Cine-Brasil: Libertários e Chapeleiros

 

Três décadas depois, operários, estu­dantes e cinéfilos podem assistir duas joias do documentário brasileiro de temáti­ca social e política: os médias-metragens Libertários, de Lauro Escorel, e Chape­leiros, de Adrian Cooper.

Ambos foram reunidos em DVD pelo Instituto Moreira Salles e estão, agora, impecavelmente encapados, à espera dos interessados. O disco traz excelente livre­to, ilustrado e enriquecido com textos de Carlos Augusto Calil, da USP, e Michael M. Hall, da Unicamp.

E, para dar ao material maior grande­za, foram realizados dois documentários extras – Reminiscências de um Projeto e Filmando Chapeleiros – que contextua­lizam esta ousada experiência de cinema proletário.

Libertários, o mais importante dos fil­mes do cineasta Lauro Escorel, transfor­mou-se, na segunda metade dos anos de 1970, num blockbuster dos cineclubes, sindicatos, associações de moradores e Comunidades Eclesiais de Base.

O filme narra parte da história do mo­vimento operário brasileiro, protagoni­zado por anarcossindicalistas italianos, espanhóis, portugueses e brasileiros, no final do século 19 e nas duas primeiras décadas do século 20. Com destaque pa­ra a Greve Geral de 1917 e a morte de um jovem anarquista espanhol, José Marti­nez, que pararam São Paulo.

Nunca é demais lembrar que, na se­gunda metade dos anos 1970, quando o filme foi lançado, emergia no ABC pau­lista um forte movimento operário-me­talúrgico, que ganharia grande relevo na história contemporânea brasileira. E que, ao ser premiado com o Troféu Mar­garida de Prata, pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), Libertá­rios teve seu passaporte para transfor­mar-se em material de trabalho de mi­litantes religiosos ligados à causa social.

Na fábrica de chapéus

O média-metragem de Lauro Escorel teria uma sequência em Chapeleiros, do­cumentário filmado em 1978 pelo brasi­leiro (nascido na Inglaterra), Adrian Co­oper, aliás, colaborador notável de Liber­tários.

Neste filme, ele assina a fotografia, a pesquisa (com Lauro e Ruth Toledo) e divide a montagem (com Lauro Escorel). Só que Adrian Cooper, que filmara por dias e dias a vida dos operários da fábrica de chapéus Cury, em Campinas, entrou em crise criativa e não sabia o que fazer com suas poderosas imagens.

“Eu não queria fazer um filme clássico, narrativo”, confessou ele, no lançamen­to do DVD, no Espaço Itaú Augusta pau­listano, ao lado de Lauro Escorel e dos professores Paulo Sérgio Pinheiro, Vic­tor Leonardi e Francisco Foot Hardman. “Queria fazer algo mais sensorial, como vira em muitos documentários da Esco­la Inglesa.”

O material só desencantou quando o montador Walter Rogério o estimulou: “Não há mais o que buscar, está tudo aqui, é só montar”. O que foi feito.

Chapeleiros constrói, então, uma ar­rebatadora sinfonia de imagens de cor­pos seminus e encharcados de suor. Corpos que trabalham em máquinas da época da Revolução Industrial inglesa. Os operários são vistos na labuta diá­ria, envoltos no vapor que ajuda a mol­dar os chapéus. Ou repousando depois de comer suas marmitas (esquentadas, de forma improvisada, no vapor das má­quinas). Ou “batendo o ponto” num sis­tema de fichas pré-histórico. Ou deixan­do, depois de quente e exaustivo dia de trabalho, a imensa fábrica (hoje fora de funcionamento, deve ser derrubada por projeto imobiliário, pois ninguém mais usa chapéu).

As imagens que ficaram guardadas até 1983, quando montadas, causaram enor­me impacto. Lançado no Festival de Bra­sília, Chapeleiros ganhou vários troféus Candango (direção, fotografia, monta­gem e trilha sonora). E seguiu colecio­nando prêmios na Jornada de Cinema da Bahia e no Festival de Gramado, os três mais importantes da época.

“Filmes-irmãos”

Lauro Escorel e Adrian Cooper vinham de experiências cinematográficas na América Latina (em especial no Chile de Allende). No Brasil, queriam fazer cine­ma social e militante.

Tanto Libertários quanto Chapeleiros foram produzidos pelo Arquivo Edgard Leuenroth, do Centro de Pesquisa e Do­cumentação Social, da Unicamp. Mas a instituição não apareceu nos créditos das versões originais dos filmes. Deu, sem alarde, apoio total ao projeto, mas preferiu não chamar atenção, pois es­távamos, ainda, sob governo ditatorial. No DVD, os créditos legítimos são res­gatados e a Unicamp e seu Arquivo Ed­gard Leuenroth, reconhecidos como ori­gem de tudo.

