Brasil. Minha Macondo de cada um

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A Macondo de cada um

A primeira vez que leu “Cem Anos de Solidão”, do escritor colombiano Gabriel García Márquez (6 de março de 1927- 17 de abril 2014), a professora Rita Niffinegger e Silva, 53, tinha 18 anos e foi seduzida pelas cartas de tarô presentes na capa. Ao começar a ler, os sentimentos foram conflitantes: ficou completamente absorta, ao mesmo tempo que não entendia nada. “Quando cheguei à última linha, parei e pensei ‘o quê?!’. Voltei para a primeira página e comecei a ler outra vez”, lembra.

Desde então, foram dezenas de retornos à história dos Buendía – em geral, de dois em dois anos. Antes de perder as contas, registrou 15. O número de exemplares que já teve, nem se fala. A cada leitura, foco e identificação em diferentes personagens. É o livro que levaria para uma ilha deserta e que deseja que coloquem em seu caixão: “vai que dá pra ler mais uma vez”. Conhece a obra tão bem de cabo a rabo, que mesmo com um espanhol bastante limitado, conseguiu ler e entender também na língua original. “A certa altura da vida, fui apresentada a um homem que, a princípio, achei muito chato. Mas quando ele disse que sua leitura favorita era ‘Cem Anos de Solidão’, a má impressão se desfez completamente e acabamos vivendo um romance durante um tempo”, conta.

Histórias como o a dela não são raras. Frequentemente se ouve “é o livro da minha vida” e há quem tenha mudado drasticamente os rumos da própria trajetória após entrar no universo da fantástica Macondo – “um povoado de 20 casas de barro e taquaras, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos” – onde se passa a saga de sete gerações da família Buendía. E mesmo quem não tem reações tão entusiasmadas não passa incólume à leitura. Foram mais de 50 milhões de exemplares vendidos e traduções para mais de 35 idiomas. No próximo dia 20, o lançamento de “Cem Anos de Solidão” completa 50 anos e, para celebrar, o Pampulha conta histórias de pessoas que – tal qual Rita – mantêm relações de profunda paixão com a obra.

O jornalista e escritor Alberto Villas, 66, ainda queria ser médico quando leu o livro pela primeira vez. “Eu tinha 17 anos na época, num mundo muito diferente desse nosso de hoje. Quando ‘Cem Anos’ chegou às livrarias de Belo Horizonte, já se falava muito do livro, desse escritor colombiano cheio de histórias fantásticas. Lembro-me bem que comprei a primeira edição, que acabou indo embora junto com o meu primeiro casamento”, rememora. “Comecei a ler e a me apaixonar pela literatura dele, suas histórias cheias de personagens únicos de um mundo muito particular. Desacelerei a leitura porque não queria chegar ao final, de tão bom que era. Ainda bem que depois vieram muitos outros, todos espetaculares”.

O contato com a escrita de García Márquez foi algo tão fascinante que o fez ter vontade de escrever. Dois anos depois, ganhou um concurso de contos do governo do Estado do Paraná, o que o animou a ser jornalista e escritor e abandonar de vez a ideia de ser médico. “Hoje, curiosamente, morro de inveja do meu amigo Drauzio Varella, que é médico e escritor”, confessa.

O deslumbre com as histórias de Macondo foi tão grande que o olhar para sua própria cidade acabou perdendo a cor. “Quando saia às ruas de Belo Horizonte, ficava decepcionado ao ver casarões saírem pra dar lugar aos primeiros prédios da cidade, um ar de modernidade que me assustava”, diz. Esse sentimento o fez procurar um lugar onde pudesse construir sua própria cidade mágica. Acabou encontrando em São Sebastião do Soberbo, vilarejo de cerca de 300 habitantes no interior de Minas por onde passava a caminho da fazenda em que passava férias com a família. “Ali tinha personagens que eu buscava para minha literatura imaginária. Como o Paulo, um primo longe que, aos 9 anos, só bebia leite com banana e nada mais. Ele nunca saiu da minha cabeça como personagem de uma Macondo particular”, diz.

