O vírus e quem dele se aproveita (1)

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A expansão dos vírus resulta de práticas irracionais de consumo e predação dos recursos do planeta, com o insano objeto da incessante acumulação de capital.

Para acelerar essa acumulação, os capitalistas encarregaram as classes políticas de alimentar o medo nas populações, para que aceitem o desemprego (depois da antecâmara do layoff), como fatalidade; e,  como criminosos, vigiados e punidos por pretorianos armados.

De modo mais discreto, os capitalistas apresentam listas dos apoios que exigem do Estado. Nesse banquete, o vírus é apenas a toalha da mesa.

Sumário

1 – Algumas notas sobre os vírus

2 – A contabilidade do coronavírus

3 – As principais vítimas

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1 – Algumas notas sobre os vírus

Existem 39 estirpes de coronavírus, desde que identificados em 1968. Entre aqueles, há sete vírus humanos conhecidos, dos quais três – descobertos depois de 2002 – podem ser mortais. A sua perigosidade resulta de um género de agulhas proteicas que podem introduzir-se nas células humanas do aparelho respiratório, provocando graves dificuldades; e isso, só foi tornado público a 4 de março último na revista Science, na sequência de investigação efetuada por cientistas chineses.

Nesse contexto, o vírus mostra-se perigoso para pessoas mais idosas, mais débeis e com várias patologias degenerativas, particularmente, as do foro respiratório. Daí toda o afã e a pouco digna competição recente para a aquisição de ventiladores.

Supõe-se que o surto inicial em Wuhan terá ocorrido quando o vírus transitou, para um homem dos seus 55 anos, no dia 17/11/2019. O vírus seria proveniente de morcegos; e, um pangolim-malaio terá sido o veículo de transporte para um ser humano. As 1100 espécies de morcegos são muito tolerantes aos vírus e, na sua presença, não adoecem, ao contrário do que acontece nos outros mamíferos; são pois, excelentes armazéns e também eficazes redistribuidores.

Dos três coronavírus humanos conhecidos e que podem induzir a morte, todos têm origem em morcegos.

1 – O primeiro (SARS-CoV), surgiu em 2002, na China (Yunan), província que faz fronteira com o Myanmar, o Laos e o Vietnam: uma área montanhosa e florestada. Dos morcegos, passou para a civeta, um pequeno mamífero, muito apreciado na China e que intermediou a chegada aos humanos. O abate dos animais cativos fez desaparecer esse vírus que, entretanto infetara 8422 pessoas, das quais morreram 774, em 30 países. A sua taxa de letalidade foi de 10%; e acima da observada, a nível global, no momento presente;

2 – Em 2012 surgiu na Península Arábica o MERS-CoV que contagiou os humanos, tendo como intermediários, os dromedários. Teve uma baixa capacidade de contágio mas uma letalidade elevada (27%), afetando 2468 pessoas, das quais 851 morreram, em 27 países;

3 – O atual SARS-CoV 2 tem uma mais baixa letalidade (2 a 4%) mas uma grande capacidade de contágio: supõe-se que o intermediário terá sido o pangolim-malaio, que terá recebido o vírus de morcegos. Esta situação já provocou a proibição e criação e venda de animais selvagens em Wuhan, por cinco anos.

Esta sequência a que se seguiu a gripe das aves em 2004/05 e a gripe mexicana ou suína em 2009/10 não deixou dúvidas, junto dos cientistas, sobre o surgimento de uma futura crise sanitária; e a atual pandemia corrobora essa sensibilidade. Calcula-se que o atual e famoso SARS-CoV-2 possa chegar a mais de metade da Humanidade nos próximos anos; por outro lado, uma grande parte dos infetados poucos sintomas apresenta e 14% são assintomáticos.

Muitos fatores concorrem para o acima referido. A ciência só conhece 1% dos vírus dos animais selvagens e o surgimento de uma vaga de contágios é sempre uma surpresa, não admitindo uma real previsibilidade.

