Brasil. PM do Alckmin assassina jovem na Favela do Moinho, São Paulo [Áudio]

«Eu vi meu filho saindo de maca. Levaram ele para Santa Casa, mas ele já estava enrolado no papel. Ele era usuário de droga, era alcoólatra, era doente». 

 

O jovem Leandro de Souza Santos, 18 anos, morreu durante ação policial na manhã desta terça (27) na Favela do Moinho, região central de São Paulo, por volta das 11 horas.

A notícia foi confirmada pela mãe da vítima, Maria Odete, em entrevista ao Brasil de Fato (vídeo abaixo). Ela reconheceu o corpo do filho no hospital Santa Casa.

Segundo ela, a vítima correu da polícia e entrou na casa de uma vizinha; a polícia, então, teria colocado o som bem alto e dado cinco tiros.

«Eu vi meu filho saindo de maca. Levaram ele para Santa Casa, mas ele já estava enrolado no papel. Ele era usuário de droga, era alcoólatra, era doente».

«Mataram meu irmão. Não só mataram na arma, tinha martelo sujo de sangue», disse à reportagem o irmão da vítima, Lucas de Souza Santos.

No começo da tarde, havia dúvidas a respeito do óbito de Leandro e Maria Odete havia sido impedida de fazer o reconhecimento do corpo do filho e só conseguiu acesso mais tarde, por intervenção do ex-senador e vereador pela cidade de São Paulo Eduardo Suplicy e sua assessora, Camila Victor, que estão acompanhando o caso.

De acordo com as informações da assessoria de Suplicy, o corpo do garoto possui cinco perfurações e sinais de martelada. A mãe de Leandro agora pede ajuda para arcar com as despesas do enterro.

A dona do barraco e testemunha do crime, identificada como Lucimar, foi ouvida no DEIC (Departamento De Investigações Sobre Crime) e já foi liberada. Ela estava dada como desaparecida até o início da tarde.

Segundo o tenente-coronel Miguel da Frara, do 13º Batalhão, a operação foi comandada pela Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (ROTA) e há mais de 30 mandados de prisão para a região.

«O que chegou para nós de informação é que, numa tentativa de abordagem, houve troca de tiros. A Corregedoria já está ciente da ocorrência», declarou à reportagem.

O Brasil de Fato entrou em contato com a Polícia Militar e com a Secretaria de Segurança Pública, mas até a publicação deste texto não recebeu nenhum retorno.

Em nota, a Santa Casa afirmou que o jovem já chegou ao hospital sem vida: «o paciente Leandro de Souza Santos, deu entrada no pronto-socorro inicialmente sem identificação. Foi trazido pelo pré-hospitalar que relatou que desde o início do atendimento que o paciente estava sem sinais vitais».

Violência policial

A mãe de Leandro afirmou à reportagem que as operações policiais violentas estão cada vez mais constantes na favela do Moinho: «Agrediram minha nora de dieta. Deram um golpe no irmão dele, de 20 anos, que desmaiou. Eu entrei na frente para não acontecer o pior».

O acontecido com Leandro e o relato de Lucimar a respeito da violência na favela estão longe de serem casos isolados. De acordo com o levantamento realizado pelo Atlas da Segurança Pública, em dez anos, quase 320 mil jovens brasileiros, em sua maioria negros, tiveram a vida interrompida precocemente em casos de homicídio.

De acordo com o pesquisador do Ipea Daniel Cerqueira, em declarações à Radioagência Nacional, à época da divulgação dos dados, a atuação truculência da polícia é fundamental para este cenário: «Em vez de ser a polícia truculenta, que ofende direitos, que eventualmente mata e morre muito, e que funciona simplesmente na base do policiamento ostensivo, [a ação de segurança] deve ser baseada na inteligência e na informação

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Edição: Camila Rodrigues da Silva e Vanessa Martina Silva

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Favela do Moinho

«Existe uma guerra contra pessoas»

Nathália Oliveira, do INNPD, avalia que caso é um dos reflexos da atual política de drogas adotada pelo governo

Rute Pina

A ação policial que ocorreu na manhã desta terça-feira (27) na Favela do Moinho, no centro da cidade de São Paulo, e que matou Leandro de Souza Santos, de 18 anos, é um símbolo de que o Estado se utiliza da atual política de drogas — centrada na punição do usuário e na proibição das substâncias — para justificar ações em territórios onde estão em disputa interesses imobiliários e econômicos. A avaliação é de Nathalia Oliveira, coordenadora da Iniciativa Negra por Uma Nova Política sobre Drogas (INNPD).

A operação, de acordo com a Polícia Militar, visava fechar «laboratórios de crack» no território. “O que aconteceu no Moinho hoje é mais uma demonstração gratuita de violência do estado”, disse a ativista. “Eles dizem que é para combater o tráfico de drogas, mas a gente sabe que esta guerra é contra as pessoas”, completou. Ela participou, nesta tarde, do debate “Criminalização de territórios pobres a partir das políticas de drogas”, no Aparelha Luiza, espaço cultural denominado como “quilombo urbano” no centro da capital paulista. O evento ocorreu a poucas quadras da Favela do Moinho.

O evento faz parte da semana “As múltiplas faces das políticas de drogas em SP”, que começou na segunda-feira (26), dia mundial designado pela ONU para a campanha “Acolha, não puna” de política de combate às drogas. O ciclo debates é organizado por diversas entidades que atuam no campo das drogas na capital paulista e no Estado, como a INNPD e a Plataforma Brasileira de Política de Drogas.

«Essa semana marca que não vai existir a construção de uma política de drogas se ela não olhar para várias abordagens que são necessárias, se ela não tiver recorte de gênero e de raça. Precisamos de uma política que não alimente a política de droga», afirmou a coordenadora.

A militante da Marcha das Mulheres Negras Juliana Gonçalves, jornalista que compõe a equipe do Brasil de Fato, também participou do debate. Para ela, a ação no Moinho e na região da Luz, no fluxo conhecido como Cracolândia, é um projeto, em curso, de higienização e criminalização da pobreza — que tem como principal alvo a juventude negra das periferias.

E, na opinião da jornalista, a Polícia Militar se utilizou do endurecimento da política drogas em 2006 para “justificar de todo tipo de atrocidades”. Pela atual legislação, é de competência do agente público que faz a abordagem considerar a quantidade de droga apreendida como «para uso» ou «para o tráfico». Ela cita a prisão de Rafael Braga e o assassinato de Luana Barbosa, mulher negra que foi agredida e assassinada por policiais em abril de 2016.

«Dirigir uma moto pode ser um ato suspeito, dependendo de quem você é e da cor da sua pele», diz Gonçalves. «Essa lógica de ‘você não pode parecer culpado’ permeia a criação dos meninos na periferia. É uma lógica de evitar que te percebam e que te parem. Um menino negro, correndo, já pode ser considerado culpado”, avaliou a militante.

Bruno Ramos, da Liga do Funk, pontuou a necessidade em se dialogar com a juventude das periferias e «traduzir» os debates do ativismo e da produção das universidades brasileiras sobre o tema das drogas. «É essa molecada, por falta de oportunidade, que ainda está na ponta da lojinha [tráfico]», disse.

A programação da semana “As múltiplas faces das políticas de drogas em SP” continua nos próximos dias e você pode conferir a agenda completa do ciclo de debates aqui.

Violência policial

De acordo com o levantamento realizado pelo Atlas da Segurança Pública, em dez anos, quase 320 mil jovens brasileiros, em sua maioria negros, tiveram a vida interrompida precocemente em casos de homicídio.

Edição: Vanessa Martina Silva

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