Por que os lucros dos grandes capitalistas caem?

 

A crise capitalista que estourou em 2008 e que agora ameaça levar o mundo a um novo colapso de maiores proporções, é, em primeiro lugar, uma crise de superacumulação de capital, impulsionada, fundamentalmente, pela tendência à baixa da taxa geral de lucro, uma das leis mais importantes que rege o capitalismo e que foi analisada detalhadamente por Karl Marx na obra prima, O Capital.

A regulação da distribuição do trabalho social e dos recursos materiais para a produção e distribuição dos bens e serviços no capitalismo é regida pela lei do valor. A ação da lei independe da intervenção consciente das empresas. Os capitalistas são a personificação do capital e como tal buscam obter o maior lucro possível.

Os salários dos trabalhadores têm sido exprimidos nas últimas décadas, conforme a crise capitalista tem se aprofundado devido à tentativa dos capitalistas de salvar os lucros. A lei da mais-valia, detalhada por Karl Marx, revelou a essência da exploração capitalista, a diferença entre o valor criado pela força de trabalho e o valor que os trabalhadores recebem nos salários.

 A ação da concorrência entre os capitalistas

A concorrência entre os capitalistas dos vários setores da economia, sempre de modo muito turbulento, tende a uniformizar as rentabilidades entre eles. Quando a taxa de lucro sobe (ou desce) num determinado setor, os investimentos aumentam (ou diminuem), a respectiva oferta de produtos cresce mais (ou menos) rápido que a procura, os preços diminuem (ou aumentam) e volta a baixar (ou subir) a taxa de lucro. O movimento é contínuo. Nunca se consegue o equilíbrio entre os vários setores. Mas as taxas de lucro aproximam-se e oscilam em torno de um ponto de referência que tende ao equilíbrio da taxa geral de lucro para o conjunto da sociedade.

 A concorrência entre os capitalistas representa a briga de foice pela mais-valia arrancada dos trabalhadores na produção, que é repartida entre os capitalistas dos vários setores da economia, produtivos e não produtivos, o que leva à homogeneização dos lucros de acordo com o montante do capital aplicado. Todos os monopólios, e as grandes empresas em geral, extraem os lucros da especulação financeira devido ao esgotamento das atividades produtivas como fonte de lucro por causa do extremo parasitismo atual do sistema capitalista. Por exemplo, as montadoras não obtêm o lucro da produção de automóveis, principalmente nos países desenvolvidos, mas das operações especulativas realizadas pelos braços financeiros.

O capital fictício, que surge devido a enormes montantes de capital que não encontram aplicação na produção, acaba aplicado exclusivamente na especulação financeira, mas apresenta a tendência a desvalorizar-se quando as bolhas financeiras estouram. Na década passada, o estouro das bolhas da Internet, das bolsas e imobiliária representam claros exemplos. Os grandes capitais detêm o monopólio do crédito e da tecnologia, o que os leva a garantirem altas taxas de lucro por meio do controle monopolista da economia, pois tendo a capacidade de incrementar rápida e significativamente a produção conseguem igualar as taxas nos vários sectores. Por esse motivo, dentro de cada setor específico da economia, as taxas de lucro dos capitalistas de menor porte são também menores.

A tendência à queda da taxa geral de lucro

Karl Marx demonstrou que a taxa geral de lucro, em termos da lei de valor, era dada pela relação entre a mais-valia geral e o montante de capital investido, que se manifesta como capital variável (compra da força de trabalho) e capital constante (compra de equipamentos, matérias-primas e demais insumos).

Na busca pelo maior lucro, os capitalistas são levados, por meio da concorrência, a aumentar a produtividade do trabalho e reduzirem os custos por meio da melhoria da tecnologia e dos processos envolvidos. Desta maneira, inevitavelmente, o capital constante tende a aumentar em relação ao capital variável. Esse processo acontece de maneira automática. Os capitalistas atuam como a personificação do capital e são impelidos a essa ação sob risco de quebrarem. O efeito colateral se expressa na diminuição da mais-valia, devido ao menor uso de força de trabalho relativa ao capital aplicado, pois ela está na base do trabalho não pago aos operários (a mais-valia), e, portanto, da diminuição da taxa geral de lucro, descrita por Karl Marx como a lei do declínio tendencial da taxa geral de lucro, que considerou como um dos pilares do capitalismo (Livro III do O Capital).

Os capitalistas reagem à queda dos lucros de maneira cada vez mais desesperada para o qual tentam aumentar a produção de mais-valia, por meio do aumento da exploração dos trabalhadores e da redução do capital para a produção do mesmo montante de mais-valia.

 Mecanismos usados pelos capitalistas na tentativa de conter a queda da taxa dos lucros

Para intensificar a exploração e aumentar a taxa de mais-valia, os capitalistas aumentam a intensidade do trabalho (mais-valia relativa) e a jornada de trabalho (mais-valia absoluta), ao mesmo tempo que tentam reduzir os salários dos operários. Mesmo assim, a tendência à queda da taxa de lucro continua atuando, pois a mais-valia é sempre inferior ao novo valor que foi criado e ao capital investido, além de que a concorrência empurra os capitalistas a aumentarem os investimentos em tecnologia e substituir os trabalhadores por máquinas.

