Brasil :Vale Jequitinhonha nos palcos de arena – Coletivo Teatro da Margem (CTM).

Coletivos consequentes de teatro surgem pelo país, grande parte deles com uma vontade insaciável de servir ao povo com o melhor da arte, através de um teatro politizado. São trabalhos para serem exibidos nas casas de espetáculo, nos teatros de arena, nas universidades, nas escolas, nas associações de bairro e mesmo na rua. São os artistas da nossa gente se movimentando, como canoeiros pelos rios perenes do nosso Brasil.

Desenvolver um teatro transformador, transgressor e crítico. Esse foi um dos motivos que fez surgir em 2007 o Coletivo Teatro da Margem (CTM). A idéia era construir um processo colaborativo de trabalho através de uma direção e atuação coletivas.

Quando falamos em 'grupo' pensamos logo em algo fechado. Por conta disto é que nos denominamos coletivo. As pessoas podem entrar e sair sem maiores problemas. É claro que em breve tempo seremos um coletivo fixo, mas isto se dará ao longo de nossa trajetória. O que queremos é ter um projeto teatral compartilhado por todos os 'marginais' — afirma Narciso Telles, coordenador do CTM.

O termo Teatro da Margem proporciona uma série de interpretações: independente, transformador, contestador e possivelmente uma ligação com a celebre frase do dramaturgo alemão Bertolt Brecht: “Do rio que tudo arrasta se diz violento, mas não se diz violenta as margens que o oprimem”.

Atribuindo aos atores o improviso, o CTM tem como maior influência a técnica do ViewPoints*, estudada e desenvolvida pela diretora estadunidense Anne Bogart. Foi com o objetivo de avançar na compreensão dessa técnica que se conformou um grupo de estudos sob a orientação do Professor Narcisio Telles da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Estudantes do curso de teatro da Universidade passaram a incorporar o grupo, almejando em pouco tempo colocar em prática o que estudavam.

— Hoje o coletivo continua com o objetivo de colocar em prática o que estudamos; levar para o teatro questões sociais a partir do desenvolvimento de novas técnicas. O coletivo vai gradativamente alargando seu campo de atuação — afirma Narciso Telles.

— O Coletivo Teatro da Margem vê o teatro como uma pedagogia de ação transformadora, quando o espectador se converte em ator e passa a dominar a discussão e feitura do seu destino ­— explica.

— O grupo se esforça para que o povo não seja apenas espectador, mas agente de transformação do que está em seu redor. Porque hoje em dia, parte da população permanece passiva para que a outra, ativa, domine — declara Nádia Yoshi.

O cotidiano do Vale em cena

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O primeiro de muitos trabalhos do Coletivo foi à produção da peça Canoeiros da Alma, dirigida pelo próprio Narciso e com texto de Luiz Carlos Leite.

— O espetáculo canoeiros da Alma, foi criado a partir das sensações dos atores da visita que fizemos as municípios de Araçuai e Itinga, no vale do Jequitinhonha, aplicando os procedimentos de criação 'viewpoints'. Neste processo também tivemos uma construção coletiva com os atores de toda a estrutura dramatúrgica do espetáculo — aponta Narciso.

Foram 10 dias no Vale Jequitinhonha. Cerca de 10 pessoas foram viver com o povo do vale por alguns dias. Dormiram na casa de camponeses, foram para a beira dos rios, viram plantações, observaram concentração de riqueza por um lado e fome e miséria por outro. Dessa vivência e das sensações provocadas surgiram personagens e cenas.

Semelhante a sensação de ouvir uma contação de estórias, o espectador da peça pode observar vários aspectos da cultura do Vale, além de outras temáticas como: o problema do alcoolismo, da degradação do ser humano, o êxodo rural, a exploração do latifúndio, a resistência dos ribeirinhos, etc.

É uma peça com um figurino e cenário simples, mas que dizem muito. Além de ser inovadora e diferente dos espetáculos tradicionais.

— O espetáculo — explica o grupo — pode ativar o espectador e torná-lo ator com liberdade de entrar e sair de cena em qualquer momento. Ele leva o espectador a ter opinião, e lhe dá liberdade para transformar-se em agente dentro daquilo que faz parte da sua vida. Se alguém está assistindo e resolve entrar do nosso lado, por exemplo, começamos a interagir com ele naturalmente. Se ele sair, tudo bem.

A peça foi apresentada em Belo Horizonte em um Festival Estudantil de Teatro e foi bastante aplaudida. Muitos desses espectadores, provavelmente, saíram da apresentação com o imaginário social e cultural do Vale Jequitinhonha na mente e no coração.

A difícil tarefa de fazer Teatro independente

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O coletivo também pensa em questões que envolvem a política cultural em nosso país. São pessoas preocupadas com o destino das artes no Brasil, em específico no Triângulo Mineiro, principal área de atuação do CTM.

— Nosso publico, ainda é basicamente de estudantes universitários. Nosso projeto é de ampliar nossas ações em bairros periféricos. De um modo geral o público do Triângulo prestigia os espetáculos. O maior problema é que a divulgação dos mesmos fica restrita a uma parcela da população. É preciso popularizar o teatro nesta região — diz Narciso.

Para o coletivo é preciso levar o teatro, a dança, as artes no geral até o povo. Contudo sabem que essa é uma tarefa difícil para os grupos independentes.

— O CTM tem o apoio da UFU (Universidade Federal de Uberlândia) e isso é fundamental. Mas diversos outros coletivos e grupos não têm, sobrevivem do próprio bolso e do amor ao teatro. É preciso construir uma nova política cultural no país, que não atenda somente aos interesses dos grandes — explica o grupo.

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De volta ao vale…De volta às massas!

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Difundir o espetáculo Canoeiros da Alma pelos bairros empobrecidos de Uberlândia é uma das tarefas colocadas para o grupo em 2009. A montagem de outros espetáculos também está nos planos do coletivo. E são espetáculos para serem exibidos nas ruas.

— Queremos também fazer a nossa política na rua. Atualmente, o povo não tem quase mais nenhum espaço para exercer a sua cidadania, vida política, pensamento e discussão, Neste sentido, o coletivo tornou-se um local para se fazer política, e permite aos seus integrantes se manterem como seres políticos — declara Narciso.

O coletivo pretende passar mais uma temporada no Vale Jequitinhonha. Quer voltar ao convívio do povo daquela região, para assim vivenciar novas experiências e o mais importante, apresentar a peça aos ribeirinhos.

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