El Pulpo trocou de nome, mas continua atacando

«O que aconteceu em Assunção foi uma estupenda vitória do Departamento de Estado e uma fragorosa derrota do Itamaraty»

Quem quer que tenha conhecimento mínimo da política externa dos Estados Unidos sabe qual é o peso, na América Latina, de “la Embajada”. Não é preciso nem identificar a qual embaixada nos referimos. O presidente do Equador, Rafael Correia, costuma repetir a piada segundo a qual só nos Estados Unidos o presidente não corre o risco de tomar um golpe: não existe embaixada norte-americana em Washington.

Estou lendo Bananas, de Peter Chapman, sobre “como a United Fruit Company desenhou o mundo”. United Fruit, ou El Pulpo, como era conhecida na região, O Polvo. Aliás, foi a empresa que inventou a fruta como commodity. Inventou também o conceito de república das bananas, que a opinião pública conhece de forma distorcida: não haveria república das bananas se uma empresa, com apoio de Washington, não fosse capaz de derrubar e ‘eleger’ governos e interferir de forma tão dramática na História das Américas. Ou seja, o tom depreciativo com o qual se aplica o termo tem que necessariamente identificar quem é que tanto fez para transformar repúblicas em caricaturas.

Sabemos muito pouco sobre o incidente que originou o pedido de impeachment do presidente paraguaio Fernando Lugo. O jornalista Idilio Grimaldi escreveu um artigo dizendo achar inverossímil que um grupo de elite da polícia do Paraguai tenha caído numa emboscada de camponeses. Nunca se sabe.

Eu sempre desconfiei de grupos de luta armada que surgem assim do nada, como o EPP, o Ejercito del Pueblo Paraguayo — até agora, pelo menos, não relacionado ao incidente que resultou na cassação do presidente do Paraguai. Pode haver militantes sinceros envolvidos no EPP, mas muitas vezes estes grupos podem se tornar veículos de interesses não identificados. Quando recebi um convite para visitar o EPP, no Paraguai, de um colega jornalista brasileiro, disse não ter interesse: eu não vou ajudar a promover estes caras, argumentei, não sei e não serei capaz de descobrir a quem eles servem antes da reportagem ir ao ar. Se não houver deadline, tudo bem, mas não aceito ser usado.

O EPP serve, por exemplo, mesmo que não queira, ao esforço para aprovar leis antiterroristas na região, promovidas pelos Estados Unidos e que também se encaixam em tentativas de criminalizar os movimentos sociais.

Já narrei no site antigo, que não está mais no ar, uma experiência que tive no Panamá, durante a crise que antecedeu a invasão dos Estados Unidos. Fomos chamados, jornalistas estrangeiros, para uma entrevista coletiva na base militar dos Estados Unidos no canal do Panamá — que já não existe. Um oficial norte-americano assumiu o podium e deu várias informações, uma delas dizendo que Fidel Castro tinha enviado alguns milhares de fuzis para o ditador panamenho Manuel Noriega, que estava sob pressão de Washington para renunciar.

O militar não apresentou nenhuma prova. Nem foto, nem grampo com áudio. Nada. Como as informações eram em off, ou seja, a fonte não poderia ser identificada, nem havia imagem — e eu trabalhava em TV –, simplesmente descontei a declaração. Porém, levei um susto no dia seguinte quando vi a “informação” na capa do Washington Post, atribuída a uma fonte militar de alto escalão.

Depois da invasão dos Estados Unidos e consequente derrubada de Manuel Noriega, onde é que estavam os fuzis do Fidel Castro? Não houve qualquer reação militar à invasão dos Estados Unidos e ninguém viu ou procurou os fuzis do Fidel. Os milhares de fuzis do Fidel sumiram na névoa. Tinham cumprido seu objetivo.

Há dezenas de incidentes similares registrados na História, como o que aconteceu no Golfo de Tonkin e deu ao presidente Lyndon Johnson autoridade para interferir num conflito que até então envolvia formalmente o Vietnã do Norte e a França (a participação dos Estados Unidos era clandestina). O incidente, do dia 4 de agosto de 1964, simplesmente não aconteceu. Um ataque de barcos patrulha norte-vietnamitas contra dois navios de guerra norte-americanos, o USS Madox e o USS Turner Joy.

Da revista Time: ”Através da escuridão, do Oeste e do Sul… intrusos audaciosamente, em velocidade… pelo menos seis deles… abriram fogo contra os destróiers com armas automáticas, desta vez a apenas 1.800 metros”.

Vários historiadores sugerem que os destróiers foram enviados justamente para provocar incidentes que justificassem a intervenção dos Estados Unidos. Se de fato houve um confronto no dia 2 de agosto, o do dia 4 de agosto simplesmente não aconteceu, mas foi amplificado pela mídia e usado como justificativa pela Casa Branca.

Johnson, que era candidato à reeleição, foi à TV, autorizou ataques aéreos contra o Vietnã do Norte e três dias depois recebeu do Congresso autorização para “tomar todas as medidas necessárias, inclusive o uso das forças armadas, para dar assistência a qualquer integrante do Tratado de Defesa Coletiva do Sudeste da Ásia que pedir assistência em defesa de sua liberdade”. Uma provocação apresentada como ação em defesa da liberdade.

