L.A.Tckeskiss – Curso Básico de Materialismo Histórico em 14 lições.

«A religião devera por isso morrer, juntamente com a evolução da ciência e com o aniquilamento da sociedade de classes. Os dominantes do céu serão destronados juntamente com os dominantes da terra.»



Em nossa lição não nos ocuparemos com as questões sobre a história da religião e sobre as causa das diversas formas de religiões existentes entre os povos primitivos. Tentaremos somente explicar a gênese, o conteúdo social e o papel que a religião desempenhou na história da humanidade.

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A religião é, por um lado, o resultado da necessidade que teve o homem de compreender e conhecer os fenômenos da natureza, dos quais ele dependia inteiramente, por outro lado, de sua inexperiência e incapacidade em compreendê-los. A influência do homem primitivo, pouco desenvolvido e inexperiente, sobre a natureza foi muito limitada — o homem só conhecia a natureza externa pela sua influência sobre ele.

O homem primitivo sentia a cada passo sua submissão ao mundo exterior, aos fenômenos do meio em que se achava. A princípio procurou ele meios de dominá-los, submetê-los a si. Nasceu então a necessidade de conhecer o mundo circundante e compreendê-lo. E não fazendo distinção entre ele próprio e os outros fenômenos da natureza, humaniza então a natureza, como diz Feuerbach (animismo).

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Sendo as relações sociais de então, muito estreitas, limitadas aos ramos de parentesco de sangue, procurou o homem por meio dessas relações, explicar os fenômenos da natureza. As faces “más” da natureza, ele as apreciava como más para ele e os mesmos meios que empregava para evitar o lado mau nas relações com outros homens, empregava também para com os “maus” elementos da natureza. E quando na sociedade surgiu a diferenciação de seus membros, quando a divisão social do trabalho tornou possível a certos membros o se destacarem, ocuparem lugar saliente, começarem a dominar — foi então, que o homem primitivo começou a “divinizar” os fenômenos importantes da natureza, submetendo-se a eles. Todos os fenômenos impressionantes tornaram-se para ele como revelação de grandes forças “dominadoras”, como “Deuses”. E cada fenômeno importante que atrai sua atenção, ele o explica por uma força boa ou má, segundo sua significação para ele. Desse modo agrupou ele os fenômenos naturais em deuses grandes, bons e maus, etc.

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Nessa tentativa de explicar a natureza e seus fenômenos é que está a gênese da religião e da ciência. Dessas explicações começa a nascer a concepção do mundo, do homem primitivo. A princípio a religião abrange no círculo de sua influência todos os fenômenos da natureza. Com a evolução da sociedade começaram a destacar-se diversos fenômenos, e alguns colocam-se até em oposição a ela, tornando-se seus adversários e provocando sua destruição. Este fenômeno é que deve ser analisado mais profundamente.

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Quando o homem começou a interessar-se por certo fenômeno, começou ele desde então a observá-lo, atribuindo-o a uma certa força que está acima do homem e que o domina. Como o homem primitivo era muito fraco na luta contra a natureza, considerava ele quase todos os fenômenos como forças superiores, divinas, que agem sobre ele e sobre as quais ele não sabe como agir. Nisso já há uma contradição entre a religião e a ciência na primeira época do desenvolvimento da religião. Com efeito, desde que determinado fenômeno atrai a atenção do homem, ele tem de investigá-lo, mas, por outro lado, atribuindo a causa desse fenômeno a uma força divina superior, ele se opõe com isso ao estudo do dado fenômeno, impedindo desse modo os primeiros passos da ciência, porque a ciência exige a investigação do fenômeno, isto é, achar a ligação do fenômeno dado com outros fenômenos; mas, se a causa do fenômeno é atribuída a uma força divina, desaparece com isso a possibilidade de que esteja ligado a outros fenômenos ou causas.

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Temos, portanto, aqui dois momentos:

1º, o momento de observar e estudar os fenômenos,

2º, o momento de explicá-los, que impede a investigação.

Na evolução posterior da religião, sai por completo de sua competência o primeiro momento, ficando somente nela, o segundo, isto é, o momento de explicar os fenômenos, o que já não podia levar a nenhum progresso, mas ao contrário, impedi-lo.

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Esta contradição desenvolvia-se cada vez mais no decurso do desenvolvimento da ideologia: a observação e o conhecimento (na fase da experiência), — avançam em direção à ciência, e a explicação — em direção a religião. Temos aqui a marcha da evolução, segundo a tríade de Hengel.

