Centros sociais e poder à margem: um movimento nacional além da política

…nem umha espécie de electro-estimulador cardíaco para burocracias e funcionários sem imaginaçom.
Wu Ming.

&nbsp Os primeiros passos de um tecido associativo galego, dotado de espaços físicos e referências simbólicas comuns, tivo umha origem interessante e peculiar que já está na hora de atender: ausência de programa e de solene momento fundacional, saníssimo efeito de contágio, sentido de solidariedade profunda entre sujeitos diversos e alérgicos a protagonismos e tutelas. No prazo de uns poucos anos, os centros sociais representárom e canalizárom esta emergência silenciosa, nem mediática nem política, para assinalarem a olhos de todos um caminho que muitos nem soubéramos pensar.

O momento histórico nom podia ser mais duro nem mais propício. A desintegraçom do movimento nacional galego e a sua conversom numha burocracia especializada na representaçom e a esmola fijo bem patente o páramo que abrasava os nossos pés; a presença abafante de umha sociedade em osmose onde políticos e mídia, empresários e burocratas, funcionariado e patronzinhos, opinólogos e polícias partilham consenso, ilusons e perspectivas, acrescentou a vertigem e os temores; a consciência de que as marés de novos precários, as últimas fornadas de moços galegófonos e as magras fileiras dos rebeldes nom tenhem mais valedor que a sua própria determinaçom, motivou finalmente o impulso. Refazer o laço, habitar espaços, reconquistar o tempo arrebatado, coesionarmo-nos e defendermo-nos dos de azul, dos de verde e dos cans com gravata.

Isso som os centros, isso som as rádios, isso som as agrupaçons de tempo livre, isso som as assembleias de precários, as de siareiros, quaisquer ligaçom colectiva para a acçom perante quem nos rouba projectos de vida e pedaços de País. Perante um nacionalismo que entra degradado, tolhido e cadavérico no veludo, encolhendo nos audis oficiais, um pequeno grande nacionalismo orgulhoso que ocupa o quotidiano e se funde com a mesma vida; perante um poder potente exibicionista e soberbo que nos faz espectadores e nos permite o aplauso ou o apupo inofensivos, milhares de micro-poderes discretos e responsabilidades diárias agindo em ruidosa sintonia.

Tantas areias na engrenagem acabam por colapsar as melhores maquinarias. E se a acçom de movimento figesse obsoleta a noçom de ‘política’, deixando este termo para os esforçados reabilitadores de Espanha, agora em formato plural? E se um movimento nacional ingovernável nom só agisse de contra-peso pontual contra as barbaridades dos que mandam (que também), senom que abrisse espaços de autonomia social onde se constituísse naçom empapando a própria lógica da vida? E se esta enxurrada auto-organizadora nom temesse abrir as portas aos burocratas, aos líderes, aos políticos e aos especialistas para fazer patente que nas novas condiçons ainda despertam menos confiança que outrora? As perguntas tenhem um profundidade incómoda porque nenhum velho manual nos vai ajudar a respondê-las. Vamos avançar às apalpadelas no escuro.

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