O mistério da bolha imobiliária

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Em Setembro passado a chamada “bolha imo­biliária” rebentou por falta de liquidez dos bancos. Os res­ponsáveis pelos grandes centros financeiros e os polí­ticos disseram-nos na altura que a coisa não era grave, que se resolvia. Não se resolveu. Ao contrário, agra­vou-se, apesar da injec­ção massiva de milhares de milhões de dó­lares e euros nos sistemas bancários e fi­nanceiros pelos ban­cos centrais europeu, americano e de alguns outros paí­ses. E a crise, que começou por ser imobiliária, alastrou a todo os sistema económico e financeiro mundial. Agora dis­cute-se qual vai ser a sua dimensão, e todos rezam, sem saber o que fazer, para que esta não seja muita muito profunda nem a recessão cause muitos estra­gos. São os fantasmas de 1929 a querer ganhar forma.

É A GANÂNCIA, ESTÚPIDO…

Chegam assim ao fim as grandes ilusões da última década e do liberalismo económico: a de que não vinha nenhum mal ao mundo com as fortunas instantâneas e o enriquecimento ilimitado atra­vés da especulação imobiliária, e as teorias de que, ao contrário de que sustenta o (segundo eles) falido mar­xismo, os merca­dos se auto-regulam e que, por obra e graça da globalização eco­nómica, estaria ultrapassada a época das crises cíclicas do capitalismo. Depois da fa­lência da retórica sobre o fim da história segue-se a das teorias económicas dos neo­liberais a provar que Marx tem razão.

Em linguagem técnica dizem-nos que o problema está na falta de liquidez dos bancos. Ou seja, estes deixaram de ter dinheiro vivo em caixa para poder pa­gar os juros aos especuladores e fazer face aos compromissos corren­tes. Alguns dados aparecidos na im­prensa económica per­mitem perceber como se chegou aqui. A tal “bolha imo­biliária” nasceu e cresceu nos EUA, estendendo-se a todo o mundo, com a democra­tização do crédito à habita­ção, com a baixa do preço do dinheiro (as taxas de juro), que em dez anos caíram dos 13% para os 3% ao ano, e o alar­ga­mento do prazos das amortizações dos 25 para os 50 anos. Com as ditas classes médias e mesmo algumas ca­­madas operárias a dispor de mais dinheiro, permitindo-lhes investir na compra de casa própria e no imobiliá­rio, a procura cres­ceu e com ela os preços das casas, que foram fican­do cada vez mais caras, com o valor dos imó­veis a cres­­cer por vezes acima dos 10% anuais, enquanto os salá­rios cresciam a menos de 3%. Ou seja, o imobiliário tor­nava-se uma forma rápida e fácil de enri­queci­mento. Para os menos abonados, uma forma de juntar um pecúlio capaz de acautelar o futuro. Dez anos depois de iniciado este processo especulativo, o me­tro quadrado de habitação já custava o dobro, enquan­to os salários haviam subido me­nos de um terço. Mas como o juro era baixo, a subida dos preços no imobiliário não se fazia sentir no bolso do con­sumidor. Logo, tudo pare­cia correr bem.

Este esquema especulativo, tipo negócio em pirâmide, foi funcionando sem proble­mas enquanto as taxas de juro se mantiveram baixas, per­mitindo um fluxo continuado e crescente da procura, ou seja, de entrada de dinheiro vivo em quan­tidade. Com lu­cros garantidos de 10 a 15% anuais (rendimentos maio­res só se conseguem com o tráfi­co de drogas, armas e se­res humanos), os especuladores não deixaram escapar a oportunidade e inundaram o mer­cado, muitos deles com dinheiro emprestado pela banca, comprando imóveis que mantinham depois va­zios por dois ou três anos, revenden­do-os então 20 a 40 % mais caros. E em resultado do açam­barcamento, a oferta de imó­veis reduziu-se, o que se tra­duziu num aumento ainda maior dos preços das ca­sas, que dis­pararam.

Por seu lado, a construção civil, respondendo às neces­sidades do mercado, passou a construir desenfreadamente para vender principalmente aos especuladores, para açam­barcamento. Foi o tempo áureo das políticas do betão, para contento dos políticos que diziam que aquilo era cres­cimento e desenvolvimento económico, e alegria de cons­trutores, especuladores e mercados fi­nanceiros, que lu­cravam como nunca nesta economia de casino – a valo­rização dos capitais aplicados pelos especuladores não cor­responde a criação de ri­queza.

Como era o crédito barato que alimentava a especula­ção praticada pelas entidades financeiras gestoras de fun­dos de investimento e de pensões, seguradoras, imobiliá­rias, e banca, tudo se complicou em 2005, quando o Banco Central Europeu, a Reserva Federal Americana e o banco cen­tral de Inglaterra decidiram aumentar as taxas de refe­rência, preocupadas com as tendências in­flacionistas e o fra­co crescimento das suas economias. Lentamente uma onda subterrânea começou a crescer, fazendo sentir os seus efeitos dois anos depois, quando as taxas de juro se tor­naram insuportavelmente altas e as exigências bancárias para atribuição de crédito se aper­taram, reduzindo os anos das amortizações e passando a exigir fiadores e outras ga­rantias de solvência, o que pro­vocou a drástica redução da procura. Chegava assim ao fim o tempo do dinheiro barato, do crédito fácil, e com ele a possibilidade de as pes­soas comuns poderem suportarem os preços inflacio­na­dos das habitações que haviam comprado ou de adquirir novas casas. As dí­vidas aos bancos (o chamado crédi­to mal-parado) come­çaram a acumular-se e a tornarem-se incobráveis. Até que em Setembro faliu o primeiro banco e se perfilou a possi­bi­lidade real das falências em dominó, obrigando os ban­cos centrais a correr em seu socorro.

FIM DE FESTA

Hoje assiste-se a um fenómeno curioso e impensá­vel até há pouco tempo, que é o dos bancos, segurado­ras e gru­pos financeiros realizarem leilões de casas tornadas devolutas pela impossibilidade de seus proprie­tários ini­ciais em pagarem as hipotecas. Ao mesmo tempo que os preços descem – 30% nos EUA em seis meses, 7% no litoral espanhol. Em Portugal as construtoras queixam-se da crise, despedem em barda e as imobiliárias lamen­tam-se de que o negócio já não é o que era, embora a des­cida dos preços no mer­cado imobi­liário ainda não te­nha atingido os níveis de lá fora. O que só quer dizer que, certamente, o pior ain­da está para vir. Que as cha­madas “ondas de choque” ain­da não chegaram com toda a sua força, agra­vadas pelo facto de no nosso país os governos nunca terem tomado qual­quer medida anti-especulativa, como mul­tar quem mantém casas devo­lutas, fora dos mercados de arrendamento ou de venda.

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