A tese, isto é, a explicação dos fenômenos, atribuindo-os a forças sobrenaturais, sobre as quais o homem não pode agir; a antítese, isto é a observação, o conhecimento, e na base da experiência, investigação dos fenômenos, submetendo-os a si, ou aproveitando-os para os interesses da humanidade; a síntese, isto é, uma nova espécie de explicação dos fenômenos que não os atribui mais a forças sobrenaturais, mas que se baseia na explicação científica e na experiência. O elemento da fé existe na síntese, porque, por isso mesmo que se baseia na ciência, crê que esta deverá abranger com o tempo, no círculo de suas explicações, todos os fenômenos do mundo, orgânicos e inorgânicos, e dominá-los. Uma tal fé é um elemento positivo no progresso da ciência.

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Mas a ideologia não se desenvolvia de modo tão simples, que a tríade se apresentasse tão facilmente. Uma coisa, como uma ideologia acha-se, em seu desenvolvimento, intimamente ligada às relações sociais e torna-se dependente delas. Se assim não fosse, somente como no seu início, — tentativa de acumular experiências e explicar os fenômenos, e se ela evoluísse somente segundo essa lógica, haveria já centenas de anos que a religião teria sido substituída pela ciência. Assim, porem, não aconteceu e nem poderia ter acontecido. A religião, em seu desenvolvimento, desligou-se de seu conteúdo lógico, colocando-se a serviço desta ou daquela classe, ou camadas, em suas lutas pelo poder e domínio. Diferentes campos da religião começam a desligar-se e destacar-se dela, desenvolvendo-se segundo sua própria marcha. Mas a parte principal e mais influente, ligou-se a este ou aquele domínio de classe.

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Ao ser estudada a história da religião, nota-se, dum lado, a formação de certos ramos que se desligam aos poucos da religião e formam a base da ciência, e, por outro lado, observa-se que a parte explicativa da religião permanece. A “religião”, no sentido atual da palavra, se acha ligada á correspondente organização social – a Igreja, colocando-se a serviço das classes dominantes, servindo como meio de escravização e de obscurantismo.

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Vimos que a religião em seu inicio foi uma tentativa para explicar o incompreensível que circundava o homem primitivo. Essa explicação atribuía aos fenômenos naturais as relações reinantes na convivência dos homens. Na sociedade, o homem podia evitar certos atos prejudiciais a ele pólo suborno do chefe supremo, por exemplo, o patriarca. Esse fato o homem transportou aos fenômenos da natureza, no sentido de poder evitar também as más ações da natureza, subornando os deuses. A religião é, assim, não só uma imagem, uma fé, um estado psicológico do homem, como também se torna causa da atividade do homem, em se subordinar á natureza. Cada religião devia ter, portanto, um culto. A religião primitiva não era uma crença abstrata, ela exigia atos e atividade. O culto em diferentes épocas podia adotar formas diferentes, o seu conteúdo, porem, era sempre a divinização de certas forças, que exigem, segundo a imaginação humana, uma certa atividade humana que se expressa em trazer sacrifícios, preces, ao Deus dominante, para facilitar a vida do homem, e conseguir as coisas que lhe eram necessárias. A finalidade do culto é submeter a si as forças naturais que agem sobre o homem. É por isso que as forças naturais não existiam para o homem primitivo como unidade, mas como forças distintas; esforçou-se ele por subornar cada fenômeno isoladamente, para adaptar-se a eles e explorá-los. O conteúdo da religião, o culto, pode por isso ser considerado, do ponto de vista biossociológico, como uma suposta adaptação do homem á natureza, que naturalmente nenhum resultado prático trazia.

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É evidente que quanto mais experiências o homem acumula, tanto mais deixa ele de explicar teologicamente os fenômenos. Ele começa a interpretar cientificamente os fenômenos, e aí é que começa o processo histórico de se destacarem diversos campos, que saem do domínio da religião.

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Como se realiza este processo?

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Sabemos pela historia da religião que ela esteve ligada á feitiçaria.

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O homem primitivo, por um lado, sofria por certos fenômenos da natureza externa, os quais atribuía a certos deuses, mas por outro lado, sentia também as vezes, dores internas, cuja origem não compreendia, porque não via sua causa na natureza, e enquanto procurava evitar os sofrimentos exteriores, subornando a Deus, por meio de sacrifícios ou preces, procurava ele evitar as dores interiores por meio de ervas ou passes de mágicos feiticeiros.