São múltiplos os factores susceptíveis de apresentar essas surpresas. O comércio e o consumo de animais selvagens; a desflorestação que prepara, em paralelo, com o aumento da área destinada á pecuária, o uso intensivo de nutrientes artificiais e de fármacos na produção de carne e de peixe em viveiros; as densidades populacionais enormes e crescentes nos espaços urbanos, associados à produção de lixos e de gases com efeito de estufa, resultantes da irracionalidade que preside à criação de áreas para o trabalho, outras para a habitação, outras para a educação, o lazer, para além da irracionalidade evidente nas deslocações em veículo próprio, muitas vezes apenas com o condutor nele contido, etc. E acrescente-se ainda, a mobilidade dos seres humanos, no âmbito do turismo e dos negócios que se processa sem quaisquer atitudes susceptíveis de deteção nos viajantes de elementos potencialmente contagiantes.

O medicamento para a sida, quando apareceu, custava $ 10/15000 para a toma durante um ano, algo de inacessível para a esmagadora maioria dos infetados. Como na Índia não é permitido o direito de patente em caso de crise humanitária, foram disponibilizadas tomas com um custo diário de $ 1. Por outro lado, a Declaração de Doha em 2001 permite que, em caso de emergência, um país fabrique ou importe de países terceiros um dado medicamento. Na última Assembleia Mundial da Saúde, o dueto maravilha – Trump-Boris – constituiu a única oposição à disponibilidade como bem público dos fármacos para a covid-19, em detrimento das multinacionais.

Quanto a vacinas para a covid-19, os habituais ratinhos de laboratório não são utilizáveis em experiências uma vez que são imunes; perante a pressão para controlar a doença, admite-se o recurso a voluntários, apesar dos riscos que essas “cobaias” possam correr e dos efeitos que entre outras pessoas dali possam surgir.

Referir-se prazos de 12/18 meses para a comercialização da vacina seria algo de inédito ou de burla, algo demasiado comum no capitalismo de hoje. Pode-se pensar na irresponsabilidade de gente como Trump, que decidiu tomar (durante algum tempo)  hidroxicloroquina, um medicamento anti-malárico usado para os doentes com lúpus mas, sem validação das autoridades de saúde dos EUA para aplicação em caso de covid-19. Perante os comportamentos de um Trump ou, de um tal Bolsonaro, pode imaginar-se os danos possíveis que podem advir nos regimes políticos atuais – que nada têm de democráticos –  e sobre os quais, as pessoas comuns não têm qualquer controlo.

A Humanidade é uma apenas mas, assim como é constituída por imensas culturas, línguas, crenças e hábitos, também os vírus e outras formas de vida microbiana são distintos, embora aparentados. A sua variedade e mutabilidade é grande e exige, certamente constante investigação e formas de evitar desequilíbrios danosos na expressão da biodiversidade; dai resulta que o bem-estar não pode ser visto apenas tendo como sujeito o ser humano mas integrar este último numa saúde global que inclua ecossistemas e animais. E é essencial que se perceba esse desiderato não cabe e está muito acima dos correntes cálculos financeiros de rendabilidade que orientam as meninges dos acionistas, dos especuladores financeiros, dos gestores de topo, fixados na valorização dos ativos; bem como dos membros das classes políticas que vivem em permanente concubinato com os primeiros; e ainda, dos media cujo funcionamento se baliza pelas receitas da publicidade e pelas medidas das audiências.

É necessário abandonar a narrativa vinda de religiões de que um ser divino qualquer, certamente como forma de combater o seu tédio, criou uma série de infraestruturas no planeta Terra que, uma vez terminadas, foram colocadas à disposição, ao serviço do ser humano, para que esta espécie crescesse e se multiplicasse (como aliás já aconteceria… para plantas e animais). Assim, um tal Bill Gates não respeita o desejo do Altíssimo quando entende que deve existir um decrescimento do número de seres humanos; e esse decrescimento, claro, não incluirá o citado e os seus abastados amigos que terão o dinheiro suficiente para reservar uma poltrona de onde possam assistir a esse genocídio não assumido.

A globalização não é apenas a dos mercados comerciais e financeiros u dos vírus; deve englobar todos os aspetos com incidência na vida e no bem estar, não só dos humanos mas também dos outros seres vivos; o que, por seu turno, exige uma atenção especial, por exemplo, á gestão da água, da atmosfera, dos recursos minerais e da geografia que o planeta construiu há milhões de anos.

2 – A contabilidade do coronavírus

Situemo-nos quanto às principais causas de morte humana, no mundo (valor diário) para se entender a relevância de cada uma delas. Por curiosidade, note-se que a mortalidade mundial diária é claramente superior, em 30/40000 óbitos, à mortalidade anual portuguesa.

