São Paulo: Cordão da Mentira nas ruas. Tema: “Quando vai acabar o genocídio popular?”

 

Helena Fonseca, 50, perdeu seu filho na véspera do dia das mães, em 5 de maio de 2011. Assassinado com 18 tiros na avenida Presidente Wilson, na Baixada Santista, Fábio Fonseca estava no carro com sua filha de 4 anos e sua esposa, Aline dos Santos, 30, grávida de 5 meses. Apenas sua filha sobreviveu.

No dia 17 de maio de 2006, Vera Lúcia Andrade, 60, passou pela mesma dor. Seu filho, Mateus Andrade, de apenas 21 anos, foi assassinado por grupos de extermínio próximo à sua residência, em Santos. Naquela época, os ataques deixaram mais de 500 pessoas mortas em apenas oito dias. Segundo as mães, os grupos de extermínio são ligados à Polícia Militar do Estado de São Paulo. Ambos os processos ainda estão arquivados.

As mães, que são integrantes do Movimento Mães de Maio, coletivo formado por familiares de pessoas que foram vítimas da violência do Estado, participaram no sábado (29) do 2° desfile do Cordão da Mentira, com o tema “Quando vai acabar o genocídio popular?”.

Aproximadamente 300 pessoas acompanharam o bloco, entre familiares de vítimas do Estado, artistas, estudantes, militantes de movimentos sociais de diversas regiões. A marcha teve início na frente do Memorial da Resistência, antiga sede do DOPS – onde muitos presos políticos foram torturados durante a ditadura – , na região da Luz, centro da capital. Encerrou na Praça da Sé, entre lágrimas e gritos de indignação das mães.

O ato fez parte da semana de eventos que vai lembrar os 20 anos do “Massacre do Carandiru”, ocorrido em 02 de outubro de 1992.

Relato das mães

Por conta própria, Helena Fonseca começou a investigar a morte de seu filho. No carro, mesmo após ser periciado, a mãe diz que encontrou três balas que atravessaram o corpo de Fábio. “Levei as balas ao delegado e ele disse que os homens que mataram o meu filho eram profissionais. Logo depois disso, comecei a ser ameaçada pelos policiais”, aponta.

Segundo Helena, sua neta de 4 anos só não morreu porque se escondeu embaixo do banco traseiro. Fábio faleceu na hora e Aline minutos depois de ter sido levada ao hospital. “Nada foi feito até hoje”, diz Helena, indignada.

Vera Lúcia Andrade conta que seu filho, Mateus Andrade, foi à escola, mas retornou logo em seguida, pois não haveria aula devido aos ataques que estavam ocorrendo em Santos. Era o 5º dia de terror que a cidade vivenciava.

Mateus foi então a uma pizzaria, próxima de sua casa, junto com seu amigo Ricardo Porto Noronha, 17. De repente, começa um tiroteio. “Meu marido foi até a pizzaria para ver se encontrava meu filho. Ao chegar no local, encontrou Ricardo no chão, agonizando”, relata. Depois, seu marido ainda persistiu na procura de Mateus, e não demorou muito para encontrá-lo: ensanguentado no meio da rua. Ambos morreram, com tiros na cabeça e no pescoço.

Para ela, tudo leva a crer que foram grupos de extermínio da Polícia Militar, pois quando a viatura chegou, não foi atrás de ninguém. “Também viram os homens que estavam em duas motos se trocando no posto de gasolina. No dia seguinte, as mesmas motos se encontravam na 4ª Companhia da Polícia Militar”, diz a mãe.

A importância do ato, segundo as mães, é para que não caia no esquecimento da sociedade o que ocorreu e ainda ocorre nas periferias de São Paulo. “Tem gente que nem lembra o que aconteceu. Mas para nós não, está muito vivo na lembrança. É como se os nossos filhos tivessem morrido ontem. Não conseguimos digerir isso.”


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