Debate Aberto: A crise econômica mundial do capitalismo e o futuro

Tem causado espanto algumas das manifestações das direitas mais raivosas encasteladas, principalmente, nas grandes mídias. A grande crise econômica mundial do capitalismo, que hoje se vivencia, vem perturbando as mentes dos que trouxeram para si a missão de defender as causas mais tradicionalistas. Eles ainda continuam preocupados com o fato de que o mundo tenha virado de pernas para o ar e não conseguem admitir que suas certezas tenham mergulhado num oceano de dúvidas. Os temas que tanto acreditavam deixaram de fazer sentido. Afinal quem mais vai crer na saúde do sistema financeiro de qualquer parte ou na lisura dos negócios geridos por banqueiros e seus assemelhados. Levará muito tempo para a tal da esperada confiança nos mercados venha a ser restabelecida e de novo protegida por um véu de mentiras agridoces.

É curioso assistir os apóstolos neoliberais acusarem o governo de Obama de ‘socialista’, porque ousou quebrar o tabu e está estatizando alguns bancos. Eles estão, igualmente, em polvorosa com as medidas européias destinadas a proteger a economia de seus países, com intervenções diretas no sistema financeiro e na estrutura produtiva. Não conseguem compreender o fato básico da economia estar sempre a reboque da política, mesmo quando isto é demonstrado de modo tão claro, como no presente momento. O deus-mercado em que tanto acreditavam teve sua aura abalada e muitos dos seus crentes o deixaram em suspenso e alguns desejariam até mesmo sua supressão. Os fundamentos neoliberais foram fortemente questionados e dificilmente voltarão a ser o que era antes. A crise que, segundo alguns, já teria passado de sua fase mais aguda, continua a repercutir e a trazer inquietudes para os que acreditavam no sistema.

Apesar das crises econômicas serem uma constante histórica do capitalismo, a maioria delas é de pequena monta, regionalizadas ou setorizadas. A atual, de modo similar ao que ocorreu em 1929, alcançou todos os quadrantes da face da Terra. É verdade que em cada lugar ela vem repercutindo de modo específico, com desdobramentos e rotas de entradas e saídas peculiares. O epicentro da em vigor está nos países mais industrializados do planeta, mas, como as economias terrestres estão entrelaçadas como nunca, é possível ver seus efeitos por toda parte. Do ponto de vista humano, o mais importante a ser considerado é o desemprego de milhões. A partir disto, as coisas se desdobram em cascata, criando inúmeros problemas para o conjunto da vida econômica mundial. As perdas sofridas pelos milionários, tão destacadas pelas grandes mídias, não são nada, comparando-se com o imenso sofrimento a que incontáveis trabalhadores vêm se submetendo.

Perder alguns bilhões, para quem tem muito, não pode ser comparado a ser despejado de sua casa e, dramaticamente, ter que se adaptar a viver sem o salário anterior. Nos países ricos, os sistemas de ajuda aos desempregados aliviam um pouco a pressão. Nas economias periféricas, as conseqüências do desemprego são bem piores, variando de pequenas ajudas ao completo abandono na rua da amargura. As análises disponíveis permitem fazer crer que os ajustes das economias, destinados a superar a crise, não impedirão que os exércitos sociais de reserva cresçam por toda parte. O desemprego massivo é uma das características estruturais da atual fase do desenvolvimento capitalista e já existia antes dos acontecimentos mais recentes. O que eles produziram foi a aceleração da destruição do trabalho em função das necessidades do capital.

Não há nada de ‘socialista’ nas medidas que vêm sendo adotadas. O fortalecimento do Estado nesse contexto é uma necessidade de sobrevivência do capital. Seria um bom momento para, por exemplo, para uma real reforma agrária universal e fazer funcionar uma verdadeira reforma urbana, dividir a propriedade e dar empregos e rendas a quem realmente precisa. Podia-se imaginar formas de reorientar as economias para produção de bens de consumo de interesse popular, tais como alimentos, habitações e artigos industriais fundamentais à sobrevivência humana. Nada disto está ocorrendo, ao contrário, o sentido das medidas é o de proteger as empresas, notadamente os bancos, as seguradoras e as indústrias de ponta, que, nos EUA, são as unidades da economia mais afetadas. Apesar da crise ter sido provocada por agentes econômicos reais, poucos deles estão sendo efetivamente penalizados.

O novo discurso que vem sendo vendido aos norte-americanos é o da responsabilização parcial das famílias locais pela crise. Os mutuários de lá foram, segundo este novo tipo de propaganda, responsáveis por comprarem o que não podiam pagar, paradoxalmente irresponsáveis por não aquilatarem o risco de suas hipotecas e outros tipos de empréstimo. O mesmo tem sido dito dos que se endividaram com os cartões de crédito, comprando tudo aquilo que a publicidade lhes oferecia ferozmente e cotidianamente. Nesta hipócrita visão, os consumidores foram culpados por acreditar em um sistema considerado imbatível e sem riscos pelas mídias e pelos governos de antes do estouro da bolha. Felizmente, por aqui, isto não chegou com a mesma intensidade. Diz-se o inverso, que se deve continuar comprando sem parar, o que também não é nem um pouco confiável.

Esta crise, como todas as outras anteriores, vai passar. O abalo provocado serviu para, mais uma vez, mostrar as fissuras do sistema e as possibilidades de criticá-lo e ousar pensar em outro tipo de realidade. O capitalismo não está em risco e não existe um horizonte próximo de sua superação. Não há um fim natural ou datado e previsível para este modo de produção. Nenhuma crise econômica é capaz de aniquilar as suas fontes de poder. Qualquer mudança que venha acontecer passará pela política, expressa pela participação popular. Por outro lado, existem problemas teóricos a ser superados, entre eles os da crítica à experiência histórica vivenciada no Leste europeu e na Ásia. Urge a elaboração de uma teoria profundamente crítica que dê conta da análise e solução dos problemas históricos e filosóficos da atual fase da modernidade, dissipando as confusões e mal-entendidos dominantes. O socialismo desejado pela consciência crítica progressista do tempo presente tem rosto humano, importa-se com o coletivo e com o individual, é contra a mediocridade intelectual e rejeita todos os tipos de exclusão que tão bem se conhecem no universo do capitalismo.

Luís Carlos Lopes é professor.

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