Brasil: “Mais respeito com Bolívar e com Chávez, por favor!”

 

Uma pretensa inclinação bolivariana do PT vem sendo, há bom tempo, o principal espantalho que a direita golpista utiliza em suas tentativas de recriar o clima de 1964.

Então, quando o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, bate de novo nesta desafinada tecla, vem bem a calhar a desmistificação da dita falácia por parte de Demétrio Magnoli (o qual, aliás, ostenta o pitoresco título de «doutor em geografia humana» -existirão também doutores em antropologia territorial?). A sua coluna deste sábado (8) na Folha de S. Paulo, ‘Bolivariano’, você disse?, pode ser acessada aqui.

Há quem considere inadmissível um homem de esquerda concordar em seja lá o que for com Magnoli, mas isto não passa de grotesquerie stalinista com ranço de fanatismo religioso medieval. Lembrando um velho chavão, até um relógio quebrado (daqueles antigos, com ponteiros) marca a hora certa duas vezes ao dia. Eu julgo quaisquer argumentos por seu valor intrínseco, ponto final.

De quebra, Magnoli desfaz outra empulhação, a de que o PT atual tenha conservado um mínimo que seja do revolucionarismo presente no seu DNA de 1979. Nem a pau, Juvenal…

Eis os oportunos esclarecimentos de Magnoli:

«A revolução ‘bolivariana’ definiu como meta política a unificação da América Latina contra os EUA e, como meta econômica, a implantação de um sistema estatista.

O lulopetismo não compartilha tais metas. Na economia, procura modernizar o capitalismo de estado varguista. Na política, almeja apenas uma perene hegemonia. O regime chavista é revolucionário; o lulopetismo é populista e conservador…

Há uma diferença crucial de origem. O movimento ‘bolivariano’ é fruto da ruptura: nasceu do colapso da democracia oligárquica venezuelana, no ‘caracazzo’, o levante popular de 1989, e consolidou-se após o frustrado golpe antichavista de 2002.

O lulopetismo, pelo contrário, é fruto da continuidade: surgiu com a redemocratização e conquistou o Palácio na moldura da estabilização da democracia. O chavismo substituiu a desmoralizada elite política venezuelana; o lulopetismo integrou-se às elites políticas tradicionais, até converter-se no fiador principal de seus negócios e interesses.

Palavras servem para iludir. Os ataques ‘bolivarianos’ da campanha de Dilma contra Aécio funcionaram como toque de reunir para os movimentos sociais, o PSOL e os intelectuais de esquerda. Confrontado com o risco de derrota, o lulopetismo precisava recuperar uma franja periférica do eleitorado que se dispersava.

Concluída a disputa, o governo realiza o giro ortodoxo, abandonando a ‘nova matriz econômica’.

O estelionato, anunciado pela elevação dos juros, tem roteiro conhecido: recomposição de preços de combustíveis, choque de tarifas de energia, ajuste fiscal. Os chavistas vestem-se de vermelho o tempo todo; Lula e Dilma trocam o vermelho pelo branco assim que as urnas se fecham».

Nada a objetar. Magnoli está certíssimo ao concluir que «a Venezuela não é aqui» e que inexiste risco de o STF se transformar numa corte bolivariana, «pois não será posto a serviço de um projeto político revolucionário».

E, para esquerdistas que não abdicaram do espírito crítico, ele não conta nenhuma novidade ao constatar que o PT só retira a retórica antiga do arquivo morto em períodos eleitorais, logo remetendo-a de volta para o esquecimento.

 

Do blog Náufrago da Utopia

 

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