Nos anos 1970, Villas cogitou se mudar pra lá, levando somente sua máquina de escrever Remington portátil e algumas folhas em branco. Mas o sonho acabou nunca se realizando. Ao pegar o livro para reler pela quinta vez este ano, em comemoração ao cinquentenário de lançamento, acabou lembrando do plano e procurou por Soberbo no Google, descobrindo em seguida que o povoado foi submerso para a construção de uma hidrelétrica. Mesmo morando em São Paulo, não desistiu da ideia. “Meu sonho é escrever sobre o meu primeiro meio século de vida, de 1950 a 2000, ano por ano. Tenho anotações diárias desde primeiro de janeiro de 1975 e sei que vai ser um livro interessante, cheio de histórias e personagens maravilhosos”, garante.

Na própria vida

As intrincadas ramificações da árvore genealógica dos Buendía, que confundem muita gente, foram justamente o que “pegou” a decoradora de eventos e criadora do projeto Fale Certo Odette Castro, 60, pelas semelhanças com a sua própria família, já na primeira leitura, aos 16 anos. “Meus avós eram primos assim como José Arcádio e Úrsula (casal embrião da família Buendía), e a confusão nas relações desencadeadas por eles é tão grande quanto. Minha mãe ficou órfã aos 7 anos, foi criada pelos meus bisavós. Meu avô ficou viúvo e se casou com outra prima, teve mais cinco filhos e nossa linhagem é cheia de histórias repetitivas como as do livro. O que as pessoas acham confuso é, pra mim, uma forma de identificação”, comenta.

Nas diversas personagens, Odette encontra múltiplas metáforas para a própria vida. Uma das mais fortes tem a ver com a colcha que Amaranta, filha do casal, tece durante o dia e desfaz à noite, de modo a nunca terminá-la. “Eu teço colchas sem parar, literalmente. Tudo eu elaboro no tricô. Quando minha filha passou 27 dias no CTI, passei o tempo todo elaborando a vida ou a morte dela tecendo uma colcha”, explica. Para além da associação literal, há também o sentido figurado. O tecer, ela acredita, são os propósitos da vida, os ideais que se persegue. “Essa parte eu só entendi agora, aos 60 anos, e com essa crise no país, a falta de emprego, pela primeira vez estou com medo de os meus pontos de tricô, ou seja, minhas possibilidades de me manter no mercado de trabalho, de dar conta da minha própria vida, acabarem. Será que vou ter pontos suficientes para viver os anos que me restam?”, questiona.

Obra-prima de multiplicidades

Nas várias tramas paralelas que se desenrolam ao longo de “Cem Anos de Solidão”, a decoradora de eventos Odette Castro, 60, consegue fazer diferentes análises filosóficas e associações com a própria vida, mesmo não tendo realizado nenhum tipo de estudo acadêmico da obra. Uma delas tem a ver com a passagem em que José Arcádio enlouquece e é amarrado numa árvore. Quando finalmente o libertam, ele não sai mais de lá. “Eu associo isso muito à culpa católica, que é uma coisa que nos colocaram e aos poucos até a própria Igreja vem amenizando, mas segue muito amarrada na gente, pelo menos em mim, está muito enraizada”, analisa.

As várias camadas de interpretação são um dos aspectos que conferiram o estrondoso sucesso à obra do autor, que foi o terceiro latino-americano a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, em 1982. A professora do departamento de literatura hispano-americana da UFMG Graciela Ravetti enumera outras características. “Ele apresentou uma mudança muito grande no estatuto da literatura hispano-americana no sentido de que, na época, foi revolucionário quanto a forma, conteúdo, tratamento da imagem. A bibliografia sobre ele é imensa e muitos estudos analisam como, inclusive, a linguagem bíblica está ali, uma mistura de elementos folclóricos, históricos e míticos”, explica.

A professora observa, porém, que houve um momento de furor e que hoje o livro já não tem necessariamente esse fator “best-seller”, mas mantém sua relevância mesmo na contemporaneidade e pode, inclusive, ser considerado a obra-prima de García Márquez. “Digamos que ele era um escritor perfeito, mas a identificação do público depende do estado da cultura e do momento do público. Isso muda com o tempo, acontece em ondas”.

Visceral 

Quando Gabriel García Márquez morreu, em 2014, a estudante Maria Eugênia Oliveira, 24, estava viajando, sem acesso a televisão e internet. Seu melhor amigo, sabendo da situação, ligou pra ela e disse: “Tenho que te contar uma coisa muito triste. Gabo morreu e fiz questão de te ligar porque não queria que soubesse de outra forma, sei o quanto ele é importante pra você”.

