Corunheses esquecidos: Bento Couceiro Gomes

Nasceu na Corunha em 1882. Sapateiro de profissom, casaria com Maria Raposo Cruz, tendo o casal, que saibamos, os seguintes filhos: Raúl, Horácio, Luís, Germinal, Florinda e Raquel. Logo do triunfo da sublevaçom militar de 1936, Germinal seria conhecido como Jesus, e Raquel, -que era um barom- como David. Ao longo da sua vida residiria em diversos domicílios corunheses: rua da Torre, Estrela, Marcóni e, por último, nos anos da II República, na rua Hércules, onde construíra umha vivenda. Os obradoiros de sapateiro teria-os na rua Estrela e posteriormente em Fontám.

Já nos alvores do século XX começa a sua atividade pública. Será tesoureiro da Sociedade de Sapateiros (1902-1903), está na presidência, e intervém pola sua sociedade, num comício em protesto polos proletários presos em Barcelona, Paris, Rússia e Argentina (1905); intervém, por Sapateiros, num comício decorrido no Teatro Circo (1903); fala, igualmente em nome da sociedade, num ato na Praça de Touros em solidariedade “para com as vítimas da Mao Negra” (1903); vice-secretário de Construtores de Calçado (1909) e contador, por Sapateiros, da Federaçom Solidariedade Obreira Galega, na Corunha (1911). Em 1919 aparece como um dos patrons do Grémio de Sapateiros que aceita as bases apresentadas polos obreiros desse ofício. 

É também Bento um dos diretivos mais ativos do Centro de Estudos Sociais “Germinal”. Dessa entidade será tesoureiro (1908-1909), secretário (1914, 1916-1918), vogal (1919) e presidente (1923-1924; 1934; 1935 até ao final da República). Assina um escrito, em nome de “Germinal”, com outras entidades, em protesto pola reposiçom das freiras Hijas de la Caridad nos estabelecimentos de beneficência municipais (1923). Preside e intervém em comício no Teatro Rosalia, em novembro de 1935, organizado por “Germinal” e outras entidades, contra a guerra. 

Secretário igualmente da Associaçom de Inquilinos (1913) preside, como secretário desta Associaçom, um comício contra a carestia do pam, vivendas e falta de trabalho (1914). Ao ano seguinte ocupará a presidência da entidade, e preside um comício no Teatro Circo, com idênticas reclamaçons, organizado polas sociedades obreiras.  

Os anos 1914 e 1915 fôrom de graves problemas de subsistências, muita carestia, escassas vivendas de aluguer…, na Corunha. Em 1915 fundase o Comité de Defesa Económico e Social da Corunha, para abordar essas problemáticas, do que Bento será, inicialmente, secretário da Comissom de Inquilinato dessa entidade (com o objetivo de procurar vivendas mais baratas), intervindo em comício no Teatro Circo no que o Comité dá conta das suas gestons. Será eleito presidente do Comité pouco depois. Ao longo do ano presidirá ou intervirá em numerosos comícios na cidade e arredores e asembleas da Federaçom Local Obreira. Também, em qualidade de presidente do Comité, envia um escrito à Cámara Municipal da Corunha, sobre os impostos da lenha e as patacas. 

Será, aliás, presidente do Sindicato de Profissons Várias (1918) e vice-presidente do mesmo ao ano seguinte (1919). Por esse sindicato é designado delegado para assistir ao Congresso da CNT no Teatro da Comedia de Madrid em 1919, ostentando também a representaçom do sindicato “La Humanidad Libre” de trainheiras, da Sociedade de Ofícios Vários de Betanços e do Grémio de Operários Sapateiros e similares da Corunha. 

Para além dos já citados, e outros na II República dos que logo falaremos, intervirá Bento Couceiro, como orador, em numerosos comícios. Em 1913 fai-no numha assembleia no Teatro Rosalia, sobre o conflito de Ferros e Metais, que gerara umha greve.

