Publicado en: 15 octubre, 2015

Internacional-Grécia: Entrevista com Yanis Varoufakis

Por Yanis Varoufakis - Left East

‘A janela que se abriu em janeiro, quando o Syriza era a esperança, se fechou em julho, porque não aproveitamos nossa oportunidade.’

União Europeia e a janela da oportunidade

 Você costuma falar de uma janela que foi aberta para a Grécia no começo deste ano, que ela seria a oportunidade de mudar as injustas regras do jogo na União Europeia. Mas, no final do verão europeu, depois do referendo, essa janela teria se fechado. Como você descreve as circunstâncias que abriram e fecharam essas janelas?

A crise que empurrou a Grécia à grande depressão levou 1,5 milhão de pessoas à pobreza, numa população de 10 milhões, e isso criou um desemprego generalizado, provocou desesperança e a uma onda migratória, até que chegou um ponto no qual as pessoas estavam tão fartas de tudo que rechaçavam qualquer proposta dos canais de televisão, ou dos jornais, ou do establishment europeu, e decidiram apoiar um pequeno partido que foi capaz de dizer “não” a esta crise que se autoperpetua, e deram um mandato a nós, ao Syriza, para que fôssemos à capital europeia e disséssemos: “não vamos aguentar mais isso, porque isso não traz nenhum bem nem à Grécia nem à Europa”. Nos deram a oportunidade de enfrentar todas essas pressões e os temores inspirados pelo establishment, pelos meios de comunicação, pela propaganda e tudo o mais. Um mandato político não é algo que dura muito, e se você não o utiliza para efetuar as mudanças que foram pedidas, ou pelo menos para resistir junto com essas ideias, as pessoas perdem a fé em você, na política como um todo, que é o que aconteceu nas eleições de finais de setembro: houve 1,6 milhão de votos menos que no referendo de julho. A janela que se abriu em janeiro, quando éramos a esperança, se fechou em julho, porque não aproveitamos nossa oportunidade.

É evidente que a Rússia pretende se apresentar como uma alternativa à ordem internacional atual e à política ocidental em geral. Você acredita que a Rússia é uma verdadeira alternativa política, considerando o modelo social?

Resposta: olha, a União Soviética era uma alternativa ao capitalismo, à combinação entre a propriedade privada e o mercado. Havia o gosplan, o modelo de planejamento econômico soviético, uma ideia de economia que era decididamente uma alternativa para o Terceiro Mundo, e também houve apoio da União Soviética aos movimentos anticoloniais do mundo inteiro. O fato de que também foi criado o gulag (sistema de campos de trabalhos forçados para opositores do regime) é outra questão, mas era um modelo alternativo. A Rússia de hoje não é um modelo alternativo. O resto do mundo não pode funcionar como a Rússia. O resto do mundo poderia operar como uma economia planificada, como a União Soviética, se estivesse melhor desenhada. Em meados dos Anos 90, a Rússia se transformou numa economia extrativista, uma economia que se afastou e continua se afastando da indústria, e caminha para a extração de materiais do seu solo: gás, petróleo, minerais e demais produtos se tornaram propriedade privada. Uma oligarquia se formou a partir disso, e reuniu grandes fortunas aproveitando a alta nos preços das matérias primas. Havia muita riqueza acumulada na Rússia, mas o resto do mundo não quis tolerar mais esse tipo de negócios, e até a Rússia está encontrando muito dificuldade para operar com essas práticas agora que os preços das commodities estão desmoronando. Portanto, a Rússia não oferece um modelo alternativo. A combinação de oligarquia, de dependência de amigos estrangeiros, a diminuição da indústria e o crescente autoritarismo não estão conseguindo estabilizar um sistema que está sendo afetado pelas quedas nos preços, especialmente do petróleo e do gás.

Voltamos à ideia de uma janela de oportunidade. Você acredita que existe algum outro lugar na Europa no qual se possa abrir esta janela?

Nunca se sabe. O único que sabemos é que se abrirá outra janela em algum lugar. Estamos falando da crise da Zona Euro, que é uma crise duradoura: começou na Grécia, depois passou pela Irlanda, Espanha, Itália, França, até que voltou à Grécia, neste último ano. Ela reaparecerá em algum outro país. É como um organismo doente em busca de um corpo: primeiro afeta um fígado, depois um estômago… e nós temos que encontrar uma cura. E a janela de oportunidade que estamos vendo, espero, ou pelo menos tenho essa sensação, vai se fortalecendo à medida que os europeus se unam nos diferentes estados-membros e formem uma força democrática para administrar a zona da moeda comum de maneira mais eficiente e democrática.

Como você vê o seu papel nesse processo?

Eu tentaria ser um catalisador disso.

Yanis Varoufakis, ex-ministro da Fazenda do governo do Syriza, na Grécia, é um conhecido economista greco-australiano de reputação internacional. Professor de política econômica da Universidade de Atenas e conselheiro do programa econômico do Syriza. Recentemente, foi professor convidado da Universidade do Texas. Seu livro “O Minotauro Global”, foi considerado por muitos críticos como a melhor explicação teórico econômica da evolução do capitalismo nas últimas seis décadas.
(Nota dos editores de LeftEast: no dia 1º de outubro, o ex-ministro da Fazenda da Grécia, Yanis Varoufakis, pronunciou o discurso de encerramento da VI Bienal de Moscou. O jornalista Ilya Budraitskis o entrevistou brevemente para sua página digital)

Tradução: Victor Farinelli

Fotoarte: “ Yanis”

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