São Paulo: «O papo no funk é reto e a realidade choca»

 

A criminalização do funk, sua linguagem – “funk do bem” e “proibidão” – o “pancadão”, além da falta de políticas públicas e a defesa do estilo musical como cultura da periferia foram alguns dos temas discutidos durante o debate “O funk como expressão cultural”, realizado no Centro Cultural da Juventude (CCJ), na Vila Nova Cachoeirinha, zona norte de São Paulo, na quinta-feira (15).

Participaram do debate o secretário municipal de Cultura, Juca Ferreira, MC Leonardo, presidente da Associação dos Profissionais e Amigos do Funk (Apafunk), do Rio de Janeiro (RJ), o educador Montanha, da Funk TV, e Danilo Cymrot, como mediador.

Na abertura, Juca Ferreira falou da discriminação que existe quando se fala em funk que, segundo ele, não parte só das autoridades e da polícia, mas também de uma parcela da população. Um preconceito que está ligado à falta de acesso à cidade. “O funk está ligado a um contexto de discriminação e de divisão da cidade”, afirmou.

“Como é que a gente iria poder participar desta cidade cara se não fosse o funk?”, indagou MC Leonardo se referindo ao Rio de Janeiro, uma das cidades mais caras do mundo.

Expressão cultural

Segundo MC Leonardo, perguntar por que o funk tem que ser considerado cultura é a mesma coisa de perguntar o porquê tem dia da consciência negra e não tem dia da consciência branca. “O funk precisa que seja cultura justamente porque ele precisa de uma autoafirmação”, disse.

Segundo ele, em toda história do movimento cultural, principalmente musical, foi preciso que o próprio movimento se impusesse sobre as forças que lhe impediam de continuar a luta pela existência.

Proibidão

Entre os estilos mais discriminados está o funk conhecido como “proibidão”, cuja temática trata de sexo e violência. Segundo MC Leonardo, o funk nada mais é do que expressão da realidade das comunidades.

“Eu jamais cantei alguma coisa que uma senhora e uma criança não pudessem ouvir no mesmo local. Só que eu não posso cobrar esta responsabilidade de todas as pessoas que dançam funk, porque cada um tem a sua vivência, e é a sua vivência que tem que estar no microfone”, disse.

Para ele, é uma burrice querer que o funk cumpra a responsabilidade social somente se tiver letras mais politizadas. “É uma covardia cobrar isso do funk, porque você está cobrando de quem não teve nenhum tipo de social em suas vidas. Você tem que cobrar dos que se dizem universitários. Por que o sertanejo universitário não fala dos problemas do sertão?”, ironizou.

O que não pode acontecer, para o MC, é censurar os funkeiros. “Muitos moleques têm 50 palavras no vocabulário: 25 é gíria e 25 é palavrão. Mas ele tem direito de falar pela Constituição e de se expressar da maneira que ele bem querer”, disse.

De escanteio

Para Montanha, da TV Funk, o movimento funk é ignorado pelo setor público. Amigo de MC Daleste, ele lembrou das mortes de outros MCs que até hoje não foram resolvidas. “Com o funk morreu o primeiro, morreu o segundo, o terceiro e ninguém interviu. Não teve ninguém lá de cima para falar: ‘e ai rapaziada, eu quero que resolva isso daí, eu quero que descubra o que está acontecendo’”, protestou.

E, mesmo conhecido em todo o país – e fora dele -, o descaso e a resistência ao funk continuam. Seja com letras pornográficas ou politizadas, o fato é que ele é um reflexo da sociedade. E como diz MC Leonardo, “o papo no funk é reto e a realidade choca”.

 

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