Brasil. Moro em Nova York

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Juiz defendeu a sua conduta nos julgamentos da Lava Jato

  Silas Martí

Num debate em Nova York, o juiz Sergio Moro defendeu o fim do foro especial, dizendo que ele deve ser mantido só para o presidente, alertou para retrocessos no combate à corrupção que podem ocorrer nos próximos meses, em alusão às eleições, e defendeu a sua conduta nos julgamentos da Lava Jato.

O juiz Sergio Moro, durante conferência na Americas Society Council of the Americas, em Nova York

Sem tocar no nome do ex-presidente Lula, que condenou em janeiro no caso do tríplex, Moro disse ainda que “as pessoas têm ilusões sobre alguns ídolos, mas é hora de verem a verdade”.

“Se você for ao processo, vai ver que ninguém está sendo investigado ou julgado por causa de sua opinião política, mas por causa de lavagem de dinheiro, propina, atos criminosos.”

Depois de sua fala, Moro não quis esclarecer se seu comentário sobre ídolos se referia a Lula nem comentar declarações do ex-presidente em entrevista nesta semana à Folha, quando disse que o juiz deveria ser exonerado. “Não respondo a entrevistas de gente processada”, disse.

Sem mencionar Lula, o juiz também disse ser “fundamental” a regra que determina o cumprimento da pena logo depois de uma condenação em segunda instância, dizendo que uma reversão desse mecanismo seria “trágica”. 

Em seu discurso, Moro falou ainda sobre um “novo espírito” de combate à corrupção que toma os tribunais brasileiros no rastro da Lava Jato, que comparou com a Operação Mãos Limpas, na Itália, e ao julgamento do escândalo Watergate nos EUA. 

“O povo não está insatisfeito com a democracia, está insatisfeito com os problemas da democracia”, ele afirmou. 

“E um desses problemas é a corrupção generalizada e a impunidade. As pessoas começam a perder a confiança no estado de direito, nos políticos, nos juízes e nos procuradores, então começam a perder a confiança na democracia. Por isso precisamos continuar o nosso trabalho.”

Os momentos de Moro

PROTESTOS

Na porta da Americas Society, o think-tank em Manhattan que organizou o evento sobre corrupção na América Latina, um grupo de manifestantes enfrentou uma tempestade de chuva e neve para protestar contra o juiz.

Em inglês, eles gritavam que Moro “vende sentenças” e listavam benefícios de seu cargo no Brasil,  como o auxílio-moradia. Um cartaz com um retrato de Lula dizia que o ex-presidente é inocente e outro afirmava que a decisão dele no caso do tríplex “envergonhou o Brasil” —Moro entrou por ali, mas chegou antes do começo do protesto. 

Do lado de dentro, um cartaz reproduzia a capa da revista “Americas Quarterly” em que o juiz aparece vestido como soldado, metralhadora em punho e uma bandeira do Brasil no peito, debaixo de uma manchete que o chama de “caçador da corrupção”.

Questionado durante o debate se no Brasil há uma onda de “criminalização da política” e se a Justiça é seletiva, Moro disse que “não há problemas entre políticos e juízes” e que “alguns políticos estão criminalizando a política porque cometeram crimes e devem ser julgados”.

Ele afirmou, no entanto, que concorda com a ideia de que há privilégios para políticos no país e criticou o foro especial. “Talvez isso deveria ser mudado. Seria uma ideia inteligente e talvez manter isso para só o presidente, mas não tenho muita certeza.”

“Estamos falando de poder, de política”, disse. “As pessoas lutam por poder e algumas não querem mudar, querem ficar no poder, querem privilégios mesmo que esses privilégios violem a lei.”

Moro também defendeu “reformas gerais” para combater a corrupção e que uma investigação judicial não é o suficiente para limpar o cenário, mas que isso depende de “um governo amigável”.

MEA CULPA

Falando na sequência, Rodrigo Janot, o ex-procurador-geral da República que fechou o polêmico acordo de delação premiada com a JBS, disse que “houve erros e acertos” em suas investigações.

O maior erro, na visão de Janot, foi não ter sabido explicar os benefícios concedidos aos irmãos Batista à imprensa e à opinião pública.

“Esse fato nos gerou muito problema e não soubemos esclarecer porque concedemos a impunidade”, disse. “Se eu tivesse que fazer tudo de novo seria tratar de maneira mais profissional a divulgação dos dados à imprensa.”

Janot também defendeu o fim do foro especial, mecanismo que chamou de “sistema idealizado para não funcionar”. “Temos de falar a verdade, isso tem de ser revisto. A prerrogativa de foro leva à impunidade mesmo.”

Fotoarte: “Espelho, espelho meu…”

 

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