Para reduzir o capital constante investido na produção da mais-valia, em relação ao pagamento da força de trabalho, das matérias-primas e dos insumos no processo produtivo, os capitalistas também buscam aumentar a rotação do capital, que na tentativa de reduzir o capital destacado inicialmente e produzir um maior número de mercadorias. Devido às limitações técnicas e de outros tipos, a rotação pode ser aumentada, mas dentro de certos limites, o que não impede que a tendência à queda da taxa de lucro continue se impondo.

A depreciação do capital constante, provocada pelo aumento da produtividade, reduz a quantidade de trabalho socialmente necessário para a produção, o que, portanto, aumenta a taxa de lucro, mas às custas da própria autodestruição do capital. Mas conforme a nova tecnologia se padroniza, o lucro adicional obtido inicialmente tende a igualar-se, o que aumentará ainda mais a pressão sobre o capital investido que perderá valor. As máquinas, as matérias primas e os demais insumos não geram valor, pois elas têm o valor repassado, ou amortizado, na composição dos custos das mercadorias. Por esse motivo, a taxa de lucro por unidade produzida, sob a nova tecnologia, no final, inevitavelmente, cairá.

 Sobre as taxas de juros ultra-reduzidas

 A queda generalizada das taxas de lucro tem levado à queda das taxas de juros usadas para o repasse de recursos públicos para as grandes empresas. Aparentemente, representaria uma operação incongruente, pois os lucros dos bancos cairiam. Na realidade, trata-se do reflexo do enorme grau de parasitismo da economia capitalista, já que os recursos são aplicados fundamentalmente na especulação financeira. As potências imperialistas destinam volumes gigantescos de recursos para comprar títulos podres pelo valor nominal: os Estados Unidos US$ 85 bilhões mensais e o Japão US$ 750 bilhões anuais, por exemplo. Em outras palavras, o que vemos hoje são as grandes empresas tendo transformado o mundo num verdadeiro casino de apostas e contra-apostas, totalmente dependente dos recursos do estado.

 A especulação financeira, que representa o coração da economia capitalista, revela a existência de gigantescos volumes de capital fictício, que não conseguem aplicação na produção real e que é um entrave para a própria reprodução do ciclo de reprodução ampliada do capital e, portanto, da produção de nova mais-valia.

O capitalismo parasitário atual promove uma gigantesca destruição das forças produtivas e, conforme a crise capitalista se aprofunda, a tendência é a uma devastação ainda maior, pois somente sob essa base e a super-exploração dos trabalhadores é possível manter a rentabilidade de maneira tal que o capitalismo possa continuar funcionando, com a liquidação dos capitais mais fracos e menos lucrativos e a disparada da concentração e da centralização dos capitais monopolistas mais poderosos, que atuam sob a base do ferrenho controle do estado burguês.

 Os monopólios, longe de terem eliminado a concorrência, a exacerbaram em escala mundial. A disputa pelos mercados mundiais tem se intensificando, conforme a crise capitalista tem se aprofundado. O enfraquecimento da economia está direcionando as grandes potências industriais (como a Alemanha, a França e o Japão) à especulação financeira, disputando com os Estados Unidos e a Grã Bretanha que a controlam. Ao mesmo tempo, as contradições com as potências regionais, principalmente a China e a Rússia, dispararam, na disputa pelo controle de matérias primas, de mão de obra barata e dos mercados de armamentos.

A sobreacumulação de capital

A concentração dos lucros pelos monopólios acontece devido ao ferrenho controle do estado burguês. Mas, conforme a crise capitalista se aprofunda, o reinvestimento dos lucros, que abre passo para a acumulação de capital, tem sido cada vez menor. Os monopólios se valem de operações artificiais para a reprodução ampliada do capital. Basicamente, por meio da absorção depredadora de empresas menores e da super-exploração dos países atrasados atuam qual um buraco negro sobre a mais-valia mundial.

O capital social mundial, medido oficialmente pelo PIB, é de aproximadamente US$ 75 trilhões. O capital abertamente fictício, representado fundamentalmente pelos derivativos financeiros, atinge em torno de 15 vezes este valor. Os monopólios buscam desesperadamente a exploração de trabalho semi-escravo e a exploração, cada vez mais, depredadora de matérias primas. A crise de superprodução e a disparada do capital fictício têm acentuado a queda da taxa de lucro média em escala mundial porque a queda da rentabilidade do capital e do consumo das mercadorias ligadas diretamente à produção têm provocado a redução dos investimentos. A ação da lei está provocando que os lucros adicionais resultantes da acumulação de capital em queda já não estejam conseguindo compensar a queda dos lucros médios, mesmo quando o capital total aumenta. Praticamente, todos os setores da economia estão sofrendo a queda da taxa de lucros, inclusive o financeiro e até o de armamentos, este pela primeira vez em 70 anos.

O que está colocado para o próximo período é uma enorme depressão econômica, uma espécie de afeganistização da economia mundial, onde o modelo será a extensão em larga escala da crise na Grécia: bancarrotas generalizadas, entrega de todas as empresas públicas, endividamento brutal, recessão endêmica, desemprego e ataques em larga escala contra as condições de vida das massas trabalhadoras. O componente adicional será o aumento acelerado das pressões inflacionarias.

 O capitalismo parasitário tem esgotado o arsenal para enfrentar a crise, sem ter conseguido implantar uma nova política. Por esse motivo, a política aplicada é a de mais neoliberalismo. Essa é a base objetiva sob a qual a classe operária se colocará em movimento, da crise revolucionária, que acontece, conforme explicado por V.I.Lenin, quando os de baixo não querem continuar vivendo como até então e os de cima não conseguem mais manter o regime funcionando.

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