“Ele fez isso porque sabe da relação visceral que tenho com toda a obra do autor, mas principalmente com esse livro”, conta a jovem, que tatuou a última frase da narrativa em sua coxa: “as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda chance sobre a terra”. “Escolhi essa frase e tatuei em espanhol porque acho que resume perfeitamente a mensagem do livro, que não é clara nem direta e pode ser diferente para muita gente, mas é uma síntese do sentimento de todos os personagens da história”.

A banda campinense Francisco El Hombre escolheu um personagem da trama como figura central de sua identidade. “Perto de 2011, comecei a viajar tocando violão e passando o chapéu. Foi numa ida ao México, lendo ‘Cem Anos de Solidão’ na estrada, que me deparei no livro com uma figura que até então não conhecia. Francisco El Hombre, músico viajante, que cantava sobre aquilo que ia aprendendo no seu caminho, tocando em praças, pessoas se aproximando para ouvir”, conta o baterista e vocalista mexicano Sebastián Piracés-Ugarte. E a influência não fica só no nome. “Está na nossa sonoridade como está na nossa vida no pensar sobre o tempo, sobre a vida, sobre o valor de cada momento”.

Tatuagem marca fascínio

Ainda que tenha se visto às voltas do livro desde criança, na biblioteca do avô, o professor Neldo Menezes Neto, 29, só o leu pela primeira vez já adulto, em 2010. O interesse pelo livro coincidiu com a internação da avó, que estava muito doente. Como era ele quem tinha a maior disponibilidade, a acompanhava no hospital a maior parte do tempo e passaram a ler juntos. “Uma das coisas que mais nos impactou tem a ver com a passagem do tempo. Quando José Arcádio começa a enlouquecer, passa a achar que todo dia é uma segunda-feira. Para nós, que estávamos vivendo no hospital, foi muito impactante, afinal, pra quem fica internado é mais ou menos desse jeito, todo dia é segunda-feira”, conta.

Por ironia do destino, a avó de Neldo faleceu quando eles estavam na penúltima página do livro. Diante do choque, ele precisou de 20 dias para retomar a leitura e finalizá-la. Para marcar aquele período, ele decidiu tatuar ilustrações que o argentino radicado no Brasil Carybé (1911-1997), que também ilustrou obras de Jorge Amado, fez para uma das edições de “Cem Anos de Solidão”. Revisita a obra pelo menos uma vez por ano e mantém quatro cópias: uma na sua casa, em Salvador, outra na casa da mãe, a versão do seu avô, de 1975, e uma que sempre o acompanha na mochila. “Não é loucura nem obsessão, mas é que às vezes eu penso em adaptá-la para o teatro, fazer alguma coisa relevante dessa fascinação pela obra”, diz.

A concepção de um clássico mundial

História “Cem Anos de Solidão” conta a trajetória da família formada por José Arcádio Buendía e Úrsula Iguarán e suas vivências no distante e isolado povoado de Macondo. Ao longo da narrativa, seis gerações da família protagonizam uma sucessão de episódios de guerra, paixão, trabalho e, principalmente, casos fantásticos que parecem tirados de escrituras sagradas, como uma espécie de Bíblia alternativa.

Ideia O livro foi concebido durante a ditadura colombiana e foi influenciado pelo período chamado La Violencia, guerra civil que ocorreu no país entre 1948 e 1958. O autor transportou para Macondo as atrocidades e arbitrariedades daquele momento e da época em que foi efetivamente escrito – 1965/66, quando a Colômbia e outros países latino-americanos enfrentavam ditaduras, inclusive o Brasil. Dois momentos históricos abundantes de acontecimentos que deveriam deixar cidadãos incrédulos, mas em geral eles tocam a vida como se tudo fosse cotidiano, o que se repete em Macondo.

Realização Os primeiros rabiscos do livro foram dados em tiras de papel jornal, quando García Márquez ainda vivia em Cartagena das Índias. Por 17 anos, o projeto passou por diferentes versões, sempre com o título “La Casa”, mas faltava, como disse o escritor e um dos tradutores da obra no Brasil Eric Nepomuceno, no prefácio de uma das edições, “a estrutura correta, a atmosfera necessária, e principalmente o tom convincente da narração, aquele mesmo tom com que sua avó materna contava histórias inacreditáveis”.

