Brasília: Governo nomeia golpista para o Arquivo Nacional

Reproduzo mensagem que recebi da internauta, que assina com o pseudônimo de Rosa Luxemburgo, denunciando a nomeação, para a direção do Arquivo Nacional, de uma figura de questionável reputação política, além de inveterado golpista

A internauta alerta para movimentos do governo que podem se tornar novas sequências de tiros no pé.

Ao final do texto, ela aventa a possibilidade da nomeação ter a ver com a luta contra o impeachment.

Bem, seria muito curioso que o governo, para lutar pelo impeachment, esteja dando mais cargos e mais poder justamente a seus defensores!

É interessante saber ainda que, segundo nota dos servidores do Arquivo Nacional, a nomeação veio do Ministério da Justiça.

Como assim?

A única maneira de Dilma realmente vencer o golpe é fazendo um bom governo e se comunicando melhor.

Ao invés de distribuir cargos a golpistas, o governo pode criar novos e melhores canais de comunicação.

Será melhor para o país e para o próprio governo.

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Prezado jornalista Miguel do Rosário,

Escrevo a você por apreciar o seu trabalho incansável em defesa das causas populares e dos interesses do Brasil. E porque talvez o assunto seja digno de nota.

O Arquivo Nacional é um órgão pequeno. São apenas 500 servidores divididos entre a sede, no Rio de Janeiro, e instalações auxiliares, em Brasília-DF.

Digo isso para apontar que tudo de bom ou de ruim que ocorre lá deve ser analisado em conformidade com a própria dimensão do órgão.

Mas, ao mesmo tempo, o Arquivo Nacional é o repositório de grande parte da memória nacional, pelo menos daquela parcela registrada em documentos. Guarda desde a documentação do Brasil-colônia até os arquivos da Comissão Nacional da Verdade.

Por essa razão, acho que vale a pena para você ler o relato de uma (pequena) catástrofe nacional, e das pequenas, por vezes imperceptíveis, rachaduras que a crise política está causando na administração pública.

No último dia 19 de janeiro foi anunciada a exoneração do longevo diretor do Arquivo Nacional, Jaime Antunes da Silva, um professor do Departamento de História da UERJ. Aparentemente, Antunes fazia um bom trabalho e, que se saiba, não tem padrinhos políticos ou escândalos de corrupção nas costas.

O problema, contudo, não foi a exoneração de Antunes, mas sim quem o governo Dilma encontrou para substituí-lo.

Trata-se de Ricardo Marques, empresário de “TI” (tecnologia da informação), pastor evangélico bissexto, 51 anos, carioca radicado no DF há duas décadas.

Marques é ligado à Frente Parlamentar Evangélica. Especificamente, pertence ao grupo da deputada distrital Celina Leão (PDT-DF) e do deputado federal Ronaldo Fonseca (PROS-DF).

Para que se tenha uma ideia de que turma é essa, basta apontar que Celina costuma repercutir os ataques mais baixos de Silas Malafaia contra Lula. Quanto ao Ronaldo, é um dos principais promotores do tal “Estatuto da Família».

O indicado deles para o Arquivo Nacional, Ricardo Marques, é um típico caso de sucesso empresarial “à moda Brasília”. Não conheço de perto suas habilidades gerenciais, mas o fato é que se trata de um mestre em cultivar relações pessoais, principalmente no meio evangélico.

Foi por essa estrada de tijolos amarelos que ele obteve contratos com a administração, vendeu serviços, enriqueceu, ajudou políticos e acabou nomeado Secretário de Cultura do DF durante a gestão de Maria de Lourdes Abadia (PSDB).

Andou um tempo encalacrado num escândalo de propina na prestação de serviços de TI ao Senado (quando era representante de uma empresa chamada Aceco). Mesmo assim, costuma dizer que já “pensou muito em morar fora do país” por conta “dessa situação toda de falta de ética na política”. Só não foi embora, diz, por «dever patriótico», e porque “não desistirá do Brasil e de Brasília”.

Ricardo é muito religioso. Mas comete o pecado da soberba: adora auto-exposição.

Foi agraciado, em outubro de 2015, com o título de “cidadão honorário” de Brasília. A homenagem foi proposta, originalmente, por Júnior Brunelli, em 2009. Você talvez se lembre de Brunelli pela alcunha de “deputado da oração da propina”, em virtude de uma gravação na qual ele aparece agradecendo a Deus por ter recebido recursos escusos. Com Brunelli no inferno, a homenagem atrasou, e coube a Celina Leão organizar a festa.

No Twitter, Marques costumava registrar, até muito recentemente, pedidos pela derrubada da Dilma. Para ele, o governo é um fracasso total e que há base jurídica para removê-lo (os tweets ainda estão no ar!).

Quando Eduardo Cunha começou a pegar fogo, por conta dos dólares na Suíça, Marques resolveu, como bom oposicionista, emendar o pedido: Dilma “e” Cunha deveriam ser derrubados.

Isso no tempo em que ele estava confiante de que o rito do impeachment seria aprovado no STF, e que o Brasil “seria passado a limpo”.

Em novembro e dezembro de 2015, já após a derrota do rito do impeachment proposto por Cunha, Marques ficou estranhamente silencioso e parou de atacar o governo.

