Publicado en: 4 octubre, 2015

Memória Histórica-Indonésia: O genocídio do século XX- (2)

Por Laurez Cerqueira

Ainda estão vivas as marcas deixadas por um dos mais bárbaros ditadores de todos os tempos, Hadji Mohamed Suharto, entre elas a pena de morte, banalizada desde a “Guerra fria”.

As mãos de sangue de Suharto e a pena de morte na Indonésia

 

Para ajudar a entender o desprezo do governo da Indonésia pelos direitos humanos, ao executar o traficante brasileiro, Marco Archer Cardoso Moreira, vale a pena visitar um trecho da história recente daquele país, feita de sangue, suor e lágrimas.

Ainda estão vivas as marcas deixadas por um dos mais bárbaros ditadores de todos os tempos, Hadji Mohamed Suharto, entre elas a pena de morte, banalizada desde a “Guerra fria”.

O general Suharto fechou eternamente os olhos no dia 27 de janeiro de 2008, em Jacarta, e deixou para a história o assassinato em massa de cerca de um milhão de pessoas, coberto por um manto de silêncio.

Velado por uma multidão, incensado por admiradores, afagado com condolências de chefes de Estado das grandes potências ocidentais, Suharto foi enterrado com honras militares, como estadista.

Este fato foi tratado pela imprensa como outro qualquer e misturado no turbilhão do noticiário que desaparece todos os dias no túnel do tempo.

O Jornal Nacional, por exemplo, em sua manchete, não o tratou como ditador, mas como líder, na voz grave e aveludada do apresentador William Boner: “ex-líder indonésio, Suharto, morre aos 86 anos em Jacarta”.

Líder de quem?

O jornalista e documentarista australiano, John Pilger, um dos mais premiados jornalistas investigativos do mundo, esmiuçou a ditadura de Suharto, levantou um volume extraordinário de informações ao longo de sua vida, publicou em jornais, livros, documentários, revelou para o mundo o submundo de um dos regimes mais cruéis da história da humanidade, que deixou cicatrizes profundas na vida do povo indonésio.

Alguns órgãos de imprensa, acanhadamente, falam em 500 mil pessoas, mas Pilger afirma que o número de execuções do regime de Suaharto é muito maior, chega a um milhão.

É considerado o segundo maior massacre da segunda metade do século XX. Perde apenas para o ditador haitiano “Papa doc”, outro facínora apoiado pelos EUA.

Só no Timor Leste, sob domínio indonésio, foram mortas 200 mil pessoas, em 1975, segundo Pilger.

Além disso, Suharto lidera a lista dos ditadores mais corruptos de que se tem notícia.

Depois de 30 anos no poder, o ditador acumulou uma fortuna avaliada em 15 bilhões de dólares, o equivalente a 13% da dívida externa do país, da qual o Banco Mundial, em grande parte, é credor.

A família Shuarto controla pedágios, bancos, rede hoteleira, extensões de florestas, rede de imobiliárias, shopping-centers, revendedoras de automóveis e empresas de muitos outros ramos de atividade.

Uma ditadura para proteger negócios

A história da ditadura de Suharto começou por volta de 1965/66, quando comandou as tropas que derrubaram o presidente nacionalista Achmed Sukarno, no governo desde o fim da colonização holandesa.

Em 1967, logo depois do golpe, em plena “Guerra Fria”, o grupo Time-Life Corporation promoveu em Genebra uma conferência, realizada em três dias, na qual foi discutida a partilha corporativa da Indonésia.

Suharto dividiu a mesa dos trabalhos da conferência com os representantes dos maiores grupos capitalistas do mundo, gigantes dos negócios do Ocidente, como David Rockefeller e outros do mesmo porte.

Mandaram representantes, os principais bancos, empresas petrolíferas, montadoras de automóveis, indústria química, de comunicação, de papel e outras.

O grupo Time-Life Corporation, que promoveu essa conferência, é o mesmo que injetou na Rede Globo, em 1962, US$ 6 milhões de dólares a fim de estruturar a TV e outros veículos de comunicação da família Marinho, segundo o livro “A História Secreta da Rede Globo”, do jornalista Daniel Hertz.

Grande parte dos técnicos indonésios, que acompanhavam Suharto na conferência havia chegado de uma jornada de estudos nas universidades da Califórnia e Berkeley e estavam ali para apresentar as informações sobre os principais atrativos do país: mão-de-obra abundante e barata, recursos naturais à vontade e um mercado potencial inestimável.

Na reunião foram discutidas as linhas gerais do que seria uma economia de mercado e os técnicos se encarregaram de detalhar as medidas a serem adotadas.

