Publicado en: 25 octubre, 2015

Netanyahu atribui o Holocausto ao mufti Amin al-Husayni!

Por Juan Bosco Martín Algarra - La Información, Madrid

Dina Porat,historiadora do Memorial do Holocausto Yad Vashem disse que as declarações de Netayahu“Bibi”são incorretas.“Não se pode dizer que foi o mufti quem deu a ideia a Hitler de matar e queimar os judeus”

Quem foi o terrível Amin al-Husayni, a quem Netanyahu atribui o Holocausto?

Ele se chamava Haj Amin al-Husayni, era um líder palestino e teria nutrido pelos judeus um ódio visceral, como o seu contemporâneo Adolf Hitler.

O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu provocou um escândalo internacional atribuindo a ele, e não aos nazistas, a responsabilidade pelo Holocausto.

Segundo Netanyahu, o então mufti de Jerusalém, Amin al-Husayni, instigou os nazistas a matarem milhares de judeus durante a Segunda Guerra Mundial.

Mas Hitler não havia sido o arquiteto e máximo responsável pelo Holocausto? A ideia de queimar os judeus vivos veio de um líder islâmico e nacionalista palestino? Os nazis não queriam matar os judeus, somente expulsá-los da Europa?

Afirmações como estas custariam mais de um problema legal a quem se atrevesse a pronunciá-las na Alemanha.

Mas e em Israel? Existe uma onda de indignação nas redes sociais, um sentimento que aponta diretamente ao autor da frase, ninguém menos que o primeiro-ministro.

Nesta quarta-feira (21/10), o diário Haaretz deu destaque à polêmica. Segundo o chefe do Poder Executivo israelense, o mufti de Jerusalém, Haj Amin al-Husayni, foi quem propôs a Hitler, numa reunião que tiveram em 1941, que não expulsassem os judeus da Alemanha. O mufti teria a intenção de evitar que eles chegassem à Palestina, e por isso teria recomendado a Hitler exterminá-los e queimá-los. A ideia foi apresentada num Congresso Sionista.

Mas quem era Haj Amin al-Husayni?

Esse líder nacionalista árabe e palestino nasceu em Jerusalém, no final do Século XIX, entre 1893 e 1895. Pertencia a uma das famílias muçulmanas mais influentes de Jerusalém.

Durante sua vida, se destacou por um forte antissemitismo, que incluiu numerosas perseguições contra os judeus nos tempos do mandato britânico sobre a Palestina, após a Primeira Guerra Mundial.

Durante a guerra, al-Husayni combateu em favor do Império Otomano, que acabou derrotado pelos aliados. Exerceu trabalhos de soldado e de líder espiritual das tropas, até ser capturado pelos britânicos.

Conscientes de sua posição de líder espiritual, as forças de ocupação o indultaram em 1921 e o nomearam grande mufti de Jerusalém. Na tradição sunita do islã, um mufti exerce funções de intérprete da “charia”, ou lei islâmica. A palavra “mufti” significa “emissor de uma fátua”, ou seja, de um pronunciamento legal do islã.

Matanças de judeus

Seu poder cresceu em 1922 quando foi eleito presidente do Conselho Supremo Muçulmano da Palestina, um cargo de grande autoridade entre os muçulmanos. Desde esta posição combateu duramente os projetos judeus, promovidos pelo sionismo, de criar o Estado de Israel na Palestina. Foi o instigador das matanças de judeus em 1929 e em 1936, além de organizar movimentos árabes que lutavam contra os britânicos e os primeiros colonos judeus que se estabeleceram no território.

Aproveitando o auge do antissemitismo na Europa, e para fugir dos britânicos, se refugiou na Alemanha nazista.

No início da Segunda Guerra Mundial, após a invasão alemã na Iugoslávia, ele utilizou sua influência para promover o recrutamento de soldados muçulmanos bósnios e albaneses, que se integraram às SS – que seriam famosas por seus massacres contra os partisans.

Entrevista com Hitler: “Queime-os”

Al-Husayni se reuniu com Adolf Hitler em novembro de 1941. Netanyahu se refere a esse encontro para afirmar que foi ele que convenceu Hitler a queimar os judeus. Segundo o primeiro-ministro israelense, naquele tempo, Hitler não queria matar os judeus, apenas expulsá-los da Europa.

Isso se contradiz ao fato, recordado por um partido político de Israel, de que, antes do encontro, já havia acontecido matanças de milhares de judeus durante a invasão da União Soviética.

Segundo a versão de Netanyahu, Amin al-Husayni temia que os judeus europeus se estabelecessem na Palestina. Então, Hitler lhe teria perguntado o que fazer com eles, e al-Husayni teria respondido “queime-os”.