Menos de 3 meses depois, eis que esse “empresário de TI” aparece na imprensa como futuro diretor do Arquivo Nacional. Em seu curriculum vitae, além dos feitos já mencionados, consta ter desenvolvido uma plataforma digital chamada “Vendedores de Cristo” (sic).

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O que quer, afinal, esse empresário de TI, ligado à Frente Parlamentar Evangélica, no Arquivo Nacional?

Servir à causa republicana, segundo diz.

E o melhor lugar para tanto parece ser um órgão com milhões de documentos a serem digitalizados e que, apenas por coincidência, é central numa área com forte demanda tecnológica – no Brasil e no exterior (na África, por exemplo…).

E o que quer o governo?

O que se comenta em Brasília é que o caso envolve a troca de apoio parlamentar no processo de impeachment.

Se este último aspecto é verdade – e parece ser – então a situação é muito grave: o governo está “raspando o tacho”, entregando até mesmo órgãos pequenos e técnicos aos seus inimigos. Dezenas de pequenas catástrofes como essa devem estar ocorrendo Brasil afora.

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Em uma de suas últimas postagens no Twitter, em 7 de janeiro de 2016, Ricardo Marques anotou: “Estive reunido com o presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha. Impressionante a postura firme e serena. Política quente neste ano!”

Pequenas rachaduras podem ser um primeiro sinal de grandes desabamentos.

Abraços,
“Rosa Luxemburgo”

PS: “Veja” e “O Globo” estão investigando o assunto. Só “Deus” sabe com quais propósitos.

Leitura e audiovisual suplementar, caso você se interesse pelo assunto e queira confirmar as informações que apresentei aqui:
Perfeito de Ricardo Marques: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Ricardo_Marques
Twitter de Marques – https://twitter.com/emp_marques
Quem homenageia Marques em BSB: http://paulasantana.gpsbrasilia.com.br/news/p:0/idp:33834/nm:Cidadao-Honorario/
Entrevista com Ricardo Marques – http://www.metropoles.com/colunas-blogs/grande-angular/ex-secretario-de-cultura-do-df-no-governo-abadia-vai-comandar-o-arquivo-nacional
Celina Leão e Silas Malafaia – http://blogcelinaleao.blogspot.com.br/2014/07/pastor-silas-malafaia-entra-em-guerra.html
Ronaldo Fonseca VS Jean Willys (Família) https://www.youtube.com/watch?v=VO3Z736GRUU
Júnior Brunelli – https://www.youtube.com/watch?v=VXeL3qBu860
Aceco e propina no Senado:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1011200016.htm

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Um adendo: nota da Associação dos Arquivistas do Estado de São Paulo.

Acabou de sair no facebook: https://www.facebook.com/arqsp?fref=ts

UM NOVO DIRETOR PARA O ARQUIVO NACIONAL
MOÇÃO DE REPÚDIO DA ASSOCIAÇÃO DE ARQUIVISTAS DE SÃO PAULO

No último dia 19 de janeiro foi anunciada a exoneração de Jaime Antunes da Silva do cargo que ocupava, desde 1992, à frente do Arquivo Nacional. Para substituí-lo no comando da mais importante instituição arquivística do país, o ministro da Justiça escolheu José Ricardo Marques, ex-secretário de Cultura do Distrito Federal, que ostenta em seu currículo a filiação ao PDT e a prestação de serviços a órgãos públicos como vendedor especializado no ramo da tecnologia da informação. Segundo matéria disponibilizada pela imprensa (notícias do Metrópoles e de O Globo, ambas de 19 de janeiro), a mudança é fruto de indicação feita pelo deputado federal e pastor evangélico Ronaldo Fonseca (PROS-DF) e tem por objetivo a cobertura de cota política. Trata-se, portanto, de «loteamento» partidário de cargo eminentemente técnico, contribuindo para o processo de fragilização do Arquivo Nacional que teve início quando de sua transferência da Casa Civil da Presidência da República para o Ministério da Justiça, em 2011.

Os organismos de custódia de documentos não têm tido muita sorte entre nós. Desprestigiados pelos próprios setores administrativos a que estão subordinados, que não raro ignoram sua discreta mas fundamental importância, os arquivos públicos acabam por servir de moeda de troca em barganhas políticas feitas em nome de uma duvidosa e improvável governabilidade. Nessa transação, infelizmente, os arquivos valem sempre pouco, muito pouco. Tão pouco que qualquer atividade – seja ela ligada ao comércio de estantes de aço ou de processos de digitalização, seja a fatores inteiramente alheios ao modus operandi da instituição (o credo religioso ou a militância em determinadas confrarias evangélicas) – passa a valer a mesma coisa que o domínio dos conceitos e princípios de uma área de conhecimento ou a experiência acumulada no trato com a gestão documental. E tudo isso sem provocar qualquer constrangimento de ordem ética em quem foi indicado para o novo cargo ou em quem foi responsável pela indicação.

Pobre Arquivo Nacional! Dias tenebrosos o esperam…

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PS Cafezinho: eu fotografei algumas postagens deste cidadão no Twitter. De fato, é assustador que uma figura tão desqualificada, um coxinha tão identificado com a oposição ao governo, tão partidário do impeachment seja nomeado, pelo governo, para algum cargo.

Repare ainda que ele escreve «imprecionado»..

Miguel do Rosário

Fotoarte: » Coxinha»

 

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