Documentário «Novo século americano»: um dossiê da era Bush

Nesta segunda-feira, dia 19 de janeiro, véspera da posse de Barak Obama na presidência dos Estados Unidos, aconteceu em São Paulo a pré-estréia do documentário «Novo século americano» do diretor italiano radicado nos Estados Unidos, Massimo Mazzuco, cujos direitos foram comprados pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles (Cidade de Deus, O jardineiro fiel e Ensaio sobre a cegueira) e que terá lançamento mundial simultâneo no dia 23 de janeiro no Brasil, na Itália, na Alemanha, na Jordânia, na Síria, na Bolívia, na Venezuela, entre outros países. Nos EUA o filme só poderá ser visto pela Internet.



O filme é um muito bem documentado dossiê sobre a era Bush desde os ataques às Torres Gêmeas em 11/09/2001, passando pelas invasões do Afganistão e do Iraque, mostrando o colossal complexo militar-industrial dos EUA e os interesses das grandes corporações petrolíferas nas guerras travadas pelo gigante do Norte.



Para situar o governo Bush, o documentário cobre todos os aspectos que sugerem que os ataques de 2001 não foram perpetrados por seqüestradores muçulmanos, mas sim planejados e orquestrados pela própria administração americana. Começa com uma investigação histórico-política sobre o partido dito «neoconservador», cujos princípios e credos têm raiz nos ensinamentos do filósofo político Leo Strauss, atuante no início dos anos 70. Tal filosofia de acordo com o filme, dá suporte a tudo que aconteceu em decorrência do 11 de setembro. Seus pricipais membros no governo Bush foram o vice-presidente Dick Cheney e o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld.



Para fundamentar tal teoria o diretor Massimo Mazzuco lembra que pela Constituição americana os EUA só podem entrar em guerra com outro país se for atacado. A partir daí mostra que em todas as guerras de que participou, desde a guerra com a Espanha, no final do século XIX, que resultou na incorparação de Cuba à área de influência dos EUA, passando pelas Primeira e Segunda Guerras Mundiais, até a Guerra do Vietnã, os EUA forjaram ataques (ou não impediram propositalmente que acontecessem) dos inimigos a bases ou embarcações americanas para justificar sua entrada nos conflitos. No caso do ataque japonês à base americana de Pearl Harbour que provocou a entrada dos EUA na Segunda Guerrra Mundial, o filme mostra depoimento do almirante que comandava a frota americana dizendo que o governo americano tinha conhecimento prévio do ataque e não comunicou a ele. Já na declaração de guerra ao Vietnã do Norte temos o depoimento do ex-secretário de Defesa americano Robert MacNamara dizendo que o suposto ataque a embarcações americanas por parte do Vietnã do Norte havia sido um «engano».



Dispondo de tais documentos. o diretor, passa a «embasar» sua muito discutível teoria de que os ataques às Torres Gêmeas foi uma conspiração do grupo de «neocons» que cercava Bush, que, sem o conhecimento deste, prepararam as operações e colocaram a culpa em Bin Laden com o objetivo de desencadear a resposta armada dos EUA e assim fazer valer as sua teorias de que o país deveria agir unilateralemente no mundo todo em defesa de seus interesses e de seus «valores». Esse realmente é o elo fraco do filme que, inclusive, o expõe a críticas fundamentadas prejudicando o conjunto da obra em que serão desenvolvidas descrições pormenorizadas do complexo militar-industrial americano, suas ligações com os interesses das grandes empresas petrolíferas e sua decorrência: as guerras do Afganistão e do Iraque.



No caso da invasão do Afganistão, o filme mostra que esse país se tornou a rota de passagem obrigatória do gás natural extraído da região do Mar Cáspio para a China e o Japão. No Iraque, são os interesses das petrolíferas em suas grandes jazidas de petróleo. Nesse momento, Massimo Mazzuco deixa de lado suas teorias conspiratórias sobre o grupo de neocons que cercava Bush e vai direto ao ponto mostrando que o vice-presidente Dick Cheney foi presidente da empresa encarregada de reconstrução do Iraque, a Halliburton, e que ela foi beneficiada por contratos muitos generosos por parte do governo norte-americano. Daí parte-se para as empresas de segurança que contratavam mercenários para lutar no Iraque. Cito para complementar as informações dadas no filme trechos do livro de Jeremy Scahill: «Blackwater: a ascensão do exército mercenário mais poderoso do mundo».



