Ruptura, precisa-se

O mais que previsível novo pacote de austeridade aí está, brutal como se adivinhava, empurrando o povo para a miséria, por longas décadas. O “programa de assistência”, eufemismo que o BCE, FME e EU inventaram, quer dizer, muito simplesmente, liberdade total para o patronato contratar e despedir trabalhadores, fixar salários, horários, funções, conforme lhe convier. O “Estado social”, que com as medidas anunciadas vai ficar liquidado, fica reduzido às esmolas e à poeira para os olhos, para desarmar a resistência das vítimas.

Hoje, mais de um quarto dos portugueses está desempregado, e cerca de metade trabalha a prazo, a recibos verdes ou é temporário. As indeminizações por despedimento tornaram-se simbólicas e aumentou a carga horária, sendo os trabalhadores agora obrigadas a trabalhar por menos dinheiro e a fazer horas extra à borla. Mas isto, para os grandes capitalistas ainda é pouco. Querem ver-se livres dos milhares de trabalhadores tornados “excedentários” graças à mundialização, à concorrência, ao atraso e parasitismo do capitalismo português, às novas tecnologias e organização do trabalho.

O capitalista só investe se tiver boas perspectivas de lucro. Na lógica deles, cabe aos trabalhadores oferecerem condições apetecíveis. Quem se vender mais barato é o preferido. Em Portugal ou na China, tanto faz.

Compreende-se que à burguesia não convenha dizer isto abertamente e esconda as suas intenções atribuindo-lhes nomes rebuscados como “reformas estruturais”, “modernização”, “batalha da competitividade”, e por aí fora. O que já não se compreende è que aqueles que falam em nomes dos trabalhadores não chamem as coisas pelos nomes. Por que clamam com tanta seriedade pela “solidariedade social”, pela “regulamentação do capitalismo”, por “mais democracia” e outras tretas semelhantes?

A esquerda parlamentar e os sindicalistas estão a enfrentar este ataque da troika com a moleza própria dos aparelhos burocráticos, enrolados nos seus compromissos. O BE, perante o anúncio do novo pacote de austeridade, não encontrou solução melhor que virar-se para Seguro e perguntar o que vai agora o PS fazer? Porque não nos diz antes o que pensa o BE fazer? Para dia 15 de Setembro e 1 de Outubro estão marcadas manifestações, convocadas pelo que resta do anémico e desorientado movimento dos “indignados” e pela CGTP, respectivamente. Feitas para cumprir calendário (15 de Setembro é dia de jornada internacional; 1 de Outubro corresponde à tradicional manifestação de fim de férias convocada todos os anos pela CGTP) correm o risco de serem, mais uma vez, demonstrações inócuas.

A “ruptura com a política actual” justamente reclamada pelo PCP não será possível enquanto não rompermos com a hipocrisia e o conformismo que amarram o espírito de luta e a revolta dos trabalhadores. É por aí que há que começar.

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