e artistas do bairro de Cidade Tiradentes, situado a cerca de 40 quilômetros do centro de São Paulo, o Núcleo Teatral Filhos da Dita é oriundo do Grupo Pombas Urbanas, que existe e resiste na região há mais de 25 anos.

O coletivo tem sede no tradicional Centro Cultural Arte em Construção, cujo galpão é hoje referência cultural e política no bairro, além de ponto de encontro de quem mora ou visita a região.

Pela primeira vez no Brasil, o dramaturgo Oscar Castro, que é fundador do grupo de teatro Aleph, um dos primeiros a experimentar a criação coletiva no Chile, conheceu a experiência do teatro comunitário brasileiro. Para ele, que hoje mora na França, a experiência é um sonho e, talvez, os jovens e artistas que dão vida ao galpão cultural não façam ideia da riqueza do que estão criando.

A experiência de teatro comunitário, segundo ele, é o que existe em todo o mundo e esta capacidade de intercâmbio e projetos comunitários tende a acontecer cada vez mais. «Esta construção é para o futuro. Vai ser algo extraordinário. A burguesia de São Paulo vai vir aqui [na Cidade Tiradentes] para ver isso. Não vamos ter necessidade de ir ao centro», finalizou.

 

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