Memória histórica. Maio de 68

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Maio de 68: onde o poder era a imaginação ou um psiu de luz,  

Um bom começo é que Maio 68 não carrega em si uma definição, é uma data. 30 de maio de 1968: o presidente francês Charles de Gaulle realiza um discurso histórico anunciando que não renunciará e conclama a população francesa a defender seus direitos e resgatar a ordem do país.

Com um desfile maior que todas as manifestações ocorridas durante todo mês rebelde, de Gaulle com seu discurso, após desaparecer durante 24 horas de todos os holofotes, consegue reunir na Champs Elysée mais de 400 mil pessoas. Uma fotografia emblemática do que poderia ser o fim de um mês revolucionário francês ocorre de modo assustador para aqueles que sonharam tanto com uma utopia socialista.

Antes de motivações calorosas ora fantasiosas há que se olhar com cuidado e relembrar alguns fatos marcantes sobre este período e todas suas contradições postas.

Um bom começo é que Maio 68 não carrega em si uma definição, é uma data. A nomeação de uma data para um fenômeno social, político que influenciou e influencia até os dias atuais traz em si a pergunta ainda não respondida: o que foi maio 68?

Andar pelas livrarias de Paris atento às publicações atuais, bem como olhar as bancas de jornais e a cada noticiário se mostra escancaradamente que tal pergunta ainda não foi respondida, não há um consenso. Uma revolução? Um movimento? Um sonho? Festa? Rebeldia adolescente?

As primeiras manifestações são contra o regulamento interior da universidade que interdita as visitas de garotas nos quartos masculinos. Não nasce na Sorbonne, coração de Paris do Quartier Latin, o Maio francês nasce num banlieue, na periferia, junto com o Movimento 22 de março com Cohen Bendit como porta voz e com um diálogo inédito entre as tradições trotskistas, maoístas e anarquistas e depois com o apoio do movimento sindical, operário e estudantil.

O desenvolvimento econômico e as rápidas transformações sócio culturais dos anos 1950 e 1960 dão a sociedade gaullista um certo conforto e a oportunidade de um advir com um dinamismo que gerará nostalgia inigualável na sua história, mas que carrega suas frustrações.

Em 1960 há uma mudança brusca educacional na França, denunciada pelo  sociólogo Pierre Bourdieu e que serve de argumento na maioria das discussões internas estudantis e operárias. Em 1960 a França contava com 13% de bacharelados, e em 1968 são 20%, em 6 anos o número de estudantes franceses dobra, obviamente tendo como consequência uma massificação educacional. A publicação de “Os herdeiros” de Bourdieu denuncia a desigualdade educacional: em 1961 uma criança filha de operário terá 1,4% de chance de realizar seu ensino  superior contra 29,5% de filhos de classe média. A escolarização aponta a desigualdade social assim como uma hereditarização e permanência de tal desigualdade institucionalizada.

Um Estado em dificuldade, a diversidade da extrema esquerda, uma economia paralisada e o Estado diante de uma crise social com 5 milhões de pessoas que vivem na pobreza e mais de 300 mil desempregados neste período. É inegável que qualquer figura de autoridade totalmente desafiada pela juventude reaja procurando a princípio sufocar a contestação e assegurar sua permanência em meio às bandeiras vermelhas e pretas. Inegável também o advir após toda desestabilização provocada a um readaptação das instituições.

Alain Badiou numa de suas definições mais recentes indica:” revolução proletária sem proletário e nem revolução…integração da classe operária à sociedade de consumação”, talvez a melhor maneira de defini-la é caracterizar suas contradições. Sua definição mais generalizada parte-se de um enigma, um multiplicidade heterogênea onde cabe falar de ao menos 3 Maios de 68:

1) maio  estudantil, nas fotos clássicas de barricadas ao redor da Sorbonne e com uma linguagem comum da esquerda.

2) Maio operário, que ocorreu longe do centro de Paris, nos chão de fábricas, de pessoas sem escolaridade e desengravatadas com uma organização que seria relembrada com a maior greve geral da história: 10 milhões de franceses, segundo os arquivos nacionais de Paris, num país com 50 milhões de pessoas.

3) Maio libertário, da revolução dos costumes, onde a estética prevaleceu sobre a política, que se concentrava em torno do teatro Odeon.

Dentre todas as contradições postas, há uma subjetividade operária que se rebela e não é mais solúvel com uma definição clássica de reivindicação. Cohen Bendit em recente entrevista resgata que uma das novidades da grande greve geral de 68 foi a negociação sindicatos-Estado, conhecido como o Acordo de Grenelle que aumenta notoriamente o salário mínimo em 35%.

Podemos falar também de um quarto Maio 68 que se deu com seu fim, com a vitória nas urnas de De Gaulle, de junho de 1968-1978, uma nova filosofia contra corrente ideológica que apresenta o fim de uma velha concepção de política, onde a linguagem comum era representada pela bandeira vermelha, uma unidade política com uma nova agenda de transformações sociais e de costumes da sociedade, mas sobretudo de uma crítica da democracia representativa de modo geral a todas organizações institucionais, constitucionais e até revolucionárias.

