Kirchner x Clarín: Argentina resolveu enfrentar o PiG (*)

O grupo de comunicação Clarín, que se insurgiu contra uma operação da Receita Federal argentina, realizada o­ntem na sede da empresa, é diretamente afetado pelo projeto que regula as comunicações, enviado ao Congresso daquele país pela presidente Cristina Kirchner.

Desde o envio do projeto, nos últimos dias, aumentou a temperatura do confronto entre os principais conglomerados da mídia, como o Clárin, e o governo Cristina Kirchner. “Esse confronto já era previsível”, afirma o jornalista Dênis de Moares, professor do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Em entrevista a Paulo Henrique Amorim, Dênis de Moraes ressaltou que o projeto do governo muda radicalmente a concentração da mídia na Argentina. A proposta, de 21 pontos, foi elaborada a partir da discussão com empresários, trabalhadores da comunicação e mães da Praça de Maio, entre outros grupos sociais envolvidos. As audiências populares, em várias ocasiões, foram presididas pela própria Cristina Kirchner.

Entre as medidas propostas, há a proibição de um mesmo grupo empresarial concentrar atividades nos diferentes meios de comunicação – jornal, rádio, TV, revistas e internet, além da limitação ao número de emissoras de TV e rádio que cada grupo poderá manter.

Para Dênis de Moraes, que é autor do livro “A Batalha da Mídia – Governos Progressistas e Políticas de Comunicação na América Latina”, essa legislação coloca em confronto o grupo Clarín, mais poderoso conglomerado de mídia da Argentina, e o governo federal.

“O objetivo do Clárin é desestabilizar os Kirchner e fazer com que volte ao poder um grupo de centro-direita”, diz .

O objetivo do Clarín, como da grande mídia argentina é desestabilizar os Kirchner, fazer que volte ao poder um grupo de centro-direita, diz Moraes.

Segundo ele, a legislação enviada ao Congresso é parecida com a que vários governos da região fizeram para enfrentar o PiG (*), como nos casos do Equador, Bolívia, Venezuela, e, de forma mais suave, os governos de esquerda moderada do Uruguai e do Chile.

O Brasil destoa dessa tendência latino-americana pois, segundo Dênis de Moraes, o governo Lula parece “temer a artilharia midiática” e não teve visão estratégica. O Brasil, diz ele, está na retaguarda da América Latina.

“Nossa legislação sobre TV comunitária do Brasil é a mais atrasada do continente”, sentencia.

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Em tempo:

A causa mais recente da tensão entre os Kirchner e a família Herrera de Noble, que controla o Clarín foi o apoio que o Clarín deu aos grandes produtores rurais argentinos, que tentaram criar um lock-out igual ao lock-out dos caminhoneiros que a CIA construiu para derrubar o presidente Salvador Allende, do Chile.

Cristina Kirchner impôs tarifas sobre a exportação de produtos agrícolas e os fazendeiros, com o apoio febril do Clarín tentaram desafiá-la.

Ou ela ficava na Casa Rosada ou os fazendeiros e o Clarín jogavam uma bomba e ela morria com uma metralhadora na mão, como Salvador Allende. Tão simples quanto isso.

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**Dênis de Moares, professor do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF).

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(*) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.

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