Deste modo ficaram ligados os dois momentos. Os que acumularam mais experiências puderam auxiliar outros homens, em suas dores; tornam-se os intermediários entre o homem e as forças da natureza externa, ou dos deuses, passando a ser dirigentes e executores do culto. A atividade que está ligada ao culto se destaca do trabalho comum. O culto pode somente ser exercido por determinado grupo social.

O mágico liga-se ao sacerdote e se torna o intermediário entre Deus e o homem.

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A religião, em seu inicio e até mesmo em sua evolução posterior, procura abranger todos os fenômenos da natureza. Porquanto representa o culto, reflete as relações sociais, torna-se por isso cada vez mais complexa e cresce juntamente com a evolução social e seu desenvolvimento assume uma forma especial: isso porque, os fenômenos simples que podem ser observados e por isso mesmo estudados, se destacam e são estudados cientificamente. A religião deixa, por isso, de explicar certos fenômenos naturais pela vontade de Deus. Se na sociedade patriarcal a religião abrange a todos os fenômenos naturais e sociais e suas explicações são demasiadamente simplistas, é porque a vida é também simples. Ao considerarmos, porém, a atual religião, notamos que, de um lado, paralelamente com a complexidade das relações sociais, a religião também se torna cada vez mais complexa, e, por outro, se destacam da religião os fenômenos físicos, químicos e até biológicos, que se tornam objeto de estudos científicos. Na religião só permanecem os fenômenos que tem ligação com o espírito humano e os fenômenos sociais, porque a sociedade burguesa tem interesse na explicação religiosa (teológica) dos fenômenos sociais (1).

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Esta é uma marcha geral do desenvolvimento da religião, que depende, de um lado, do desenvolvimento da ciência, e, de outro, das relações sociais. Os dois momentos se entrelaçam intimamente, mas não se pode fundir, porque seus conteúdos são opostos.

O desenvolvimento da ciência provoca a morte da religião, os interesses das classes dominantes, exigem o fortalecimento da religião para que as grandes massas continuem sob seu domínio. Mas apesar disso, uma vez que a evolução das forças produtivas exige o desenvolvimento da ciência, já a burguesia não pode impedir seu desenvolvimento, pode apenas traçar-lhe certos limites, sendo-lhe impossível detê-la. Desta forma sucede que, juntamente com o desenvolvimento da ciência, desenvolve-se a oposição á religião. A religião surgiu da necessidade de explicar a compreender os fenômenos naturais; da busca de explicação a esses fenômenos foi que se constituiu o inicio da ciência. Mas com o decorrer do tempo, esta ultima abrange cada vez mais fenômenos, e se torna por isso cada vez mais largo seu campo e estreito o campo da religião, até que chegara uma época em que não sobre mais lugar para esta.

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Costuma-se até mesmo conscientemente confundir religiosidade com certas manifestações humanas, como êxtase e a admiração. Com esta confusão pretende-se fortalecer a religião.

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Do ponto de vista materialista, este fenômeno não tem nenhuma ligação lógica. Quando o homem se coloca ante a natureza, da qual ele representa uma partícula ínfima, quando ele alcança e abrange a infinidade do universo maravilhoso, forma-se no seu intimo certo êxtase e certa admiração.

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Este estado contemplativo é o resultado de que o homem pode abranger com seu espírito a grandeza, sem saber de o­nde ela vem nem para o­nde vai.

Tal estado de êxtase existirá, talvez, sempre; o homem sempre admirará a natureza e essa admiração crescera mesmo, com o desenvolvimento da ciência, porque esta mostra ao homem cada vez mais grandezas e infinitos da natureza e lhe dá de mais em mais possibilidades de submetê-la a si, aumentando dessa forma seu domínio.

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A religião, ao contrario, esta sempre ligada ao culto em varias formas. Ela se acha ligada á submissão do homem a uma força superior a ele e que por isso pode ser a ele submetida. Uma tal crença tem por isso de provocar um sentimento de impotência e submissão do homem, e levá-lo rapidamente ao desprezo de si próprio e ao fatalismo.

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A religião devera por isso morrer, juntamente com a evolução da ciência e com o aniquilamento da sociedade de classes. Os dominantes do céu serão destronados juntamente com os dominantes da terra.

(1) Devemos observar que ultimamente se nota entre a burguesia uma tendência em manter as massas na ignorância, rejeitando a explicação científica até mesmo de fenômenos naturais mais conhecidos para ligá-los à religião…

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