Brasil. «Em volta dessa mesa velhos e moços lembrando o que já foi»

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O truculento coronel berrou: ‘Meu filho não adianta. Tiradentes foi um subversivo e ponto final’.»

 

Tiradentes,TV Excelsior,Panair e Elis [Vídeo]

 

 

Reino de Portugal, espoliador cruel

A Inconfidência Mineira destacou-se por ter sido o primeiro movimento social republicano-emancipacionista de nossa história. Eis aí sua importância maior, já que em outros aspectos ficou muito a desejar. Sua composição social por exemplo, marginalizava as camadas mais populares, configurando-se num movimento elitista estendendo-se no máximo às camadas médias da sociedade, como intelectuais, militares, e religiosos.

Outros pontos que contribuíram para debilitar o movimento foram a precária articulação militar e a postura regionalista, ou seja, reivindicavam a emancipação e a república para o Brasil e na prática preocupavam-se com problemas locais de Minas Gerais. O mais grave, contudo foi a ausência de uma postura clara que defendesse a abolição da escravatura.

O desfecho do movimento foi assinalado quando o governador Visconde de Barbacena suspendeu a derrama – seria o pretexto para deflagrar a revolta – e esvaziou a conspiração, iniciando prisões acompanhadas de uma verdadeira devassa.

Os líderes do movimento foram presos e enviados para o Rio de Janeiro responderam pelo crime de inconfidência (falta de fidelidade ao rei), pelo qual foram condenados. Todos negaram sua participação no movimento, menos Joaquim José da Silva Xavier, o alferes conhecido como Tiradentes, que assumiu a responsabilidade de liderar o movimento. Após decreto de D. Maria I é revogada a pena de morte dos inconfidentes, exceto a de Tiradentes.

Quando soube que a rainha concedera clemência a seus companheiros condenados a morte, excluindo ele do perdão, comentou : «Dez vidas daria se as tivesse, para salvar as deles!»

Alguns tem a pena transformada em prisão temporária, outros em prisão perpétua. Cláudio Manuel da Costa morreu na prisão, o­nde provavelmente foi assassinado.

Tiradentes, o de mais baixa condição social, foi o único condenado à morte por enforcamento. Sua cabeça foi cortada e levada para Vila Rica. O corpo foi esquartejado e espalhado pelos caminhos de Minas Gerais (21 de abril de 1789). Era o cruel exemplo que ficava para qualquer outra tentativa de questionar o poder da metrópole.

Joaquim José da Silva Xavier: «Esta terra há de ser um dia maior que a Nova Inglaterra! Mas, as suas riquezas só as poderemos alcançar no dia em que nos libertarmos do jugo dos portugueses para sermos os senhores da terra que é nossa».

O exemplo parece que não assustou a todos, já que nove anos mais tarde iniciava-se na Bahia a Revolta dos Alfaiates, também chamada de Conjuração Baiana. A influência da loja maçônica Cavaleiros da Luz deu um sentido mais intelectual ao movimento que contou também com uma ativa participação de camadas populares como os alfaiates João de Deus e Manuel dos Santos Lira.Eram pretos, mestiços, índios, pobres em geral, além de soldados e religiosos. Justamente por possuír uma composição social mais abrangente com participação popular, a revolta pretendia uma república acompanhada da abolição da escravatura. Controlado pelo governo, as lideranças populares do movimento foram executadas por enforcamento, enquanto que os intelectuais foram absolvidos.

Outros movimentos de emancipação também foram controlados, como a Conjuração do Rio de Janeiro em 1794, a Conspiração dos Suaçunas em Pernambuco (1801) e a Revolução Pernambucana de 1817. Esta última, já na época que D. João VI havia se estabelecido no Brasil. Apesar de contidas todas essas rebeliões foram determinantes para o agravamento da crise do colonialismo no Brasil, já que trouxeram pela primeira vez os ideais iluministas e os objetivos republicanos.

Mesmo após a independência do Brasil, em 1822, Tiradentes não seria reconhecido como mártir da Inconfidência Mineira. Somente em 1867 é que se ergueu em Ouro Preto um monumento em sua memória, por iniciativa do presidente da província Joaquim Saldanha Marinho.

 O debate que se travou na época da passagem do Império para a República foi muito limitado pois envolveu um pequeno grupo de liberais, jacobinos e positivistas. O tema central do debate foi a legitimação da República, porém um pequeno grupo de beneficiados deu-se ao direito de encampar e monopolizar o as idéias e ações. Hoje é possível afirmar que, decorridos mais de cem anos da Proclamação, não se estabeleceu um consenso nacional mínimo entre o que é e o que deveria ser uma República. Até o herói republicano foi forjado. Tiradentes que até então era visto como esquartejado e subversivo toma ares de herói cívico. Um herói um tanto ambíguo pela história que teve. Mas tentaram e conseguiram relacionar seu rosto com o de Cristo e ele como que saiu das cinzas do passado e passou a habitar a consciência das pessoas como mártir de um povo. Sua figura até então banida da sociedade passou a figurar no alto escalão como exemplo daquele que queria o bem de todos. O subversivo tornou-se símbolo de uma pátria. De condenado tornou-se militar exemplar.  Depois do Golpe de 64 na Ditadura Militar, pela lei 4.867, de 9 de dezembro de 1965, Tiradentes foi proclamado patrono cívico da nação Até hoje não conseguiram fazer dele um herói religioso. Bem que tentaram compor uma dupla entre ele e Nossa Senhora Aparecida. Tiradentes esquartejado nos braços da Santa Madona

Aparecida teria sido o símbolo perfeito para o regime político que estava prestes a ser implantado. A união entre o sagrado e o profano estaria garantida para sempre no imaginário religioso do povo.O que vale é aquilo que dá algum sentido para a vida, não importa muito de onde provém. Tiradentes nos braços da mãe Aparecida seria a união perfeita que a República até hoje não foi capaz construir.