«Por detrás de todas estas deliberações está a opaca empresa de mercenários Blackwater USA. Totalmente desconhecida para a maioria dos americanos e em grande parte fora do alcance do radar do Congresso, a Blackwater consolidou uma posição de efetivo poder e proteção no interior da máquina de guerra norte-americana. O êxito desta empresa representa o trabalho de toda uma vida dos responsáveis conservadores que constituíam o núcleo da equipe de guerra da administração Bush, para quem a privatização radical era há muito uma acarinhada missão ideológica.



A Blackwater citou insistentemente a afirmação de Rumsfeld [ex-secretário da Defessa de Bush e membro do grupo de neocons] de que os contratados são parte da 'Força Total' como prova de que é uma parte legítima da 'capacidade de combate' da nação. Ao invocar as palavras de Rumsfeld, a empresa declarou de fato as sua forças acima da lei&nbsp – gozando da mesma imunidade que os militares têm perante as leis civis, mas não limitados pelo sistema das cortes marciais a que os militares têm de se submeter. Enquanto as primeiras pesquisas sobre a Blackwater centravam-se no complexo labirinto das subcontratações secretas, debaixo das quais esta empresa opera no Iraque, uma investigação mais profunda à companhia revela uma assustadora imagem de um exército privado com ligações políticas convertido na guarda pretoriana da administração Bush.



A Blackwater foi fundada em 1996 pelo cristão conservador e multimilionário ex-SEAL (Forças de elite da marinha norte-americana) Erik Prince – descendente de uma família rica de Michigan cujas generosas doações políticas ajudaram ao auge da direita religiosa e à revolução republicana de 1994. No momento de sua fundação, a empresa consistia essencialmente na fortuna privada de Prince e numa vasta propriedade de 5.000 acres [2.000 hectares] situada perto do Great Dismal Swamp en Moyock, Carolina do Norte. A sua visão foi 'satisfazer antecipadamente a procura do governo por subcontratação de armamento e formação militar'. Nos anos seguintes, Prince, a sua família e os seus aliados políticos encheram de dinheiro os cofres das campanhas republicanas, apoiando a tomada de controle do Congresso e a ascensão de George W. Bush à presidência.

Embora a Blackwater obtivesse alguns contratos durante a era Clinton, que era favorável à privatização destes serviços, foi no entanto com a 'guerra contra o terrorismo' que chegou o momento de glória da empresa.»



O documentário passa então a mostrar as atrocidades cometidas pelos EUA no Iraque, desde as torturas na prisão de Abu Ghraib até o assassinato a sangue frio de civis iraquianos. O filme nos poupa de imagens mais chocantes de corpos de vítimas, mas, de maneira muito mais eficiente, desvela os mecanismos ocultos da lógica do genocídio no Iraque.



De acordo com o cineasta Fernando Meirelles, presente na pré-estréia do filme, a sua estréia mundial foi programada para coincidir com a posse de Barak Obama. De fato, o documentário ao centrar toda a responsabilidade dos crimes de guerra cometidos pelos EUA num pequeno grupo de personalidades sinistras, dá a entender que uma vez desalojadas do poder essas pessoas poderia haver uma reconversão da política externa desse país no sentido de respeitar os princípios fundamentais de sua democracia. Barak Obama seria então o elemento-chave dessa mudança.

O produtor do filme, na pré-estréia, encerrou os debates afirmando: «Obama vai sepultar a era Bush».



Esse viés idealista de que um homem com «boas intenções» pode reverter toda uma política criminosa de um país contradiz a própria dinâmica do filme desde a apresentação do complexo industrial-militar até os interesses das grandes empresas petrolíferas, de prestação de serviços e de segurança que em última análise ditaram e continuarão ditando a política externa americana.












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