Insight Tudo isso veio de uma vez na lendária história que conta que ele mal tinha saído em seu Opel branco da Cidade do México (onde morava, depois de passar por países como Cuba e Estados Unidos) e manobrou bruscamente o carro para retornar à cidade, pois, num lampejo, o livro inteiro apareceu. Na verdade, ele não chegou a retornar. Passou o fim de semana com a família em Acapulco totalmente imerso em pensamentos sobre o livro e só ao fim da viagem começou a escrever.

Processo Depois de oscilar por um tempo com compromissos de trabalho que ainda tinha e a escrita, García Márquez acabou optando por se isolar do mundo e dedicar-se exclusivamente à tarefa. Juntou economias e entregou nas mãos da esposa Mercedes, que deveria administrá-las, e se recolheu num canto da sala de jantar, separado por uma divisória de madeira em cuja porta se lia: La Cueva de La Máfia. Durante 18 meses, todos os dias, das 9h às 15h, o escritor colombiano escreveu “Cem Anos de Solidão”. Ao longo do período – maior do que os seis meses previstos – precisaram penhorar diversos bens e acumularam longas dívidas de quitanda e padaria.

Origem Macondo é inspirada em Aracataca, povoado do interior da Colômbia, onde García Márquez nasceu. Houve, inclusive, em 2006, um referendo sugerido pelo governo local para rebatizar a comunidade, de 53.000 habitantes como Aracataca-Macondo. Mais de 90% dos votos registrados foram em favor da proposta. Porém, não foi atingido o número mínimo de votantes necessários: dos 22.000 eleitores do povoado, era necessário que 7.380 pessoas comparecessem às urnas, mas apenas 3.592 se deram ao trabalho.

Um brasileiro na ‘máfia’

Jornalista e escritor, Eric Nepomuceno foi um dos responsáveis pela tradução de “Cem Anos de Solidão” no Brasil – a outra foi a tradutora Eliane Zagury. Amigo do autor desde o fim dos anos 1970, também escreveu um perfil sobre García Márquez que abre a edição que traduziu, mas não entrega mais da intimidade que partilhavam do que há no texto – e isso faz parte dos fundamentos da amizade. “Tivemos, e tenho, um pacto de aço: de coisas pessoais, falar o que falei. E que ele sabia que eu ia falar. O que tenho e tinha a dizer, está lá. Tenho até hoje, e se não aprendi com ele, foi com ele que encontrei a explicação, um sentido absolutamente mafioso da palavra ‘amizade’”, afirma.

É esse mesmo sentido que o proíbe de contar as várias histórias ouvidas sobre a obra que conta a história dos Buendía. “Algum dia talvez me atreva a romper as leis da nossa máfia. Por enquanto, não”, diz.

Quanto à universalidade da obra, ele diz que se soubesse quais as características da escrita e da personalidade do autor para criar semelhante obra, trataria de assimilá-las e escrever um livro tão definitivo e decisivo como esse. “Perdoe, mas sou péssimo para esse tipo de análise. O que posso dizer a você é que, volta e meia, e nessa temporada mais volta que meia, me perguntam se esse livro ajuda a entender a América Latina. E respondo que sim, que sim e muito. Mas também nos ajuda a entender a vida, a maravilha e a miséria do ser humano”, diz.

O processo de tradução, ele explica, foi perpassado por sua relação com Gabo. “Não sou tradutor profissional. Sou um escritor que traduziu e traduz os amigos e alguns autores que, por razões variadas, me intrigam. Não aceito encomendas, pedidos, nada disso. Traduzo o que quero. Traduzir amigos tem uma dificuldade que supera todas, todas as eventuais barreiras técnicas: a questão afetiva. Poder ligar e dizer ‘pronto, acabei!’. Quando terminei minha tradução de ‘Cem Anos de Solidão’, coincidiu de pouco depois eu ir ao México e almoçar com ele, com Mercedes (sua esposa), com seu irmão Jaime, com sua cunhada Margarita e sua prima também Margarita. E ele me perguntou como é que eu tinha, se é que tinha, encontrado o tom”, lembra. “O tom. Para ele, o principal era o tom. E eu respondi com uma verdade: ‘lembrando de você, ali na copa, ao lado da cozinha, sentado naquela mesa redonda e me contando coisas’. Foi assim com esse e com todos os outros livros dele que traduzi”.

 

PS do colaborador:

Fotoarte: Ilustração do Carybé (1911-1997) para uma das edições nacionais de “Cem Anos de Solidão”

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https://www.otempo.com.br/pampulha/a-macondo-de-cada-um-1.1478915

 

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