Brasil. ‘O Paradoxo e a Insensatez’

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Em setembro de 2015, em meio à pressão pelo impeachment da então presidenta Dilma Rousseff, o economista José Luís Fiori publicava o artigo “O Paradoxo e a Insensatez”, no jornal Valor Econômico.

Neste artigo, Fiori levanta uma questão de extrema importância e atualidade: “como entender o encontro e a colaboração destes economistas liberais com os políticos golpistas? ”

Destacando que “tanto os líderes golpistas, quanto seus economistas de plantão, olham para o mundo como se ele fosse uma enorme cobertura”, o economista destrincha as intenções por trás do golpe – “menos estado e menos política” – e a dificuldade dos “ideólogos que sonham com o limbo” de compreender que “não existe vida econômica sem política e sem estado”.

Neste dezembro de 2016, “momento em que já se explicitou inteiramente a natureza do golpe de estado e o objetivo e mediocridade do governo que foi instalado no país”, conforme avalia Fiori, Carta Maior faz questão de republicar “O Paradoxo e a Insensatez”, cuja atualidade é evidente.

O PARADOXO E A INSENSATEZ

JOSÉ LUÍS FIORI

“Uma vez me perguntaram se o Estado brasileiro é muito grande. Respondi assim:

 “Eu vou lhe dar o telefone da minha empregada, porque você está perguntando isto para mim, um cara que fez pós-doutorado, trabalha num lugar com ar-condicionado, com vista para o Cristo Redentor. Eu não dependo em nada do Estado, com exceção de segurança. Nesse condomínio social, eu moro na cobertura. Você tem que perguntar a quem precisa do Estado.”

Luiz G. Schymura, “Não foi por decisão de Dilma que o gasto creceu”, Valor Economico, 07/08/2015

Duas coisas ficaram mais claras nas últimas semanas, com relação à atual “crise brasileira”. De um lado, o despudor golpista, e de outro, a natureza ultraliberal do seu projeto para o Brasil.

Do ponto de vista político, ficou óbvio que dá absolutamente no mesmo o motivo dos que propõem um impeachment, o fundamental é sua decisão prévia de derrubar uma presidente da república eleita por 54,5 milhões de brasileiros há menos de um ano, o que caracteriza um projeto claramente golpista e antidemocrático e, o que pior, conduzido por lideranças medíocres e de discutível estatura moral. 

Talvez, por isto mesmo, nas últimas semanas, a imprensa escalou um grupo expressivo de economistas liberais, para formular as ideias e projetos do que seria o governo nascido do golpe. Sem nenhuma surpresa: quase todos repetem as mesmas fórmulas, com distintas linguagens.

Todos consideram que é preciso primeiro resolver a “crise política”, para depois poder resolver a “crise econômica”; e uma vez “resolvida” a crise política,  todos propõem a mesma coisa, em síntese: “menos estado e menos política”.

 Não interessa muito o detalhamento aqui das suas sugestões técnicas. O que importa é que suas premissas e conclusões são as mesmas que a utopia liberal repete desde o século XVIII, sem jamais alcançá-las ou comprová-las, como é o caso de sua crença na racionalidade utilitária do homo economicus,  na superioridade dos “mercados desregulados”, na existência de mercados “competitivos globais”, e na sua fé cega na necessidade e possibilidade de despolitizar e reduzir ao mínimo a intervenção do Estado na vida econômica.  É muito difícil para estes ideólogos que sonham com o “limbo”, entender que não existe vida econômica sem política e sem estado.

 É muito difícil para eles compreender ou aceitar que as duas “crises brasileiras” são duas faces de um conjunto de conflitos e disputas econômicas cruzadas, cuja solução tem que passar inevitavelmente pela política e pelo estado. Não se trata de uma disputa que possa ser resolvida através de uma fórmula técnica de validez universal. Por isto, é uma falácia dizer que existe uma luta e uma incompatibilidade entre a “aritmética econômica” e o “voluntarismo político”.

Existem várias “aritméticas econômicas” para explicar um mesmo déficit fiscal, por exemplo, todas só parcialmente verdadeiras. Parece muito difícil para os economistas em geral, e em particular para os economistas liberais, aceitarem que a economia envolve relações sociais de poder, que  a economia é também  uma estratégia de luta pelo poder do estado, que pode estar mais voltado  para o “pessoal da cobertura”, mas também pode ser inclinado na direção dos menos favorecidos pelas alturas. 
Agora bem, na conjuntura atual, como entender o encontro e a colaboração destes economistas liberais com os políticos golpistas? 

O francês, Pierre Rosanvallon, dá uma pista,[1] ao fazer uma anátomo-patologia lógica do liberalismo da “escola fisiocrática” francesa, liderada por François Quesnay.

Ela parte da proposta fisiocrático/liberal de redução radical da política à economia, e da transformação de todos os governos em máquinas puramente administrativas e despolitizadas, fiéis à ordem natural dos mercados.

E mostra como e porque este projeto de despolitização radical da economia e do estado leva à necessidade implacável  de um “tirano” ou “déspota esclarecido” que entenda a natureza nefasta da política e do estado, se mantenha “neutro”, e promova  a supressão despótica da política, criando as condições indispensáveis para a realização da “grande utopia liberal”, dos mercados livres e desregulados. Foi o que Rosanvallon chamou de “paradoxo fisiocrata”, ou seja: a defesa da necessidade de um “tirano liberal” que “adormecesse”  as paixões e os interesses políticos e, se possível,  os eliminasse.

 No século XX, a experiência mais conhecida deste projeto ultraliberal, foi a  da ditadura do Sr. Augusto Pinochet, no Chile, que foi chamada pelo economista americano, Paul Samuelson, de “fascismo de mercado”. Pinochet foi –  por excelência – a figura do “tirano” sonhado pelos fisiocratas: um troglodita absolutamente primitivo e ignorante, dedicou-se quase inteiramente à eliminação dos seus adversários e de toda a atividade política dissidente, e entregou o governo de fato  a um grupo de economistas ultraliberais que puderam fazer o que quiseram durante quase duas décadas.

No Brasil não faltam –  neste momento – os candidatos com as mesmas características e os economistas sempre rápidos em propor, e  dispostos a levar até as últimas consequências, o seu projeto de “redução radical do Estado” e, se for possível, de toda atividade política capaz de perturbar a tranquilidade dos seus modelos matemáticos e dos seus cálculos contábeis.

Neste sentido, não está errado dizer que os dois lados deste mesmo projeto são cúmplices e compartem a mesma e gigantesca insensatez, ao supor que seu projeto golpista e ultraliberal não encontrará resistência  e, no limite, não provocará uma rebelião ou enfrentamento civil, de grandes proporções, como nunca houve antes no Brasil. Porque não é necessário dizer que tanto os líderes golpistas, quanto seus economistas de plantão, olham para o mundo como se ele fosse uma “enorme cobertura”,  segundo a tipologia do Sr. Luiz  Schymura (epígrafe), um raro economista liberal que entende e aceita  a  natureza contraditória dos mercados e do capitalismo, e a origem democrática do atual déficit público brasileiro.

Setembro de 2015

 

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