A Fundação Ford bancou o plano através do Centro de Estudos Internacionais e do Instituto de Pesquisas Stanford.

O economista Dave Coler, da Universidade de Harvard, foi encarregado de chefiar a equipe e redigir o plano em detalhes.

Coler havia concluído a reforma bancária na Coréia do Sul para adaptar o sistema financeiro daquele país ao mercado financeiro internacional. O mesmo foi feito na Indonésia.

A Indonésia repartida

A Indonésia foi repartida em cinco setores: mineração, serviços, indústria leve, finanças e sistema bancário.

Assim as empresas montaram a infraestrutura dos negócios e estabeleceram as condições para entrada no país.

A Freeport Company ficou com o cobre de Papua Ocidental (Henry Kissinger, até recentemente fez parte do conselho diretor da Freeport); um consórcio americano e europeu ficou com o níquel; a Alcoa ficou com a maior parte da bauxita; um grupo de empresas americanas, japonesas e francesas ficou com as florestas tropicais de Sumatra, Papua Ocidental e Kalimantan.

A Cargil, que hoje domina o comércio mundial de alimentos, ficou com as regiões de terras mais férteis, para o agronegócio.

Suharto baixou um decreto isentando os grupos estrangeiros de impostos por cinco anos e criou o Intergovernamental Group on Indonésia (IGGI), formado por representantes dos Estados Unidos, do Canadá, da Europa e da Austrália, mais o FMI e o Banco Mundial, para gerir a economia do país.

A partir de 1967 a Indonésia foi inundada de dólares. O Banco Mundial, em seus relatórios, referia-se ao governo de Suharto como “O menino-modelo da globalização” e do “Milagre da Ásia Ocidental”.

Entre os anos 1960 e 1990, os chamados “Tigres asiáticos” (Indonésia, Coréia do Sul, Taiwan ou Formosa, Cingapura, Tailândia, Malásia e Hong-Kong), eram considerados modelo de desenvolvimento.

Seguiam religiosamente as regras impostas pelas agências internacionais, cresciam vertiginosamente à custa do capital estrangeiro, de recursos naturais e de mão-de-obra barata da região.

Margareth Tacher, em meados dos anos 80, chegou a dizer à imprensa: “Suharto é um de nossos melhores e mais valiosos amigos”.

Um dos maiores massacres da segunda metade do Século XX

O golpe militar, iniciado em 1965, levou a Indonésia a um banho de sangue. Depois da conferência, Suharto se convenceu de que era necessário liquidar toda a oposição que ainda restava no país.

Assinou vários acordos de cooperação militar e de segurança, principalmente com os EUA e com a Inglaterra.

Foi deslocado para a Indonésia o maior contingente de agentes da CIA e de instrutores para treinamento das forças armadas e da repressão policial de que se tem notícia.

O país foi transformado no maior laboratório da CIA de repressão política no CIA no mundo.

Essa operação, denominada “operação modelo”, pelos agentes da CIA serviu de experiência para a “Operação Fênix”, no Vietnã, onde esquadrões da morte mataram cerca de 50 mil pessoas, e para preparar grupos para atuar em outros países, muitos deles na América Latina.

Essa escolha da Indonésia para ser um laboratório de repressão política não foi à toa. Entre 1959 a 1965, mais de 15 milhões de pessoas filiaram-se a partidos políticos ou organização de massa no país, estimuladas a desafiar a influência britânica e norte-americana na região.

Segundo o historiador australiano, Harold Crouch, o PKI – Partido Comunista da Indonésia, era o maior partido comunista do mundo fora da URSS e da China, com mais de três milhões de filiados.

Um partido que não dispunha de organização suficiente para uma insurreição armada, se restringia à defesa dos interesses dos pobres dentro do sistema vigente. Crescia, aceleradamente, mais que qualquer outro, e se popularizava com as grandes manifestações de massa.

Aos olhos da CIA e de Suharto, o crescimento do PKI representava um perigo para a região. No vizinho Vietnã a situação não era boa para os Estados Unidos e aliados.

Entre 1965 e 1966, de posse da lista de filiados e ativistas, Suharto, com a colaboração da CIA e do serviço secreto britânico, segundo a jornalista americana, Kathy Kadane, dividiu a Indonésia em regiões de maior concentração de membros do partido comunista e deu início à perseguição numa chamada “operação limpeza”.

Milhares de pessoas foram retiradas de suas casas e executadas em plena luz do dia.

Kadane escreve que os agentes da CIA que acompanhavam os militares na operação iam riscando os nomes das listas, à medida que as pessoas iam sendo executadas.

Os relatos das torturas e execuções são inimagináveis, tal a brutalidade dos militares de Shuarto.