1 Cardiovascular diseases 48,742
2 Cancers 26,181
3 Respiratory diseases 10,724
4 Lower respiratory infections 7,010
5 Dementia 6,889
6 Digestive diseases 6,514
7 Neonatal disorders 4,887
8 Coronavirus* 4,850
9 Diarrheal diseases 4,300
Total diário 147118

                                                  *Valor médio para o período 5/5-17/5

O quadro seguinte oferece uma comparação do impacto do coronavírus no mundo, com detalhe para os países mais atingidos ou, com maior relevância populacional. Assim, procedeu-se a três retratos da situação entre os dias 19 de abril e 19 de maio, tomando como indicadores, o peso dos casos confirmados de infeção no total da população; e as parcelas de óbitos ou de recuperações no total dos casos confirmados. Considerou-se também a relevância das situações de cada país no respetivo conjunto continental.

Casos covid (% pop.total) Óbitos (% casos) Recuperados (% casos)
19/04 /2020 05/05 /2020 19/05 /2020 19/04 /2020 05/05 /2020 19/05 /2020 19/04 /2020 05/05 /2020 19/05 /2020
Mundo 0,031 0,049 0,067 6,9 6,9 6,5 25,8 33,3 39,7
Europa 0,143 0,199 0,244 9,3 9,6 9,2 28,5 38,1 44,4
   Espanha 0,422 0,540 0,602 10,4 10,2 10,0 39,5 61,7 70,5
% Europa 18,3 16,8 15,3 20,4 17,8 16,6 25,3 27,2 24,2
   Itália 0,297 0,359 0,383 13,2 13,8 14,2 25,5 40,0 58,2
% Europa 16,4 14,3 12,4 23,2 20,3 19,3 14,7 15,0 16,3
   França 0,225 0,253 0,269 12,7 15,0 15,5 29,6 30,9 34,9
% Europa 14,2 11,4 9,9 19,3 17,7 16,8 14,7 9,3 7,8
  Rússia 0,212 1,0 27,7
% Europa 16,9 16,9 10,5
  GB 0,372 10,3 nd
% Europa 13,6 13,6 nd
América N e C 0,215 0,364 0,477 5,3 5,9 6,1 10,5 18,4 26,4
   EUA 0,223 0,372 0,479 5,3 5,8 6,0 9,2 16,2 23,1
   % Am N/C 93,3 93,3 93,3 93,7 93,7 93,7 81,9 81,9 81,9
Ásia 0,008 0,013 0,019 3,9 3,5 3,0 47,4 53,8 57,9
   China 0,006 0,006 0,006 5,6 5,6 5,6 93,1 93,9 94,3
% Ásia 22,0 14,1 9,6 31,8 22,7 17,9 43,3 24,6 15,7
   Irão 0,099 0,120 0,153 6,2 6,3 5,7 69,4 80,5 77,8
% Ásia 21,9 17,0 14,7 35,1 31,0 27,8 32,0 25,5 19,8
   Índia 0,001 0,004 0,009 3,2 3,4 3,1 15,1 28,6 40,5
% Ásia 4,4 8,4 13,0 3,6 8,3 13,3 1,4 4,5 9,1
   Turquia 0,160 0,189 2,8 2.8 56,5 65,3
% Ásia 22,1 17,7 17,2 16,3 23,2 22,8
América S 0,018 0,053 0,114 4,7 5,0 5,2 35,4 34,4 36,7
   Brasil 0,018 0,053 0,132 6,4 6,8 6,6 38,0 41,6 38,8
%  Am S 47,2 47,6 55,1 64,7 65,0 70,3 50,6 57,5 58,2
África 0,002 0,004 0,007 4,9 3,8 3,1 25,0 33,8 33,8
   África do Sul 0,006 0,014 0,033 1,7 2,0 1,9 29,8 36,3 36,3
%  Africa 13,8 15,2 18,7 4,8 7,8 11,3 16,5 16,3 16,3
   Egipto 0,003 0,007 0,014 7,4 5,4 4,8 23,1 24,0 28,1
%  Africa 13,8 14,5 14,8 20,7 20,4 22,7 12,8 10,3 10,2
Oceania 0,019 0,020 0,021 1,0 1,4 1,4 63,4 86,3 92,0
   Austrália 0,025 0,026 0,027 1,1 1,4 1,4 64,0 86,0 91,0
%  Oceania 81,2 81,2 81,5 85,4 82,8 82,6 82,0 80,9 80,6