Tiradentes e o Golpe Militar de 64,Censurado!

A Ditadura Militar de 64 interveio na Televisão: Em 1969, a novela Dez Vidas da TV Excelsior foi censurada.

O truculento coronel berrou: ‘Meu filho não adianta. Tiradentes foi um subversivo e ponto final’.»

A censura interveio, não gostando do tema por considerá-lo subversivo. De acordo com o livro Glória in Excelsior, de Álvaro de Moya:

«Num jantar oferecido a um político, o diretor Waldemar de Moraes sentou-se ao lado de um coronel da censura federal e tentou convencer o militar que a censura não devia interferir tanto no texto da novela, atrapalhando a produção. O coronel berrou: ‘Meu filho não adianta. Tiradentes foi um subversivo e ponto final’.»

A novela mudou de horário e teve vários cortes. Mas a tribulação maior foi o fim que lhe reservaram. A TV Excelsior estava em crise e Dez Vidas terminava apressadamente. Mesmo no ar, a novela deixou transparecer a situação difícil da emissora, com os atores saindo da trama e a encenação tornando-se cada vez mais pobre.

“In memoriam”

«Sobre Dez Vidas, esclareceu Gianfrancesco Guarnieri: ‘… a gente já estava em crise absoluta, não tinha dinheiro para nada… Nós fizemos uma parada militar com 10 pessoas, focando os pés. Os atores corriam por trás da câmera e entravam de novo na fila e a câmera continuava apenas mostrando os pés. Depois fazia alguns closes de rostos, evitando planos gerais e dando a idéia de muitos soldados’.»

 O ator Peirão de Castro informou que os atores, por não receberem o pagamento, foram abandonando a emissora e no final só haviam cinco: Carlos Zara, que era o Tiradentes, Fábio Cardoso, Gianfrancesco Guarnieri, Oswaldo Mesquita e ele, Peirão de Castro, o carcereiro.

Fim da TV Excelsior e Fim da Panair

A TV Excelsior estava sob pressão da ditadura militar, que a forçou a tirar programas do ar, os quais traziam renda à emissora, junto com a Panair. Tal crise se deveu à perseguição feita pela ditadura às empresas do grupo Simonsen, em virtude deste ter apoiado o presidente democraticamente eleito João Goulart, que sofreu o Golpe de Estado de 1964, dando início à ditadura civil militarl.

Mário W. Simonsen era um liberal democrata que se colocava na defesa da liberdade de expressão e da legalidade. Formado na tradição inglesa, acreditava no poder da constitucionalidade, contrastando com a visão dos militares responsáveis pelo Golpe de Estado em 1964.

Por isso, o telejornalismo da Excelsior apoiava a democracia, a legalidade e o presidente democraticamente eleito, logo, a ditadura militar não poderia tolerar a Excelsior e maquinou para destruí-la.

 A censura imposta à imprensa, no caso da Excelsior, era exposta ao público: seus diretores não reeditavam vários programas que tinham partes vetadas pela censura, e, às vezes, exibiam, no lugar das partes censuradas, os seus mascotinhos com as bocas e os ouvidos tapados, acompanhado da seguinte legenda: CENSURADO. Isso irritava os elementos da ditadura militar, que não gostavam que suas atividade de repressão fossem desnudadas ao público geral.

Para acentuar a crise, o empresário Celso Rocha Miranda perdeu as concessões de voo da Panair dois anos depois. Cinco dias depois, a Panair «falia», por ato emitido pela ditadura militar brasileira.

A Excelsior, sem dinheiro e com a conta estourada, é vendida ao Grupo Folha de S. Paulo, que a devolve aos antigos donos pouco tempo depois. Em 1969, TV Excelsior era um nome que não podia ser dito no governo militar, pois ela estava perseguida, endividada e abandonada. Ocorreram ainda dois incêndios na TV Excelsior em uma única semana. Um foi simples, de pequeno porte, destruindo apenas um pequeno cenário. O segundo foi na sexta-feira e destruiu boa parte do acervo (não todo como muitos falam).

No final do ano, a emissora perdia mais dinheiro e se encontrava na decadência. A partir daí, a emissora só teve mais problemas com o governo da ditadura: perdeu cerca de 170 milhões de Cruzeiros só em impostos e outros.

Em 1º de outubro de 1970, a Excelsior se encontrava á beira da falência. Por volta das 18h40, Ferreira Neto invade o estúdio, que estava transmitindo um programa humorístico (Adélia e Suas Trapalhadas), e anuncia aos telespectadores que o regime dos generais decretara o fim da Excelsior. Naquele momento, na central técnica da Excelsior, estavam agentes censores do DENTEL, que tiraram a emissora do ar naquele momento. A Rede Excelsior acabava ali.

Pano rápido.

 

Conversando no Bar com Elis Regina

A maior das maravilhas foi

Voando sobre o mundo nas asas da Panair

Em volta dessa mesa velhos e moços

Lembrando o que já foi

Em volta dessa mesa existem outras

Falando tão igual

Em volta dessas mesas existe a rua

Vivendo seu normal

Em volta dessa rua, uma cidade

Sonhando seus metais

Em volta da cidade…

 

Fernando Brant / Milton Nascimento

Vídeo: Conversando no bar – Elis Regina

Renato Boemer

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