Em resumo, os Estados Unidos têm uma longa história de:

1. Usar a diplomacia e a força militar para defender o interesse de suas empresas;

2. Usar a mão do gato para atingir seus objetivos, se preciso com falsificações.

No caso paraguaio, é altamente improvável que “La Embajada” não tenha sabido com antecedência e dado aprovação tácita ao impeachment fast food de Fernando Lugo.

Se o resultado final não interessasse aos Estados Unidos, Washington poderia muito bem ter consultado Brasília sobre a crise antes de se posicionar oficialmente. Afinal, o Paraguai é vizinho do Brasil e integrante do embrião de uma união econômica com o Brasil. Pensem na enormidade disso: o Paraguai é sócio do Brasil numa das maiores hidrelétricas do mundo, essencial para a economia dos dois países!

Mas o governo Obama reconheceu o novo líder paraguaio com uma rapidez espantosa, talvez só equivalente ao reconhecimento do governo de Pedro Carmona, na Venezuela, depois do golpe que afastou Hugo Chávez, em 2002.

Se não restava apoio político a Fernando Lugo, se não poderia concorrer à reeleição e estava na reta final do mandato, qual seria o sentido de afastá-lo?

Quem conhece o Paraguai sabe que a única chance que Lugo teria de influenciar as próximas eleições seria através do controle, ainda que parcial, da enfraquecida máquina do Estado. O poder econômico, legal e ilegal, está contra ele, para não falar de influentes poderes internacionais, como o Vaticano. A mídia paraguaia, obviamente, está majoritariamente com o poder econômico.

Se nossos jornais e emissoras de TV reproduzem acriticamente propaganda dos Estados Unidos, quando não simplesmente assumem para si o papel de defender Washington, mesmo contra o governo brasileiro, por que no Paraguai seria diferente?

A deposição veloz de Lugo, em algumas horas, tinha o objetivo de criar uma situação de fato, desarticulando as forças que o elegeram e reduzindo a influência delas nas eleições de 2013.

Internamente, garantia de que a influência da esquerda será praticamente eliminada.

Externamente, garantia de que a influência dos Estados Unidos será amplificada.

Se o Paraguai foi capaz de bloquear, graças ao Senado, a entrada da Venezuela no Mercosul, agora mais do que nunca poderá ser uma pedra no sapato da integração regional, que não interessa aos Estados Unidos.

Por ter vivido quase 20 anos lá, sei exatamente como funciona a política externa norte-americana. Ela é de Estado, nunca de governo. É por isso que Fernando Gabeira, que sequestrou o embaixador norte-americano no Brasil, jamais ganhará visto de entrada nos Estados Unidos, a não se que se torne presidente do Brasil e tenha algo muito bom para oferecer — o pré-sal, por exemplo.

É por isso que jamais os Estados Unidos vão aceitar a expropriação de empresas norte-americanas feita por Fidel Castro. Jamais vão engolir Hugo Chávez. Jamais vão aceitar um papel de liderança do Brasil que prejudique seus interesses econômicos imediatos na região, especialmente o acesso a recursos naturais como o gás e o petróleo.

Pelo contrário, Washington vai trabalhar ativamente, de forma constante e persistente, para dividir e conquistar, estratégia aplicada historicamente (no Vietnã, por exemplo, até hoje os Hmong, que vivem nas montanhas fronteiriças, pagam caro por terem prestado serviço aos invasores durante a guerra).

Não se trata de uma questão ideológica. É dividir e conquistar para pagar menos pelo cobre do Chile, pelo petróleo da Venezuela, pelo gás da Bolívia e para proteger os investimentos, as empresas e os interesses das empresas norte-americanas na região. Simples assim.

Ou vocês acham que as empresas norte-americanas que ajudaram a financiar o golpe de 64, no Brasil, estavam interessadas em nossas praias?

Parte da estratégia de Hillary ou de quem quer que venha depois dela consiste na delicada exploração do fato de que o Brasil é visto pela opinião pública de países vizinhos, pelo menos por parte dela, como dono de apetite imperialista. Faz sentido para o Paraguai, por exemplo, se equilibrar entre o Brasil e os Estados Unidos, cobrando concessões econômicas de ambos ao mesmo tempo.

Do ponto-de-vista de Washington, o Paraguai é um valioso peão para colocar pedras no caminho do Mercosul, da Unasul e de todos os organismos multilaterais regionais que excluam os Estados Unidos e, portanto, a influência dos Estados Unidos.

Estamos aqui no campo da realpolitik, não das firulas diplomáticas ou jurídicas.

O que aconteceu em Assunção foi uma estupenda vitória do Departamento de Estado e uma fragorosa derrota, ao menos até agora, do Itamaraty.

Uma derrota do projeto brasileiro de integração que, obviamente, é modelado para atender prioritariamente aos interesses políticos, econômicos, diplomáticos e militares do Brasil, ainda que muita gente por aqui torça — e trabalhe — por Washington.

Luiz Carlos Azenha

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