Sinteticamente, extraem-se as seguintes conclusões:

  • As infeções confirmadas a nível mundial mais que duplicaram; passaram de 0.03l% em abril para 0.067% da população, em maio;
  • As maiores presenças da pandemia evidenciam-se na América do Norte e na Europa, com 0.477% e 0.244% da população total respetivamente, em meados de maio, com uma evolução mais pronunciada na primeira área continental. Nas outras massas continentais a parcela de casos confirmados de covid-19 é substancialmente mais baixa;
  • Na Europa, todos os países considerados têm coeficientes de infetados superiores à média continental (excepto a Rússia); e em todos se regista um crescimento dos casos de infeção, no total da população;
  • Espanha apresenta, a nível global, o indicador mais elevado de casos confirmados, muito à frente dos EUA que surgem num segundo lugar;
  • O peso relativo do conjunto formado por Espanha, França e Itália reduz-se, porque os respetivos surtos se evidenciaram mais cedo, ao contrário dos que atingiram mais tarde maiores graus de contaminação (Rússia e Grã-Bretanha);
  • No continente americano, a Norte e a Sul, mostra-se, não só a grande relevância dos EUA e do Brasil no total, como também o rápido crescimento do número de infetados no conjunto das populações. Uma parte dessa rápida evolução está, certamente nos preconceitos de figuras como Trump e Bolsonaro;
  • Na Ásia, apesar do “pioneirismo” observado para a China e para o Irão, os seus indicadores são muito mais baixos do que nas populações europeias e americanas, atingindo, respetivamente 0.006 e 0.153% das populações homólogas. A Índia parece ainda longe de iniciar a redução da importância do surto, ao contrário do que acontece com a Turquia;
  • Em África, a presença da infeção mostra-se crescente ainda que com baixa notoriedade entre os africanos. A dispersão revela-se quando se observa que os países mais afetados – África do Sul e Egipto – em conjunto detêm, em maio, apenas um terço dos casos;
  • Em maio, os óbitos, a nível global, representavam 6.5% dos infetados e, na Europa mostram-se acima dos 9%, claramente acima do observado nos outros continentes. Porém, a letalidade mais elevada regista-se em França e Itália, com 15.5 e 14.2%, respetivamente;
  • Quanto à representatividade no cenário europeu há uma grande proximidade entre o volume de óbitos em Espanha, Itália, França e Rússia;
  • Na Ásia e nas Américas as taxas de letalidade são muito inferiores às observadas para a Europa; e, por sua vez, a África e a Oceânia apresentam níveis ainda mais baixos;
  • Quanto aos casos de recuperação verifica-se um aumento generalizado do seu peso no total, o que significa uma progressão mais rápida das curas, comparativamente ao surgimento de novas infeções. Em termos globais, as curas aumentaram de 25,8 para 39.7% do total das infeções, durante o lapso de tempo em observação;
  • No âmbito do ponto anterior, no caso da Europa, sublinham-se os aumentos substanciais do indicador recuperações/infeções nos casos de Espanha e Itália; mas, muito mais modestos no caso da França;
  • Os EUA e o conjunto da América do Norte e Central, a despeito do aumento das taxas de recuperação continuam com os valores mais baixos do planeta – o que é mais gravoso se se pensar no enorme volume de infetados declarados. Torna-se interessante observar a evolução e as suas causas na gestão do surto, entre EUA, Irão e índia;
  • Inversamente, sublinha-se a rapidez como a China tornou marginal a parcela de infetados à espera de uma solução da sua situação; e a lentidão como no Irão tem evoluído a parcela das curas, como resultado do comportamento disparatado do clero xiita, ao contrário do observado para a Turquia;
  • Note-se que entre dois casos mais antigos – China e Irão – a sua   representatividade no contexto asiático, se reduz substancialmente no período aqui considerado.

3 – As principais vítimas

O surto de gripe A conduziu à existência de apenas 121 óbitos em Portugal; a que não será estranho o facto de 73% dos infetados ter menos de 30 anos.  E, certamente, esse número não foi determinante para justificar a evolução da mortalidade entre 2009 (104434) e 2010 (105954) sabendo-se que o período de eclosão e acompanhamento do surto se registou nas últimas 18 semanas de 2009 e nas 6 primeiras de 2010, conforme o relatório acima referido. No entanto, constituiu o primeiro caso de declaração de pandemia por parte da OMS.