Pessoas eram sequestradas e decapitadas, as cabeças apareciam sob muros nas ruas de Jacarta ou de outras cidades.

As matanças foram mais monstruosas em Bali. A escritora inglesa Carmel Budiardjo, ex-presa política, conta que na ilha de Bali foram executadas 80 mil pessoas.

As pessoas eram dominadas, as mãos amarradas e executadas. Nas aldeias indonésias, jovens foram trucidados, os pênis arrancados e alinhavados em fileiras para depois contar os mortos.

Testemunhas relataram ter visto rios com incontáveis corpos boiando sobre as águas, como toras.

Os métodos de tortura adotados nos interrogatórios eram os mesmos utilizados no Vietnã, no Cambodja, na Coréia, no Chile, na Argentina, no Brasil e noutros países.

A ilha de Buru durante muitos anos recebeu milhares de prisioneiros sem alojamento, alimento ou água. Lá morriam.

Haru Atmojo, um ex-oficial da aeronáutica, leal a Sukarno, julgado por um tribunal militar especial e condenado à prisão perpétua, hoje vive em Jacarta e conta que passou quinze anos na prisão, em grande parte numa solitária.

A primeira cela, nas montanhas geladas de Bandung, conta ele, era tão pequena que não conseguia sequer se deitar. Uma forma de tortura que matava lentamente.

Essa prisão foi construída pelos holandeses na época da colonização para encarcerar pessoas pelo prazo de doze dias, antes dos interrogatórios.

Atmojo amargou 15 anos nessa prisão e sobreviveu para contar esta e outras histórias terror na Indonésia.

Agentes da CIA, que recusaram se identificar para imprensa, na época, revelaram que os métodos utilizados nos interrogatórios e na repressão política foram pesquisados em relatos de livros do período da inquisição. Segundo eles, os métodos do Santo Ofício eram muito eficientes e estavam sendo testados na “operação modelo” com muito sucesso.

Robert J. Martens, ex-adido político da embaixada americana em Jacarta e Joseph Lazarsky, subchefe do escritório da CIA também em Jacarta, confirmaram à imprensa que eles passaram ao exército de Suaharto uma lista de 5 mil pessoas, consideradas as mais importantes cabeças do PKI, para serem executadas.

Muitas delas queriam vivas para serem interrogadas, mas ao resistir à prisão e foram fuziladas. Outras morreram nos interrogatórios. Os agentes da CIA se queixaram de que no início das operações Suaharto não dispunha de esquadrões de matadores e inquisidores suficientes para eliminar e interrogar todas as pessoas da lista. Tiveram que preparar os esquadrões.

A CIA, no início, avaliou o exército de Suharto e o considerou precário para as operações planejadas. Sugeriu a Washington, em relatório, investir em equipamentos. O pedido foi atendido prontamente.

Uma rede completa de comunicação foi levada em voos noturnos a Jacarta, por aviões da força aérea americana baseada nas Filipinas.

Os equipamentos eram de última geração com frequências altas, conhecidas da CIA e da Agência de Segurança Nacional que assessorava o ex-presidente Lyndon Johnson.

A indústria de armas, naquela época, crescia a níveis inimagináveis. As ditaduras se espalhavam pelo mundo como erva daninha e os acordos de cooperação militar proliferavam nos moldes da doutrina de segurança nacional.

Além da Indonésia, Índia, Paquistão, Iraque, Israel e outros, são exemplos de países que foram às compras no mercado de armas. Estados Unidos e Inglaterra lideravam a venda.

Na década de 80, no governo de Margareth Tatcher, quase metade das verbas destinadas à pesquisa e desenvolvimento foram destinadas à pasta da defesa.

Naquela época, a Indonésia foi beneficiada por um empréstimo subsidiado pelo governo britânico, quase uma doação, de 1 bilhão de libras esterlinas para compra de caças-bombardeiros.

O serviço secreto britânico já dispunha de informações suficientes para sugerir à Primeira-Ministra algo do gênero, tendo em vista os negócios britânicos na região.

O mundo girou, o tempo passou e a crise chegou.

Na segunda metade dos anos 1990 a crise chegou aos “Tigres asiáticos” de forma devastadora. Os “Tigres asiáticos” se transformaram em “tigres de papel”.

As economias que eram centradas no direcionamento da indústria para exportação de bens de consumo, em altos investimentos externos e no aproveitamento de mão-de-obra barata e qualificada, começaram a dar sinais de esgotamento no início dos anos 1990, com o declínio das exportações, aumento do déficit público e maior dependência de empréstimos estrangeiros.