Arquiteto do holocausto

Embora essa versão tenha sido fortemente contestada pela própria comunidade israelense, que sempre atribuiu a Hitler a responsabilidade intelectual pelo Holocausto, sim é verdade que a historiografia jurídica considera o então Mufti de Jerusalém como um dos “arquitetos do Holocausto”, acusado de ter solicitado o assassinato milhares de judeus aos hierarcas nazistas.

Com o final da Segunda Guerra, Amin al-Husayni tentou fugir para a Suíça, mas foi capturado pelos franceses. Conseguiu escapar e chegar ao Cairo, em 1946, onde recebeu asilo político do órgão que ele mesmo criou durante a ocupação britânica, para representar a comunidade árabe: o Alto Comitê Árabe.

Embora tanto judeus quanto iugoslavos exigissem sua extradição, para julgá-lo como criminoso de guerra, os aliados se negaram, por temor às consequências que sua entrega poderia gerar na comunidade árabe.

Durante sua permanência no Egito, ele tentou unificar os países árabes para atacar Israel de forma conjunta. Seu radicalismo foi afastando-o dos centros de poder, e o levou a perder influência.

Viveu os últimos anos de sua vida no Líbano, e morreu em Beirute, em 1974. Não pode ser enterrado em Jerusalém, como era sua última vontade, impedida pelo governo israelense.

Repercussão internacional

Não obstante, a professora Dina Porat, historiadora chefe do Memorial do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém, disse que as declarações de Netayahu são incorretas.

“Não se pode dizer que foi o mufti quem deu a ideia a Hitler de matar e queimar os judeus”, disse ela ao jornal israelense Yedioth Ahronoth.

Outro que reagiu negativamente às declarações foi o secretário-geral da Organização para a Liberação da Palestina (OLP), Saeb Erekat. “Este é um dia triste na história, já que o líder do governo de Israel, devido ao seu ódio aos palestinos, absolver o mais notório criminoso de guerra da história, Adolf Hitler, o assassino de seis milhões de judeus”, disse ele.

As tensões entre israelenses e palestinos vem piorando desde o começo de outubro, devido aos vários ataques de Israel, em aparente vingança pelos casos de violência com arma branca registrados em setembro.

O líder opositor Isaac Herzog disse que as declarações do primeiro-ministro favorecem àqueles que negam o Holocausto.

“Esta é uma distorção histórica perigosa, e exijo que Netanyahu corrija imediatamente, já que minimiza o Holocausto, o nazismo e o papel de Hitler neste terrível desastre do nosso povo”, escreveu em sua página no Facebook.

A ONU considerou “impensável” que alguém sugerisse que os palestinos estivessem por trás do Holocausto.

“Qualquer ideia de que o Holocausto contra os judeus foi inspirado pelos palestinos, muçulmanos ou quaisquer outros que não sejam os nazistas seria impensável”, disse Farhan Haq, porta-voz do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon.

“Solução Final”

Rapidamente, o próprio Benjamin Netanyahu tentou se corrigir após levantar a polêmica: “é um absurdo, eu nunca tive a intenção de absolver Hitler de sua responsabilidade de exterminar o povo judeu na Europa”, disse ele.

Em visita à Alemanha, o líder israelense, disse, em coletiva em conjunto com a chanceler Angela Merkel, que “ninguém pode negar que Hitler foi o responsável pelo Holocausto”.

Não obstante, insistiu em dizer que o mufti “disse aos nazistas que impedissem que os judeus fugissem da Europa, e apoiou a `solução final´”.

Por sua parte, a chanceler alemã afirmou que seu país assume a responsabilidade pelo Holocausto: “temos consciência da clara responsabilidade dos nazistas na ruptura da civilização a partir do Holocausto, e não vemos nenhuma razão para mudar nossa visão sobre a história”.

Já os Estados Unidos disseram que a vinculação da Palestina com o Holocausto não está respaldada pelos estudos históricos. O Departamento de Estado norte-americano, através do porta-voz John Kirby, indicou que “vimos reportagens sobre esses comentários, e observamos que a evidência acadêmica não respalda esse ponto de vista”.

Ao ser questionado se os Estados Unidos afirmava abertamente que Netanyahu estava “equivocado”, como fez o governo alemão e o líder opositor israelense Isaac Herzog, Kirby preferiu dizer que seu país busca uma visão mais ampla. “O secretário (de Estado, John Kerry) busca frear a violência na região, e para isso busca vias para restaurar o diálogo, e para isso tentamos evitar temas que possam desviar desse caminho”.

Kerry se reuniu com Netanyahu em Berlim nesta quinta-feira (22/10), em busca de soluções para o conflito entre Israel e Palestina. No fim de semana, o encarregado da diplomacia estadunidense visitará a Jordânia, onde se reunirá com rei Abdulá e o presidente palestino Mahmud Abbas.

Tradução: Victor Farinelli

 

 

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