A gripe A fomentou um alarmismo desmesurado, com a ministra Ana Jorge, a referir mais um caso suspeito, algures num alto de serra, em cada noticiário. Quem foi vitimado pela gripe A protagonizou uma ida a um centro de saúde, onde estava montada uma área para os suspeitos e, seguidamente encaminhado para o hospital. Neste, quem se queixasse de tosse e/ou febre era encaminhado para um pavilhão, onde se encontravam contaminados e meros suspeitos, em ameno convívio e… contágio. A gripe A para quem a viveu, foi uma gripe como as típicas sazonais, nesta feita, trazida numa viagem ao Norte da Europa. Claro que não pretendemos com esta experiência, diminuir a virulência da atual covid-19.

No caso do coronavírus que invadiu as nossas vidas, a pandemia foi sabiamente aproveitada pela classe política para promover junto dos capitalistas um alívio do peso da mão de obra e da massa salarial em geral; e uns pagamentos públicos de responsabilidades privadas (os layoffs, por exemplo). Num país como Portugal, com tradição centenária no tráfico de força de trabalho, os capitalistas, em geral, nunca foram grandes investidores de poupanças próprias, excepto no capítulo do imobiliário; e, só tardiamente acabaram com a escravatura, por imposição inglesa, que foi, criativamente, substituída pelo trabalho forçado nas colónias. Após a descolonização e sem capacidades para copiar o neocolonialismo de ingleses e franceses, rapidamente os chamados empresários lusos se focaram em fundos públicos (particularmente comunitários) ou no tradicional laxismo quanto à cobrança de impostos e contribuições para a Segurança Social, construindo há décadas uma cultura de fuga, roubo e impunidade. Uma cultura tão longa no tempo e enraizada que se expressa num típico desabafo popular“ – no lugar dele (o incumpridor de deveres fiscais) eu faria o mesmo”.

Especialmente para quem apenas vê na pandemia o número de mortos, veja-se este quadro da situação em Portugal. Embora representem um terço dos contaminados, os mais velhos constituem 95.8% dos óbitos; e, pode-se especular sobre quantos destes falecidos, portadores de várias patologias debilitantes, teriam sobrevivido se não tivesse surgido a pandemia.

casos confirmados óbitos óbito/casos (%)
Total geral 31007 1342 4,33
60-69 3440 120 3,49
70-79 2514 261 10,38
> 80 4457 904 20,28
    Soma 10411 1285 12,34
    % do total 33,6 95,8
Recolha de dados 26/5/2020                             Fonte – DGS

Há várias razões para tal discrepância. Nas sociedades onde o mercado determina as vidas, as mortes são subprodutos da vida; mas que, por sua vez, constituem oportunidades de negócio. Os velhos, depois de anos (cada vez mais) de vida de trabalho, são tomados como uma subespécie olhada com complacência, como uma fonte marginal de acumulação de capital; mesmo que possam ser essenciais para a vida dos mais novos quando lhes deixam as suas casas, tomam conta dos netos e arredondam os proventos de filhos e netos desempregados ou com baixos rendimentos[1].

Por seu turno, os governos de criminosos neoliberais estão sempre à procura da aumentar a idade de reforma e reduzir o valor da pensão[2]. Nas sociedades de mercado, cada pessoa é um produto, uma mercadoria; e os mais velhos, tal como os  doentes, são elementos com um custo social que afeta as contas públicas embora, em rigor, o seu pecúlio vitalício para a reforma constitua um adiantamento produzido durante a vida ativa e jamais um custo orçamental. Porém, as classes políticas – tal como os sindicatos – amalgamam tudo, não apresentando capacidade política, social e ética para colocar os fundos da segurança social, em estruturas administrativas específicas fora da gula corrupta das classes políticas.

