Haiti – Ocupação militar a pretexto de solidariedade

Enquanto os mídia alternativos de todo o mundo denunciam indignados que os Estados Unidos, como abutres, aproveitaram a desgraça que caiu sobre o Haiti para procederem a uma autêntica ocupação militar, os meios de comunicação mainstream dão cobertura à cumplicidade da MINUSTAH (Missão das Nações Unidas pela Estabilização no Haiti) e das restantes potências e silenciam a manobra.

A verdade é que esta&nbsp estratégia de militarização não tem apenas intuitos económicos e muito menos se pode apelidar de ajuda humanitária. É um dispositivo montado &nbsp na previsão de uma "guerra preventiva", porque os Estados Unidos receiam que haja uma sublevação popular, dado que as condições de vida no Haiti se tornaram insuportáveis e infra-humanas.&nbsp É também uma como maneira de afrontar e tentar manter em respeito os restantes povos da América Latina que ousem opor-se aos desígnios imperialistas, a juntar-se às muitas outras cada vez mais evidentes formas de intimidação.

Aliás, o carácter reaccionário e antipopular das medidas que se querem impor para reconstruir o país está bem patente no empréstimo do FMI, com condições usurárias e impondo condicionalismos tendo em vista facilitar um ambiente mais favorável aos investimentos das multinacionais no país.

As tropas norte-americanas e da ONU têm reprimido os manifestantes famintos. Já o mesmo acontecera em Abril do ano passado, altura em que foram recebidos à bala os populares que protestavam contra o aumento dos preços dos alimentos – o saco de 23 quilos de arroz passou de 35 para 70 dólares, enquanto o milho, o feijão e o óleo de cozinha registaram aumentos de 40 por cento – e saquearam depósitos de alimentos, ergueram barricadas e queimaram pneus nas ruas.

Hoje 80% do arroz consumido no Haiti, que já foi auto-suficiente, é comprado aos EUA com altas taxas de importação, depois que o FMI forçou o governo a suspender os subsídios à produção nacional.&nbsp Não contentes com isso, os norte-americanos têm explorado a mão-de-obra local através de “zonas francas” onde os sindicatos estão impedidos de actuar e os trabalhadores não podem organizar-se no local de trabalho. As jornadas de trabalho muitas vezes ultrapassam as 12 horas e o salário em geral não passa de 120 dólares mensais. E agora empresas de capital americano, canadiano, brasileiro e dominicano preparam-se para fazer de todo o Haiti uma zona franca global.

Os operários fabris constituem apenas 3% dos trabalhadores activos no Haiti. A grande maioria está nos sectores informais e trabalha no campo, onde a precariedade do trabalho é ainda pior. Setenta por cento da população activa não tem trabalho, a mortalidade infantil é superior a 80 por mil e a taxa de analfabetismo no campo supera os 70% e nas cidades 50%, a expectativa de vida é de 50 anos.

Com as suas estruturas destruídas, 60% do orçamento dependente da ajuda internacional e das remessas dos haitianos emigrados e um governo inoperante que depende em tudo das forças de ocupação, o Haiti está totalmente à mercê do que outros decidam. Por isso centenas de redes e organizações sociais internacionais censuraram a intervenção militar dos Estados Unidos – que ascenderá a mais de 16.000 tropas de terra e mar – e exigiram o cancelamento da dívida externa do país, que é astronómica, junto da conferência sobre a reconstrução do Haiti em Montreal.

No nosso país, poucas ou nenhumas organizações se deram ao trabalho de mobilizar apoios e recursos para o povo haitiano. Honrosa excepção foi a Dj Session That’s My Definition, com Chullage Mc, Lucky (boa onda) e Mr. Cheeks Djs, cuja receita reverteu para o Haiti.

Camille Chalmers, da Plateforme Haïtienne de Plaidoyer pour un Développement Alternatif (Plataforma Haitiana pela Defesa de un Desenvolvimento Alternativo, PAPDA), de Porto Príncipe, sugere: “O nosso apelo é formar-se uma rede solidária internacional segundo o modelo das Brigadas Internacionalistas dos Sandinistas, que nos ajude nas tarefas de reconstrução, mas também a sair da nossa crise social. Referimo-nos à solidariedade de povo para povo, não à solidariedade de que se servem os Estados para a sua dominação”.

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