Em 1915 fala em comício na Praça de Touros. Em 1916 encontramo-lo intervindo num comício organizado pola Federaçom Local Obreira, no Casino Republicano, pola anistia dos presos políticos e sociais; em comício na Praça de Touros, sobre os problemas das subsistências; em comício no Teatro Rosalia, organizado pola FLO, polos acontecimentos de Nebra (Porto Doçom); em comício da FLO, no Rosalia, com republicanos e camponeses, polos acontecimentos de Nebra; na assembleia regional em Santiago, em protesto polos sucesos de Nebra, organizada pola Federaçom Local de Santiago (parte do seu discurso será em galego); e em comício na Praça de Touros, com motivo da paralisaçom geral que há em Espanha. Em 1917 fala em comício no Teatro Principal no que se protesta pola procissom do Corpus. Em 1918 preside comício da FLO no Teatro Rosália, no que se abordou o tema da carestia das subsistências e paralisaçom forçosa e, no ano seguinte, fala em assembleia da FLO corunhesa sobre o que ocorre em Barcelona com a CNT e é designado, em assembleia da mesma entidade, com outros, para intervir em comício em Betanços.  

Como conseqüência das greves de 1919 foi deportado, com outros dirigentes obreiros corunheses, a Baltanás (Palência). Som estes de 1919 e 1920 tempos de muitas greves na Corunha, estoupidos de petardos, clausura de centros obreiros, repressom, processos e deportaçons.

Pouco antes da proclamaçom da II República, em 1930, promove, com outras pessoas, a ediçom do livro Voces al viento, do jornalista republicano e maçom César Alvajar Diéguez.  

Terá Bento umha atividade bastante destacável no período republicano: em março de 1931, desmente em «Solidaridad Obrera» os rumores de que vaia apoiar determinada candidatura eleitoral; intervém, desde o público, no comício pro amnistía do Teatro Rosalía a 29 de março de 1931, pedindo a aboliçom da pena de morte; preside comício da Antorcha Galaica do Librepensamento na Praça de Touros (1931); fala no Burgo-Culleredo num ato organizado polo Centro Cultural do Burgo (1931); preside e fala em comício em Sada (1931).

Num comunicado do Ateneu Hispano de New York (16-4-1934) informa-se que em janeiro desse ano, e polo Banco Hispanoamericano, enviavam Bento Couceiro um cheque de 1.526,70 pta para o Comité Pro Presos Nacional da CNT, que Couceiro entregaria ao Comité da Regional Galaica. 

Membro da comissom organizadora que assina os estatutos do Centro Cultural Herculino (maio de 1931), presidindo a junta fundacional, é presidente da entidade em 1932. Em 1935 é vogal da Junta de Propulsom e Defesa do Progresso da Corunha (no que participava também o deputado republicano e maçom, e empresário, Pepe Minhons, fuzilado em 1936, proprietário de Electra Popular Corunhesa, na que trabalharia Bento como encarregado) e fala em comício do Partido Sindicalista no Parque Dam; provavelmente militava nesse partido (1936). 

Encontramos também Bento Couceiro como colaborador em diversos meios de imprensa. Foi membro do grupo editor de «La Acción» (1908); é secretario de exterior do grupo anarquista “Pro Tierra y Libertad”, criado na Corunha en apoio do periódico do mesmo nome (1910); colabora em «La Voz de Galicia» (1928, 1931) e polemiza com o tipógrafo socialista Estévao Fernandes Temprano em «¡Despertad!» (1928). Durante a II República, colaborará nas publicaçons anarco-sindicalistas «Solidaridad Obrera» (1933), «Solidaridad» (1936) e no semanário «La Calle» (1936), vinculado ao Partido Sindicalista.

A começos de 1936, já com bastantes anos, trabalhava no seu ateliê de reparaçom de calçado na rua Fontám. Umha neta, Rosa Couceiro, comentou-nos que foi presidente do Liceu de Monelos e muito amigo do médico Álvaro Paradela, com o que compartilhava o amor polo desporto. Depois da sublevaçom militar de julho de 1936 será preso, mas libertado, ainda que vigiado.

No seu testamento pediu ser soterrado, em cerimónia laica, no cemitério civil.


Foto: Rua da Torre, umha das ruas onde morou B. Couceiro.

 

http://www.diarioliberdade.org/artigos-em-destaque/414-batalha-de-ideias/49888-corunheses-esquecidos-benito-couceiro-gomes.html

NOTICIAS ANTICAPITALISTAS