Nas sociedades de mercado a consideração e o respeito para com os “mais velhos” – típicos de todas as sociedades, em todas as latitudes e em todas as eras – é letra morta. E, assim, os mais velhos, naturalmente portadores de patologias várias que os debilitam ou tornam mais dependentes, são empurrados para lares[3], antecâmaras de morte; muitas vezes em situações de grande debilidade física e/ou demência, entregues a  instituições públicas, em condições lastimáveis ou, se privadas, perante a lógica do lucro que tende a elevar o preço ou a baixar a qualidade do serviço prestado. Há ainda a referir que, em Portugal, a qualidade e os cuidados nos lares é, em geral, baixa e, proliferam situações de lares ilegais, para as bolsas menos abonadas; e, cuja existência, em condições muitas vezes deploráveis, beneficia de uma tradicional benevolência corrupta de quem devia zelar pela qualidade de vida das pessoas, com a adequada prestação de serviços. Também no final da vida e perante diversas fragilidades, os mais velhos são fatores de acumulação de capital.

Não vamos reproduzir aqui dados sobre as variações da mortalidade no período 2016/20 para cada país da Europa divulgadas pela EuroMomo instituição na qual está presente, como representante português, o Departamento de Epidemiologia do  Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, uma respeitável instituição.

Do mesmo modo, é público (Eurostat) o acesso à verificação da muito lenta evolução da mortalidade na Europa, há alguns decénios. Por exemplo, em Portugal, os valores brutos de mortalidade passaram de 102768 em 1990 para 113051 pessoas em 2018. Assim, tomando o último elemento, morrem por dia, em média, 310 pessoas, qualquer que seja a causa. Tendo ocorrido no dia 22/3 a primeira revelação pela DGS, dos óbitos causados pelo covid-19, o seu número a 27/5 era de 1886 vítimas, numa média diária que não chega a 10% do total, o que se dilui dentro das sazonalidades anuais.

No contexto europeu, calcula-se que no período entre a 10ª e a 20ª semana de 2020, os excessos sobre a mortalidade normal tenham sido de umas 155000 pessoas, das quais 142000 com mais de 65 anos; e, com uma distribuição muito assimétrica, temporalmente limitada, entre os países europeus, como se poderá observar no já referido banco de dados do EuroMomo. Na maioria dos países europeus, a ocorrência da pandemia não é visível na exposição dos dados ou, promove apenas uma fugaz descontinuidade face à evolução no período 2016/20, no âmbito do qual inserimos abaixo, como exemplo, as situações de França, Alemanha, Espanha e Portugal.

Incluímos ainda a distribuição dos óbitos diários, em França, desde 2010. Ali se observa um intervalo onde recai a esmagadora maioria das situações, a que se poderá chamar o intervalo da regularidade; e que convive com situações fora desse quadro de regularidade, que têm a sua própria probabilidade de acontecer, como qualquer canícula, cada chuvada diluviana, cada ventania ciclónica ou, inverno particularmente frio; sendo embora mais distanciados no tempo e não previsíveis com elevado grau de probabilidade, não deixam de ser “normais”.

             Mortalidade em França nos ultimos 60 anos. Vermelho: Covid. Amarelo: onda de calor 2003. Azul: Gripe 1969/70.

Por curiosidade e quanto às grandes epidemias do século XX-XXI, registamos:

Gripe espanhola (1918/19) – 40/50 M de mortos

HIV/Sida (1981 — …) – 25/35 M

Gripe asiática (1957/58) – 1.1 M

Gripe de Hong-Kong  (1968/70) – 1M

Covid-19 (2020/…) – 354.4 m

Gripe suína (2009/10) – 200 m

Ebola (2014/16) – 11300

MERS (2012- …) – 850

SARS (2002/03) – 770

 Este e outros textos em:

http://grazia-tanta.blogspot.com/

http://www.slideshare.net/durgarrai/documents

https://pt.scribd.com/uploads

[1]  A figura da avó inválida, rodeada de toda a família no momento do pagamento da pensão é bem caraterizada no filme “Feios Porcos e Maus” de Ettore Scola

[2] O PS tem altas responsabilidades nisso, com a introdução do factor de sustentabilidade sob o patrocínio de gente do coturno de Vieira da Silva e Pedro Marques. O primeiro, passou à reforma política, deixando a ligação ao caso Raríssimas e a representação familiar na sua filha; e o segundo, estagia no Parlamento Europeu para voltar para um posto mais relevante.

[3]  Segundo a DGS, quando se cifrava em 820 o número total de mortes imputadas ao covid-19, 327 haviam ocorrido em lares . Por outro lado, em 2017, os lares tinham capacidade para 272000 pessoas (mais 116000 do que sete anos antes), num contexto de 2.2 M de pessoas com mais de 65 anos

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