Essa necessidade de financiamento externo tornou os “Tigres asiáticos” presas fáceis dos ataques especulativos, que começaram a ocorrer em julho de 1997 e tiveram seu ápice em meados de 1998.

As bolsas despencaram na região e as economias daqueles países foram à bancarrota. Naquela época a grande gambiarra eletrônica e financeira internacional movimentava mais de US$ 2 trilhões  por dia. Hoje supera US$ trilhões.

Em essência, esse mercado é responsável pela captação da poupança da sociedade para aplicá-la nos negócios mais lucrativos, realizam lucros espetaculares e migram para outras praças.

A crise tinha como epicentro as economias do Japão e da Federação Russa. No final de 1997, a quarta maior instituição financeira do Japão, a Yamaichi Securitis, decretou falência.

As autoridades monetárias japonesas revelaram naquele momento que as instituições financeiras do país totalizavam mais de US$ 580 bilhões em títulos podres, de difícil recebimento. O sistema financeiro japonês entrou em colapso.

Os bancos pararam de emprestar dinheiro, levando à falência inúmeras empresas. Para compensar as perdas causadas pela inadimplência, os bancos japoneses resolveram retirar dinheiro de outros mercados, principalmente dos “Tigres asiáticos”.

Suharto não servia mais aos negócios do Ocidente. O país estava com uma dívida de US$ 262 bilhões, valor correspondente a 170% do PIB do país.

O Tribunal de Contas do governo dos Estados Unidos examinou a situação financeira da Indonésia e constatou que o Banco Mundial havia perdido US$ 10 bilhões naquele país.

O Tribunal informou ao Senado detalhes sobre propinas, desvios e fraudes, que o Banco ignorara nos relatórios internos, para não contrariar a família Suharto e seus amigos.

Os relatórios indicavam que pelo menos 30% dos empréstimos do Banco estavam sendo desviados para funcionários e políticos do Governo da Indonésia.

Uma onda de protestos, puxada pelos estudantes, contra o governo e a intervenção do Banco Mundial e FMI, tomou as ruas de Jacarta e de outras cidades.

Nos confrontos os militares levaram para as ruas os veículos blindados britânicos antimotim, mas já era tarde. Shuarto não resistiu aos protestos e caiu em junho de 1998, deixando em seu lugar Jusuf Habibie, um de seus delfins, que continuou com a linha dura na política.

A Indonésia é hoje um dos países de maior desigualdade no mundo, com mais de 70 milhões de pessoas pobres, condenadas a pagar as dívidas contraídas pelo ditador.

A agricultura familiar deu lugar ao agronegócio, milhões de famílias foram expulsas das terras, numa verdadeira diáspora, e se amontoaram nas periferias das grandes cidades, em condições subumanas, vivendo em favelas, com esgotos a céu aberto, condenadas ao mercado de trabalho informal ou, quando na indústria, ganhando salários que mal dá para a ração de subsistência.

A agricultura autosustentada foi varrida do mapa, dando lugar ao sistema diarista, concebido pelo Banco Mundial, como “solução” para a multidão que perdeu suas terras.

Enfim, esse é um breve resumo da história de um dos maiores massacres da segunda metade do século XX, de entrega de um país aos grandes negócios, de condenação de uma enorme população à pobreza e à violência.

Suharto cerrou os olhos, definitivamente, sem nunca ter sido julgado por um tribunal. Certa imprensa brasileira olhou de soslaio o ditador em seu leito de morte e o chamou de “Líder”, talvez pelos serviços prestados ao Ocidente.

Se ele tivesse sido um governante anti-Ocidente, seguramente seria chamado de ditador, seu currículo de atrocidades teria sido divulgado com estardalhaço.

Como o mundo dá muitas voltas, na cobertura da execução do brasileiro Marco Archer, repórteres da TV Globo tiveram seus passaportes confiscados pelo governo indonésio.

Certamente a Globo faria imagens do brasileiro para explorá-las à exaustão, como sempre faz, e com isso ganhar mais dinheiro. Não devia estar interessada em mostrar a barbárie estabelecida na Indonésia, onde a banalização da pena de morte é apenas um detalhe de toda a violência no país.

Quanto ao que representou Shuarto para os EUA, Inglaterra e outros países do ocidente, o governo dele pode ser resumido no que disse, em tempos idos, Franklin Roosevelt, sobre o ditador dominicano, Rafael Trujilo: “Ele pode ser um filho da puta, mas é nosso filho da puta”.

 

(*) Laurez Cerqueira é autor, entre outros trabalhos, de Florestan Fernandes – vida e obra; e O Outro Lado do Real

As mãos de sangue de Suharto e a pena de morte na Indonésia, por Laurez Cerqueira

 

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