Quem mudou, Lula ou o FMI?

Lula afirmou, na reunião do G20, que o Brasil pode emprestar dinheiro para o FMI. Depois, chegou a falar para os jornalistas: “Você não acha muito chique o Brasil emprestar dinheiro para o FMI?”.

Na entrevista a jornalistas, o presidente lembrou que, durante muitos anos, carregou faixas em protestos dizendo “Fora FMI!” e que agora gostaria de entrar para a história como o presidente que emprestou algum dinheiro para o FMI, além de pagar a conta dos outros”. Mas quem realmente mudou: Lula ou o FMI?

O Fundo Monetário Internacional foi criado em 1944 como parte do acordo de Bretton Woods, que definiu as regras de funcionamento da economia mundial após a Segunda Guerra Mundial. Na prática, esse acordo legitimou e institucionalizou a hegemonia internacional dos Estados Unidos. O FMI teria, formalmente, um papel de ajudar a evitar crises financeiras ou resolvê-las. De conteúdo, no entanto, sempre foi um instrumento de dominação financeira dos países imperialistas.

O funcionamento do fundo é absolutamente ditatorial: os maiores países imperialistas (EUA, Alemanha, Japão, França e Inglaterra) são os que têm as maiores cotas. Por isso, são os que mandam no FMI. Os EUA são o único país com poder de veto sobre qualquer decisão do fundo.

Durante o período de globalização, o controle passou a ser ainda mais rigoroso, com o FMI monitorando o dia-a-dia dos planos econômicos nos países semicoloniais. A farsa de que se tratava de “conselhos técnicos” para evitar crises econômicas se revelou claramente.

Em primeiro lugar, o rigor fiscal imposto a países como o Brasil, do qual se exigia superávits fiscais (para cortar gastos sociais e poder pagar as dívidas aos bancos), nunca foi cobrado dos Estados Unidos, que é hoje o maior devedor do mundo, com um déficit fiscal de US$ 1,3 trilhão. Em segundo lugar, a receita neoliberal imposta em todo o mundo (privatizações, corte dos salários dos trabalhadores, abertura econômica etc.) pavimentou o caminho para a crise atual.

Em vez de evitar turbulências, seu objetivo formal inicial, o FMI foi o grande instrumento que levou os países à grande crise que vemos agora. Esse é o motivo do enorme descrédito que envolve o fundo hoje.

A última reunião do G20 teve, entre suas resoluções fundamentais, a tentativa de recuperar o FMI, que deve elevar seu capital de US$ 250 bilhões para US$ 750 bilhões. Para responder aos que querem transformar o encontro do G20 numa reunião histórica como foi a de Bretton Woods, basta essa comparação: a conferência de 1944 definiu as normas para a retomada da economia mundial e o FMI foi um de seus instrumentos. A reunião do G20, no início de uma brutal crise que pode chegar ao nível de 1929, tenta, desesperadamente, tirar o FMI do fundo do poço.

O governo Lula foi endeusado na reunião do G20, o que pode levar muitos trabalhadores à ilusão de que o país agora é ouvido pelo mundo. Podem também se confundir com o elogio de Obama a Lula: “ele é o cara!”. Basta lembrar, porém, que é exatamente a mesma postura do odioso George Bush, de quem Lula dizia ser amigo. O presidente é querido pelos principais governos imperialistas por fazer um governo ainda popular e muito obediente a todas as normas do capital financeiro internacional.

Não é por acaso que Lula se dispõe a ajudar a recuperar o FMI, uma das poucas medidas concretas definidas nessa reunião. O G20 encenou uma farsa para encobrir seu fracasso e impotência em evitar o aprofundamento da crise econômica. E o FMI, com a ajuda de Lula, pode voltar a ser, mais uma vez, o aplicador das novas receitas para o mesmo plano neoliberal em todo o mundo.

O dinheiro que o governo Lula enviará para o FMI poderia ser usado no Brasil para ajudar a resolver graves problemas sociais como a reforma agrária, o desemprego e a miséria. Mas, muito pior ainda é a ajuda política dada ao fundo e ao imperialismo.

Voltando à pergunta do início, a resposta é: mudaram os dois. Mudou o FMI que, em crise, precisa da ajuda de Lula. Mudou também o presidente, que antes gritava “Fora FMI!” e agora é um de seus mais importantes apoiadores entre os países semicoloniais.

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O PSTU continuará dizendo “Fora FMI!”.

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