Brasil. São Paulo. «A história é implacável»

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‘No momento em que se debate o retrocesso, é muito importante rememorar Jango’

João Vicente lembra que seu pai (na foto, com ele e Denize) foi o único presidente brasileiro a morrer no exílio

No próximo domingo (14), um grupo participará da chamada Caminhada Cívica por Jango e pela Democracia, no elevado da região central de São Paulo, que agora leva o nome do ex-presidente João Goulart. E o ato – organizado, entre outros, pela Agência Sindical – ocorre em um momento oportuno, conforme lembra João Vicente Goulart, filho do ex-presidente, que ao lado de sua irmã, Denize, estará presente. «É muito importante, neste momento em que se debate abertamente o retrocesso, rememorar Jango», diz João Vicente.

A simples mudança de nome no elevado, o popular «Minhocão», significa «um grande avanço na luta pelos direitos humanos, pelos sítios de memória», diz ele, lembrando ainda, de mudança ocorrida em 2015 em Brasília, onde a ponte que tinha o nome do general-presidente Arthur da Costa e Silva passou a se chamar Honestino Guimarães, em homenagem ao líder estudantil desaparecido durante a ditadura. Em São Paulo, a alteração foi sancionada em julho pelo prefeito Fernando Haddad, após a Câmara aprovar projeto de lei do vereador Eliseu Gabriel. Inaugurado em 1971, o elevado tinha até então também o nome de Costa e Silva.

João Vicente destaca outras iniciativas envolvendo o nome de Jango, como projeto do deputado federal Pompeo de Mattos (PDT-RS), aprovado há um mês na Comissão de Cultura da Câmara, pelo qual se inscreve João Goulart no Livro dos Heróis da Pátria. Ele cita ainda a devolução das honras de Estado e anulação da «tenebrosa sessão» de 2 de abril de 1964, que decretou vaga a Presidência da República, mesmo com Jango em território nacional. «Estão dando a ele o verdadeiro espaço que a ditadura lhe cassou.»

A iniciativa da caminhada demonstra ainda, segundo João Vicente, o reconhecimento de centrais e sindicatos «à luta de Jango pelos trabalhadores brasileiros». Ele lembra episódios como o aumento de 100% dado ao salário mínimo em 1954, quando Goulart era ministro do Trabalho de Getúlio Vargas e acabou perdendo o cargo. Foi o período do chamado Manifesto dos Coronéis, que reclamavam, entre outras coisas, do reajuste do mínimo. Destaca ainda a criação do 13º salário, em 1962, já no governo Jango.

Nesse sentido, o filho do ex-presidente lembra das ameaças em curso, com o governo interino. «Os trabalhadores não podem sofrer esse retrocesso em seus direitos», afirma, comparando o Congresso atual e o de 1964. Aquele, diz, «impediu as reformas de base». O de hoje, acrescenta, «não é comprometido com a democracia, mas com interesses pessoais e corporativos».

Para ele, Jango representa hoje «todos os democratas», e a caminhada de domingo surge como evento «em homenagem à história nacional». João Vicente lembra que seu pai foi o único presidente brasileiro a morrer no exílio: a morte de Jango completará 40 anos em 6 de dezembro.

O filho de Goulart mostra inconformismo com decisão do governo do Distrito Federal, há um ano, de não mais ceder um terreno para a construção do Memorial da Democracia e da Liberdade, que levaria o nome do ex-presidente. «Surpreendeu muito pela covardia do governador (Rodrigo) Rollemberg, que de socialista não tem nada. Ele está praticando um crime de memória. No momento em que o Brasil lhe devolve (a Jango) as honras de chefe de Estado, que o Congresso faz uma autocrítica (anulando a sessão de 2 de abril), em que os direitos humanos avançam, em que o Mercosul declara Jango herói latino-americano, tivemos uma surpresa e uma indignação profunda.»

João Vicente também vê paralelo entre a situação vivida hoje pelo Brasil e a de 52 anos atrás. «Em 1964 também diziam que não era golpe, que era revolução. O destino é inviolável. A história é implacável. A esses senadores que vão votar a favor do impeachment a história reserva a cada um o destino que lhes é merecido», afirma, contestando em certa medida a suposição de que a história é escrita pelos vencedores. «Quem vence são aqueles que permanecem como figuras do povo brasileiro», diz, citando Jango. «Onde estão aqueles que traíram o povo?»

Caminhada e corrida

A concentração no domingo, às 8h30, será na Rua Doutor Cesário Mota Jr., 561 (Pizzaria da Sara) – desse ponto sairá a caminhada. No final, está previsto um ato público/artístico no Largo Padre Péricles, em Perdizes, na zona oeste da capital paulista.

Haverá também uma corrida, coordenada por Rodolfo Lucena, «pela legalidade e contra o golpe». A saída está marcada para as 7h na Rua Oscar Freire, diante da estação Sumaré do Metrô.

O evento tem página no Facebook: https://www.facebook.com/events/1084673221586701/

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