Brasil:Economia dependente impede que Brasil se torne imperialista

 

 

 

Para Jaime Osorio*, América Latina aumenta a sua dependência de commodities diante da crise financeira.Em um momento em que as dificuldades dos mercados financeiros produzem salários, condições de bem-estar social e legislações trabalhistas cada vez mais degradadas, o bom desempenho econômico de países como o Brasil torna-se apenas uma expressão desigual da naturalmente contraditória lógica capitalista.

ENTREVISTA

Opera Mundi: Há um momento em seu obra no qual o senhor se refere ao Brasil como um caso de subimperialismo dependente. Por quê?

Jaime Osorio: A ideia de subimperialismo diz respeito exatamente à maturação em condições de dependência do capital. O Brasil possui um nível de desenvolvimento monopolista e financeiro definitivamente avançado. Isso faz com que surja uma política externa de controle de matérias-primas e de fontes de abastecimento mas, ao mesmo tempo, contribui para uma geopolítica menos regional.

OM: O senhor acredita que o Brasil corre o risco de assumir um papel imperialista?

JO: Não acredito que o Brasil vá se tornar imperialista. O ponto é que o país já é subimperialista e este é o estado máximo a que se pode chegar enquanto for uma economia dependente. Ser subimperial é a forma que o Brasil assume para ser imperialista. O Brasil nunca vai assumir uma condição imperialista norte-americana, por exemplo, porque está inserido em uma lógica de dependência. Isso significaria ter um grau de autonomia que o capital brasileiro não possui. O Brasil tem uma certa autonomia, mas, dentro de uma condição de dependência, segue como um capital subordinado aos poderes imperiais.

OM: Mesmo diante da taxa de crescimento positiva do PIB de países emergentes, o senhor considera a crise do capital como algo geral?

JO: Sim, ela é geral. O que ocorre é que essa crise se expressa de forma desigual. É errado comparar o Brasil com a China, a China com a Índia e assim por diante. Os BRICs são uma simples homogeneização feita a partir de dados estatísticos que descarta diferenças qualitativas.No caso da China, por exemplo, houve um processo revolucionário que estabelece diferenças fundamentais com a economia brasileira. O ponto é que lá há um estado com capacidade de orientar o que o capital nacional e internacional pode fazer. Isso o Estado brasileiro não tem, não se propõe a ter e nem deseja ter. Isso porque aqui não houve uma revolução, porque aqui o capital tem o Estado a seu serviço. Na China há controle cambial, controle sobre condições de investimento estrangeiro e critérios para a capacitação de mão-de-obra.

OM: O senhor diz que o capitalismo sempre privilegia algum setor da economia em detrimento de outro. Qual segmento o senhor vê destacado atualmente?

JO: Há uma tendência geral que se traduz no abandono do setor industrial. No Brasil e no México isso ocorre menos porque nesses países há um padrão manufatureiro muito forte. Mas, no novo padrão, os setores de maior peso estão relacionados ao lucro sobre recursos naturais. E isso implica em trazer de volta o auge do que tem sido uma constante na história econômica latino-americana: sustentar-se na produção agrícola e na mineração.

A consequência é que o setor industrial vai perdendo significação em países menores, mas com um certo desenvolvimento industrial, como no Chile, no Peru ou mesmo na Colômbia. O Brasil tem um setor industrial de peso, mas é verdade que isso está perdendo significação no PIB, nas exportações e no desenvolvimento tecnológico.

OM: Qual a relação entre a valorização do setor de commodities no continente e os recentes fenômenos de reestatização de recursos naturais?

JO: Há um movimento duplo. De um lado surge o capital tentando se apropriar (ou se reapropriar) de explorações agrícolas, minerais e florestais, o que implica na transgressão dos interesses de povos e comunidades mais ancestrais e na motivação de levantes populares. De outro há a revalorização pelos estados de condições de controle. O caso da Venezuela e seu segmento petrolífero é talvez o mais claro.

OM: Qual é o modo de reprodução de capital menos agressivo ao mundo do trabalho? É possível um padrão menos agressivo?

JO: Nas atuais condições de funcionamento do capitalismo exportador da América Latina (que já está se arrastando há pelo menos três décadas), há um descenso brutal das condições de trabalho, dos salários e das condições de bem-estar social.

Não vejo nenhuma lógica menos agressiva, pelo contrário: vejo o lado mais brutal dessa lógica instalado na Europa e nos Estados Unidos. Em tempos de crise, aspectos civilizatórios do capital, aspectos menos selvagens associados à capacidade de se construir uma sociedade menos brutal, tendem a desaparecer. Embora a crise financeira não nos tenha afetado tão diretamente, ela contribui para o perfil mais bárbaro do sistema.

OM: O senhor diz em seu livro que o novo modelo do mercado financeiro instalou, com sua volatilidade, um novo elemento na lógica do capitalismo. Qual é esse elemento?

JO: O capitalismo alcançou estágios de desenvolvimento onde surge a figura do capital financeiro. Nesse momento ele se abstém da produção real de valor para se converter em ficção. Trata-se de uma modalidade de capitalismo que busca extrair lucro das condições reais de valor a partir de especulações.

Essa capacidade especulativa em tempos de crise se exacerbou. Essas são as bolhas do setor imobiliário norte-americano, essa é a venda de dívida sobre dívida sobre dívida na Espanha. Trata-se da ganância despida de um valor real que a sustente.

*Jaime Osorio é um dos principais estudiosos da Teoria Marxista da Dependência no México, onde leciona na UAM-X (Universidad Autónoma Metropolitana – Xochimilco) e na Unam (Universidad Nacional Autónoma de México). Ele esteve no Brasil em agosto a convite da Boitempo Editorial e do Núcleo de História Econômica da Dependência Latino-Americana da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande de Sul) para as conferências de lançamento do livro «Padrão de reprodução do capital: contribuições da teoria marxista da dependência», do qual é organizador junto com Carla Ferreira e Mathias Luce.

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