Honduras e a ocupação continental

"O golpe de Estado nas Honduras, um dos elos mais frágeis da ALBA, e liderado por um militar hondurenho formado e treinado na Escola das Américas, perpetuado com o apoio da base de Palmerola, orientado pelos estrategistas da embaixada norte-americana e reivindicado pela oligarquia hondurenha – que deve a sua existência à defesa dos interesses norte-americanos que procura, desse modo, para a sua articulação, apoiadores locais – é o primeiro passo para o relançamento dessa mesma escalada."

Mau precedente é a destituição de um governo legítimo, derrubado por um golpe de estado ilegítimo, que, ainda por cima, acaba por ser acusado de violar a constituição, e por causa desse expediente é equiparado a um governo de golpistas. Tão defensor quão violador da Constituição é um e outro, respectivamente, no diálogo imposto depois do golpe.Bom precedente é o de um povo que se mobiliza pelo restabelecimento da constitucionalidade e contra um golpe de Estado e a militarização robustecida que lembra situações próprias de um passado próximo.

Contudo, o golpe nas Honduras apenas anuncia o que se vislumbra para esses governos que ousam desafiar o império e que, por isso mesmo, não cessam de ser perseguidos.

Honduras acabou por ser atropelada numa busca para se atingir objetivos de maior importância geoestratégica: Venezuela, Equador e Bolívia.Mas, a confusão criada propositadamente para o efeito em Honduras, desviou as atenções de muitos, voltando-se a desenterrar as encenações e as acusações de cúmplices das FARC – classificadas como grupo terrorista nas listas negras do Pentágono – aos presidentes da Venezuela e do Equador, ao mesmo tempo que se ressuscitou um antigo acordo entre a Colômbia e os EUA que atribui imunidade a tropas estadunidenses em território colombiano e permite a instalação de sete bases militares norte-americanas a somar às seis já reconhecidas pelo Pentágono no seu Base Structure Report, ratificado pelo Congresso.

Honduras constituiu o elemento instigador ou, melhor dizendo, e com toda a gravidade daí decorrente, a cortina de fumaça que deu lugar à reativação do projeto interrompido depois do ataque a Sucumbíos: a criação de uma delegação regional na América, defensora da guerra preventiva, e isso, precisamente ao lado do canal do Panamá e à entrada mesmo do vale da Amazônia mas, e isso é o mais importante em termos estratégicos conjunturais, junto às fronteiras dos países em que decorrem processos políticos incômodos para os grandes poderes mundiais liderados pelos EUA.

Está em curso, um projeto de recolonização e subjugação, à escala continental. Com o consentimento e até algum entusiasmo das oligarquias locais, com a co-participação de grupos de extrema-direita instalados em alguns governos da região, se constrói na América Latina, muito mais do que um novo estado de Israel, em que o perímetro para intervir se deverá medir a partir das distâncias que os aviões de guerra e monitorização hão-de conseguir percorrer num único vôo, sem abastecimento de combustível; ou através dos tempos que demorarem para atingir os alvos conjunturais, que são demasiados distantes a partir das bases instaladas na Colômbia; ou mediante a avaliação da rapidez de capacidade de resposta face a eventualidades ocorridas nas principais cidades vizinhas:

Quito, Caracas e La Paz; ou com a segurança econômica infundida pela presença junto da região petroleira do Orenoco, equivalente às jazidas da Arábia Saudita, ao lado do rio Amazonas, principal caudal de água doce do continente, perto das maiores jazidas de biodiversidade do planeta, frente a frente com o Brasil, e com a possibilidade de aplicar a técnica de alternar o cravo com a ferradura, e contando, para tal, com a cooperação do Peru, isto tudo para responder aos três países que na América do Sul ousaram desafiar a hegemonia.

Tal como as Honduras demonstram claramente os limites da democracia dentro do próprio sistema capitalista, a questão subjacente é que, com o projeto de instalação de novas bases na Colômbia e a imunidade das tropas estadunidenses em território colombiano, tudo isso tornaria esse mesmo país e na totalidade do seu território uma colônia dos Estados Unidos, o que iria pôr em causa a capacidade soberana de autodeterminação dos povos e dos países da região.

As ações deste enclave militar na América Latina, dirigir-se-ão aos estados inimigos ou aos estados em bancarrota que, consoante as novas normas promovidas pelos EUA, provem ser historicamente falidos, ou possam vir a sê-lo, instantaneamente, por colapso. Qualquer atrevimento pode tornar um país num estado falido, e por isso mesmo, passível de sofrer uma intervenção. E entre esses atrevimentos, encontram-se as possíveis relações de governantes com grupos qualificados como terroristas. E é assim que se explica a insistência em acusar os presidentes Chávez e Correa de manter estreita colaboração com as FARC.

Uma vez decretado o estado de falência num país, a intervenção poderá efetuar-se a partir da Colômbia, que já se encontra bem equipada para atacar os seus vizinhos.

Quinhentos anos depois, nós, os habitantes da América Latina, temos que continuar a lutar contra os saqueadores, contra a colonização, e as imposições externas de todo o gênero, no entanto, se não pararmos a militarização e o estabelecimento de tropas dos Estados Unidos na Colômbia, as nossas lutas dos últimos quinhentos anos terão sido em vão.

De novo e como nos velhos tempos, tem um profundo significado a palavra de ordem:

&nbsp Yanquies vão para casa!

Notas do tradutor:&nbsp

[1] Ataque a Sucumbíos: província equatoriana atacada pelo exército colombiano, em Março de 2008.&nbsp

[2] Reunião de Santo Domingo: encontro na república Dominicana, a 7 de Março de 2008, ao mais alto nível, promovido numa tentativa de selar a paz na América Latina, depois do ataque a Sucumbíos.&nbsp

[3] ALBA: organização da Alternativa Bolivariana para as Américas. Trata-se de um organismo criado à revelia de outros daquele continente e, instrumentalizados pelos EUA. A ALBA entre outros combates, luta contra a entrega das empresas estatais estratégicas para o capital transnacional, opõe-se ao implemento da flexibilização das relações laborais, preocupa-se com a negação e supressão de direitos e, finalmente, desencoraja a privatização de serviços públicos da saúde, educação, habitação e segurança social. A sétima cimeira decorreu em Abril de 2009, na Venezuela e contou com a participação de inúmeros países da região.&nbsp

* Ana Esther Ceceña, economista mexicana, é investigadora no Instituto de Investigações Econômicas da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) e integra a Campanha pela Desmilitarização das Américas (CADA).

&nbsp Este texto foi publicado em Colômbia Plural

Tradução e notas de João Hinard de Pádua.

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