Entrevista com Luciana Genro* : Criar uma alternativa de esquerda ao governo Lula

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Franck Gaudichaud: Luciana, olhando o Brasil e depois do Fórum Social Mundial (janeiro) de Belém: Como você vê o cenário atual da América Latina «virando à esquerda» da parte dos governos do continente?

Luciana Genro: Estamos diante de um muito rico e muito importante processos políticos, especialmente na Venezuela, no Equador, Bolívia, Paraguai, também.Estes processos, através dos governos nacionais e progressistas, são muito importantes para o Brasil para mostrar ser possível ter governos de um modo ou de outro que se colocam contra aos interesses do imperialismo americano na região.O governo Lula não cumpriu com as metas de criar as mudanças necessárias no Brasila exemplo de Chávez na Venezuela, e do Equador querealizou uma auditoria da dívida externa, são exemplos que demonstram o tamanho da covardia do governo Lula.Estas experiências mostram que é possível enfrentar o imperialismo, que é possível abordar a cobrança da dívida.O Brasil é afinal o contra modelo desses processos, pois se comporta como um imperialista latino-americano mesmo, se confrontado com as medidas progressistas que tem tomado o governo do Paraguai e do Equador.

Então, o Fórum Social Mundial em Belém, revelou que existe uma convergência de pessoas no Brasil que estão dispostos a lutar por este processo que irá ocorrer também na América Latina e no Brasil e o PSOL está envolvido neste processo.

FG: Qual é, neste momento, a situação de conflito social e o movimento social no Brasil?Vimos que, mesmo para as últimas eleições presidenciais, o Movimento dos Sem Terra (MST), um dos principais movimentos sociais na América Latina, apesar das críticas expressas contra a gestão direta do PT, apoiou o voto para Lula. Em que estão mobilizadas as forças de esquerda hoje?

LG: Passamos por um período difícil nos movimentos sociais no Brasil, porqueas lideranças, principalmente do movimento sindical, mas também o MST, foram parcialmente co-optados pelo governo Lula. Foram amarrados pelo governo devido à relação histórica com o PT e também os recursos financeiros prestados através de acordos e outros recursos para os sindicatos e próprio MST.Agora, o movimento sindical está começando a reagir, estão surgindo novas direções, e sindicatos independentes da CUT, que foi muito combativa, mas hoje estapróximo ao governo.Há também um novo processo dentro do MST, um movimento que está começando a olhar para além do governo Lula.Vemos que a crise econômica está impactando fortemente o Brasil: Só no mês de Dezembro de 2008, 600 000 pessoas perderam seus empregos.O desemprego é um grave problema … Eu mesmo, como deputada apresentei uma proposta de lei para congelar demissões.Estamos em uma luta para que este projeto seja aprovado.Nós acreditamos que com as conseqüências da crise global e do desemprego, este processo de reorganização do movimento social e do movimento sindical terá mais força.Teremos mais brigas e mais conflitos e novas direções surgirão neste processo.

FG: O PSOL deixou uma esperança para muitos no Brasil após o retrocesso social-liberal do PT.Qual é a situação e as perspectivas para vocês tanto no nível eleitoral e no político-social?

LG: Bom, o nosso partido tem apenas cinco anos de vida e foram cinco anos muito ricos, ao mesmo tempo, tenso, porque não é fácil de construir um partido à esquerda do governo Lula, se este governo ainda tem um 80% aprovação. Aprovação com base essencialmente social, concessões que o governo tem feito através das bolsas de família e também ao contrário do anterior governo de Fernando Henrique Cardosodo PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira / centro-direita).Então passei cinco anos determinada a mostrar às pessoas que existe uma alternativa à esquerda do PTde Lula, que a oposição não significa, necessariamente, um retorno à direita, o PSDB, de Fernando Henrique Cardoso e os seus representantes.Por isso, as eleições municipais de outubro de 2008 foram um momento de consolidação PSOL importante em pequenas cidades e nas grandes cidades.E agora estamos nos preparando para os grandes conflitos sociais que virão devido à crise econômica global, o reforço dos movimentos sociais e sindicatos.Estamos também focados em 2010, quando teremos novas eleições para presidente.Temos a intenção de apresentar uma alternativa à esquerda com a candidatura de Heloísa Helena (1), que foi um grande sucesso em 2006, quando tínhamos 7 milhões de votos e constituirá uma alternativa concreta para toda uma parcela do povo brasileiro.