No texto escrito para o livreto que acompanha o DVD, Carlos Augusto Ca­lil define os dois médias-metragens co­mo “filmes-irmãos”, ambos “oriundos de projeto universitário, concebidos co­mo elementos de divulgação de pesqui­sa sobre as origens do movimento ope­rário no Brasil”. Portanto, “filmes com­plementares”. Que, porém, necessita­ram de três décadas para serem reuni­dos num mesmo suporte, o DVD.

Lauro Escorel realizou um documen­tário de corte clássico, com narrativa em off, somando fotos, jornais, trechos de filmes e trilha militante (na qual se destacam A Internacional, Bella Ciao e um poema operário musicado por Car­linhos Vergueiro [veja a letra ao final deste texto].

O resultado é um sintético painel do movimento anarcossindicalista que fez ferver, nos anos de 1900 a 1920, a ci­dade que se tornava a capital indus­trial brasileira. Indústrias fortes como a têxtil e a chapeleira eram comanda­das por nomes italianos (como os con­des Crespi e Matarazzo). E os operários brasileiros ganhavam a companhia de imigrantes italianos, espanhóis e por­tugueses, muitos deles impregnados por ideias libertárias, socialistas e/ou anarquistas.

Transgressões

Quem assistir com atenção ao filme de Lauro Escorel perceberá que ele co­mete algumas transgressões. Uma de­las, hoje corriqueira, era pouco comum nos engajados anos de 1970: introduzir atores num documentário. Othon Bas­tos, o Corisco de Glauber e o Paulo Ho­nório de São Bernardo, narrador do filme, entra em cena, vestido como um operário do começo do século XX, pa­ra interpretar texto que Escorel julgava essencial à narrativa.

Outro truque: Adrian Cooper colheu, em preto-e-branco, imagens que nos transportam para o começo do sécu­lo XX, mas foram feitas em meados dos anos de 1970. Difícil saber quais são as imagens antigas e quais as captadas em 1976 para o filme. O fotógrafo dá uma di­ca: “As registradas por mim têm menor presença humana, já as imagens antigas estão repletas de operários”.

As imagens de arquivo que compõem Libertários foram retiradas de descola­dos “filmes de cavação”. Ou seja, obras de encomenda que cinegrafistas realiza­vam, a soldo, para industriais ou fazen­deiros que queriam ver suas proprieda­des impressas no celuloide.

Jean-Claude Bernardet estudou – no livro Cinema Brasileiro: Propostas pa­ra Uma História (Paz e Terra, 1979) – a importância destes filmes para a me­mória cinematográfica brasileira. Mas no documentário de Lauro Escorel, os “filmes de cavação” são apropriados pa­ra situar o tempo histórico em que mui­to se lutou (com greves, sabotagens e imprensa combativa) pelos direitos dos trabalhadores.

No lançamento do DVD de Libertá­rios e Chapeleiros, Escorel e Cooper contaram curiosa história. Depois de fil­mar em uma velha fábrica, a Votoran­tim, em São Luiz de Itu, em meados dos anos de 1970, o fotógrafo foi pro­curado por um trabalhador e ouviu de­le o seguinte relato: “Gosto muito de ci­nema, tenho conhecimento do trabalho que Paulo Emílio realiza na Cinemateca Brasileira e exerci a função de projecio­nista na fábrica”.

Ele projetava filmes para os operários. E – o principal – tinha, guardado, um longa-metragem de hora e meia, registro de um feriado de primeiro de maio, co­memorado nos primeiros anos da déca­da de 1920. Quando acessaram o mate­rial, os dois cineastas viram que Libertá­rios dispunha, agora, de um tesouro. Re­tiraram dele os trechos que convinham ao novo filme e encaminharam o longa­-metragem para a devida preservação.

A Canção Operária

Poema, retirado de um jornal operário, de autor desconhecido.

Melodia de Carlinhos Vergueiro

“Quem de três tira noventa, adivinha quanto fica/essa conta é que atormenta/que enferma e mortifica/os pobres dos proletários/nesse jogo de entre mês/ ganham 6 mil reis diários/gastam 300 por mês/ganham 6 mil reis diários/gastam 300 por mês/custa casa cento e tantos/o sapato custa trinta/roupa nem se sabe quanto/o vendeiro não se finta/médico, farmácia, pouca/ou bastante, mas é ali,/só mesmo ficando louco/com pensão no Juqueri/a feira só para os ricos/o armazém para os ricaços/ se houvesse ao menos um bico/ tivéssemos quatro braços/ trabalhava-se o dia inteiro/ à noite caísse no chão/ essa vida sem dinheiro/ não é de homem é de cão/ essa vida sem dinheiro/não é de homem é de cão”.

 

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