Publicado en: 6 octubre, 2015

São Paulo: “Nenhum/a a Menos – Semana de Lutas contra a Violência do Estado”

Por Igor Carvalho

Evento organizado por Milton Sales, lendário produtor do rap nacional, encerra semana de lutas contra violência policial com homenagem ao movimento Mães de Maio

“A cultura do medo imposta pelo Estado precisa ser enfrentada”-Mães de Maio

 

Contra a violência do Estado e denunciando os crescentes assassinatos nas periferias brasileiras, o festival de música “Nenhum/a a Menos – Semana de Lutas contra a Violência do Estado” encerrou, no último sábado (3), com uma homenagem ao movimento Mães de Maio.

“A cultura do medo implantada pelo Estado nas periferias precisa ser questionada. Não podemos assistir isso sem falar nada. Temos que nos organizar e enfrentar”, afirmou Débora Silva Maria, fundadora do movimento que, já na madrugada de domingo (4), seguia recebendo abraços e desafiando os que insistem em promover o genocídio da população negra e pobre nas periferias.

Aproximadamente três mil pessoas estiveram no Centro de Formação Cultural Cidade Tiradentes (CFCCT), na Zona Leste de São Paulo. A atividade foi organizada pelo lendário produtor do rap nacional, Milton Sales.

“Hoje, veio cantar aqui os que nunca deixaram o povo na mão. Cantor sertanejo não vem aqui, não tem compromisso com a gente. Aqui está o Hip-Hop e o Reggae, que são os sons das nossas quebradas”, afirmou Milton, que criticou a ação policial nas periferias. “A PM está nos matando, matando as pessoas que amamos. Somos reféns e seguimos alvos indefesos, que a cultura nos ajude a libertar o povo”, disse.

Cultura contra a violência

As Trincas, Comando DMC, Tati Botelho, MC Jack, Ba Kimbuta e Walking Lions foram algumas das atrações do evento. O grupo “Filosofia de Rua” apresentou a música “Histórias do Coração”, em homenagem às “Mães de Maio”, que agradeceram.

“É gratificante ver esses meninos e meninas nos ajudando na luta, nos ajudando a diminuir um pouco essa dor diária. É como se por uma noite, pudéssemos trazer nossos filhos de volta, pra cantar e dançar aqui junto com toda essa juventude”, disse Débora, que perdeu o filho, Edson Rogério Silva dos Santos, então com 29 anos, nos chamados “Crimes de Maio”, quando 493 pessoas pessoas foram mortas em 2006. Segundo organizações dos direitos humanos, o episódio violento foi uma reação de grupos de extermínio com a participação de policiais à ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC). A maioria das vítimas eram jovens negros e da periferia.

Além de grupos de rap, o festival reuniu grupos de reggae e samba-rock a fim de fortalecer a luta contra o genocídio da população periférica. Paula da Paz, dançarina de samba-rock, falou sobre o uso da arte para a crítica social e política. “Podemos trazer o sentimento de pertencimento, que faz o jovem encontrar outras pessoas com os mesmos dilemas que os seus e o provoca a ação”, disse.

“Nós temos direito a lazer e cultura, mas o único braço do Estado que chega aqui é a polícia, então temos que fazer nós por nós mesmo”, criticou a artista e ativista.

Resistência e unidade

O rapper Eduardo, ex-integrante do grupo Facção Central, era o mais aguardado da noite. “Ele canta a periferia, ele nos defende com suas músicas. Antes da violência policial aparecer na televisão e nos jornais, ele já falava sobre isso”, lembra o professor Maciel Pinto.

Passava das 23h quando Eduardo subiu no palco, revigorando o ânimo dos milhares que estavam acompanhando o festival desde as 16h. O rapper também homenageou as “Mães de Maio” e cantou “A era das chacinas”, música inspirada no livro “Mães de Maio – do Luto á Luta”, lançado em 2012.

Eliete Prestes, que era companheira de Aílton Santos, pichador assassinado por policiais em julho de 2014, pediu unidade na luta. “O que as ‘Mães de Maio’ fazem é tão importante. Todo mundo aqui neste evento com certeza conhece alguém que foi assassinado por policiais. Precisamos nos unir e lutar contra isso, estamos cansados”, protestou.

 

Mães de Maio com o rapper Eduardo, ex-Facção Central | Foto: Comboio

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