Brasil um país ou um feirão.

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Um país ou um feirão – é o dilema que se revela na crise dos caminhões

Começo por uma forma de falar que me incomoda: começar alguma reflexão com “a esquerda isso, a esquerda aquilo”.

Nós, da esquerda, camaradas, não na terceira pessoa. E vamos ver se é mesmo verdade que “a esquerda pensa isso, faz aquilo”. Ou se estamos construindo um boneco artificial, fácil de atacar para dormir sossegado com nossa própria “esquerdice”.

Vista no retrovisor, a tradição das esquerdas (no plural) está cheia de erros e acertos, grandezas e misérias. Quando olho para as decisões que tomei (eu e meus amigos) depois do AI-5, vejo o tremendo erro de análise e suas consequências desastrosas.

Mas procuro me imaginar, de novo, naquelas circunstâncias dramáticas, que limitavam nossa razão e nosso coração. Agora, os acontecimentos avançam rapidamente, alguns tremores de terra anunciam possíveis abalos de grande monta. Vamos procurar – tanto quanto possível – um modo de entender o jogo, para jogar certo.

Um dos cuidados é evitar a doença para-acadêmica (não é acadêmica, de fato) da discussão abstrata. É claro que tem importância saber se estamos diante de uma greve ou de um locaute. Não para satisfazer nosso dicionário, mas para saber o potencial, os fins almejados pelos agentes e assim por diante. Para posicionar nosso próprio time, enfim.

Mas, antes disso, vamos fazer uma fenomenologia básica do evento, descrever o cenário e os sinais de trânsito que conduziram os motoristas de caminhão. Por detrás desse estouro havia um longo e largo processo de conflitos, negociações, pressões e contra-pressões. Esta negociação mais recente – sobre diesel e pedágios – vem de meses. E, enquanto isso, havia uma vida cotidiana de milhares de indivíduos expostos a vidas degradadas e tensas, disponíveis para as mais variadas tentações e aventuras.

Trabalhar dezoito horas por dia, na base de comprimidos, dormir e comer na boléia do caminhão. E ganhar apenas o suficiente para seguir na lida. E havia, do outro lado, um projeto de desmonte da nação que tinha como seu elemento chave o desmanche da Petrobrás como instrumento de política de desenvolvimento. A Petrobrás teria que ser transformada, nas exatas palavras do tal Parente, em uma padaria destinada a gerar lucros para seus acionistas.

O que brotou desse confronto, agora militarizado, é o choque entre uma visão de país e uma visão de feirão administrado por feitores coloniais, que fazem o serviço e ganham sua comissão. Não é casual que o dr. Parente e seus parentes sejam, precisamente, empreendedores desse ramo, para-banqueiros e gestores de famílias milionárias. Estão no papel adequado.

Para que os caminhoneiros tenham uma vida decente, os brasileiros tenham distribuição dos bens elementares, é preciso ter um país, não esta zorra em que consiste o programa do golpe. Em suma, um país não está nas contas do dr. Parente, como não está na conta dos economistas-banqueiros do PSDB, aqueles que dizem que a constituição de 1988 não cabe no orçamento, que é preciso canibalizar a nação.

Pode ser que os caminhoneiros, suas lideranças e organizações tenham esta ou aquela inclinação, este ou aquele vínculo político. Devem ter, claro. Mas o confronto é esse: vamos ter um país ou um mercado de peixes, aberto aos grandes tubarões? Se queremos o primeiro, a Petrobrás não pode continuar no rumo em que está.

E esse rumo foi traçado, em tempos recentes, pelo dr. Parente. Mas o desenho foi feito faz já algum tempo, por um engenho bem mais sofisticado, que incluía atores distantes, lá no hemisfério norte, aqueles que monitoravam secretamente os telefones e redes da Petrobrás e da presidência. Hillarys e Obamas na cabeça. E incluía, aqui, agentes dedicados da ofensiva do império – promotores, juízes, delegados, donos da mídia e um outro batalhão de vendilhões da pátria.

A foto de Parente e Moro que agora circula é mais do que uma imagem festiva – é o retrato simbólico da operação delinquente. Um continua o trabalho iniciado pelo outro.

Dois porcos numa noite suja. Ou melhor, na foto (e na vida) são quatro os suínos envolvidos.

 Reginaldo Moraes

Fotoarte: «Feira»

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