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FG:Você estava na França, para o congresso de fundação do Novo Partido Anticapitalista (NPA) francês, como membro da delegação internacional e representante do PSOL.Como no Brasil é visto este processo de construção?Você acha que existem pontes que podemos estabelecer ouparalelos entre as experiências de reagrupamento dos dois anti-capitalistas, apesar das diferenças existentes entre cada país?

LG: Para nós esta é uma grande alegria o processo da criação da ANP e nos identificamos muito porque PSOL foi o resultado de uma confluência de forças políticas e, muito mais do que as forças políticas, uma confluência de pessoas que nunca estiveram militando em partidos políticos, lutadores sociais que eram ou tinham militado no PT, mas ficaram decepcionados.E conseguimos a reunificação destas forças da esquerda noPSOL.E, vemos que em França isto está a acontecer com a ANP.A iniciativa da Liga Comunista Revolucionária (LCR) (2) para formar e se dissolver em um novo partidoe, principalmente procurar promover através da ANP um processo dereagrupamento das forças anti-capitalistas de esquerda a nível internacional é muito importante.O PSOL desde o seu início tem suscitado a necessidade do reagrupamento anticapitalista internacional, porque sabemos que não vamos mudar nossos países semunir nossas forças a nível internacional, já que o capitalismo esta cada vez mais internacionalizado.A crise mundial é uma clara demonstração do presente: não há saída da crise nacionalmente.E, portanto, fundir esquerda anticapitalista internacionalmente é essencial.Estamos confiantes de que o PSOL na América Latina e ANP na Europa terão um papel importante a desempenhar neste processo e nós trabalharemos em conjunto para realizar este desafio de construir uma alternativa à esquerda, não só nos nossos países, mas também internacionalmente.

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(1) Heloísa Helena também foi expulsa do Partido dos Trabalhadores (PT) por criticar as reformas neoliberais de Lula.Ex-sendora, atua comovereadora da Câmara Municipal de Maceió pelo PSOL, partido que preside, e foi candidata à presidência do Brasil pela (Frente de Esquerda), formado pelos partidos PSOL, PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado) e o PCB (Partido Partido Comunista do Brasil), em Outubro de 2006, que lhe deu terceiro lugar em número proporcional de votos (6,85% dos votos).Foi a primeira mulher candidata para presidenta do Brasil.

(2) O LCR foi um partido político na seção francesa da Quarta Internacional reunificada.Seu porta voz foi um jovem carteiro Olivier Besancenot.Em Janeiro de 2009, seus militantes foram integrados no Novo Partido Anticapitalista (www.npa2009.org).

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Luciana Genro* émilitante da esquerda anticapitalista brasileira. Entrou para as fileiras do Partido dos Trabalhadores (PT) em 1985 na idade de 14 anos.Professora, foi eleita deputada do Rio Grande do Sul em 1994 e reeleita em 1998.Em 2002, eleita deputada federal. Foi expulsa do PT, no ano seguinte, por ter recusado a votar a lei de reforma neoliberal proposto pelo governo Lula, participa da fundação do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade / www.psol.org.br), com o qual ela foi reeleita em 2006.Em 2008 ela foi candidata à prefeitura da capital do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, obtendo quase 10% dos votos.

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Transcrição e adaptação por Catherine Ferré

Transcrição e adaptação (português) Osmar Gomes da Silva

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