No entanto, apesar de sua ordem final de Maio 68 passou a ser as eleições, que desaguou em De Gaulle com um resultado reacionário nunca antes visto que acabou dissolvendo por decreto 11 organizações  de esquerda e grupos trotskistas e maoístas, o movimento de 22 de março e que obtém 294 deputados dos 485.

Edgar Morin também numa reflexão mais recente sobre a comemoração ou não de Maio, fala de uma nova classe, uma classe adolescente constituída no pós guerra, definição também utilizada pelo historiador Jean Pierre Le Goff. Segundo Morin: “ as aspirações eram de uma outra vida, livre e comunitária, foram potencialmente revolucionárias, mas falta as condições de uma revolução, e em seguida numa entrevista na revista francesa L’Obs afirma que tudo era teatralizado, teatralizada a revolução, teatralizada-se a violência”, nascia a sociedade do espetáculo, protagonizado pelos adolescentes de classe média que experiênciava um ensino  defasado, mas que no entanto, era invejado como os privilegiados futuros intelectuais da Sorbonne.

As contradições deste período são inúmeras, é significativo que as vítimas graves de Maio, inclusive os que morreram, não se encontram nas praças ao redor da Sorbonne nas barricadas repetidas em fotos emblemáticas e romantizadas do movimento, essas vítimas estão nas fábricas longe do centro urbano e fotogênico de Paris. No pós guerra, e na sociedade em desencantamento com o tão prometido progresso esbarra-se com os problemas de urbanização e as diferenças postas na geografia da cidade expressas no que fica de fora, as periferias, e o centro valorizado.

É em 1968 que Lefebvre pública “O direito à cidade”, obra essencial para compreender as contradições deste mês efervescente que põe em jogo a luta de classes sentida nos seus dilemas de representação, mas também de urbanização e processo de industrialização e o sistema educacional.

A multiplicidade heterogênea de todo contexto que esta data relembrada e comemorada por muitas frentes, se expressam na geografia da cidade e na metodologia reivindicada diante do poder, das formas organizacionais e resultados esperados, seja no Maio estudantil, operário ou o Maio talvez mais eficaz, o Maio libertário, que fez a imaginação virar poder insurge nas ruas trazendo a ruptura com todas as organizações tradicionais adicionadas a um desejo, que não é bem delimitado por qualquer objeto ou ideologia. Após 50 anos de Maio 68 não é possível sintetizá-lo e neste impossível que não se encaixou em nenhuma definição existente até então é que talvez a melhor definição seja esta impossível caracterização.

Neste pós guerra, falava-se num movimento sem líderes contra todas as autoridades, seja de um vocabulário marxista, seja a vida cotidiana ou de um advir com corpo, com desejo e sem palavras óbvias ainda sim, mesmo sendo este movimento anti-autoritário com propostas horizontais é impossível não associá-lo à Cohen Bendit, que segundo ele a força do movimento era a espontaneidade. Era uma experiência não durável, que num piscar de olhos ela se apaga, no entanto o suficiente para que ela exista ao ponto de se tornar nostálgica como uma busca incansável de uma intensidade rejuvenescedora.

Maio 68 resta ainda ambivalente e contraditório. Os diferentes atores do movimento interpretam cada um à sua maneira, concordância com um dos cartazes da época, resistência cada um à sua maneira. Para os grupos de extrema esquerda ganhamos a sociedade de consumo, as direções sindicais e o partido comunista e socialista indicam como saldo as reivindicações das relações horizontais. Ele é sintomático de uma crise da modernidade e com o mal estar incongruente e contraditória da juventude adolescente e rebelde dos anos 60. Reflete suas hesitações e a dificuldade de uma sociedade marcada por sua história, sua herança cultural que ainda não rompeu completamente com seu passado, sem ser capaz de desenhar um novo mundo. O adolescente é a exemplificação material desses paradoxos e contradições como diz Le Goff.

Entre esses dois mundos a infância e o mundo adulto em mutação é a crise da sociedade, a representatividade à espera de uma brecha (termo utilizado por Edgar Morin); um psiu de luz, um vaga-lume, para trazer a brasilidade de Guimarães Rosa, este intenso pulsar que ilumina, eterniza e orienta o desejo virar ação e construir o novo. Neste desejo há que haver corpo e muita libido.

Os adolescentes que costumam ousar com seus corpos e carregar aí um definidor essencial, a coragem. Segundo Foucault “toda coragem é física”, um indicativo interessante para questionar as resistências colocadas no mundo virtual.

Enquanto a ruptura não se apresenta luminosa, a tradição, o velho e o arcaico como De Gaulle em 30 de março, permanece mantendo a ordem e “apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”?

 

Leticia Pedrozo – Psicanalista, especialista em psicologia clínica. Atualmente estuda as relações entre política e psicanálise em Paris, onde reside

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Maio de 68: onde o poder era a imaginação ou um psiu de luz, por Leticia Pedrozo

 

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