Publicado en: 21 octubre, 2015

Brasil: Luis Nassif decifra o enigma da Operação Lava-Jato

Por Luis Nassif

Na Lava Jato e no jogo político brasileiro há certa dificuldade em situar os personagens e seus respectivos papéis políticos.

Quem é quem na Operação Lava-Jato

Na Lava Jato e no jogo político brasileiro há certa dificuldade em situar os personagens e seus respectivos papéis políticos. É o que leva a essa visão de qualificar as informações da Suíça sobre Eduardo Cunha como sendo derrota do juiz Sérgio Moro e da Lava Jato.

A análise dos escritos de Sérgio Moro sobre a Operação Mãos Limpas mostra claramente um estrategista brilhante orientando os trabalhos.

Mais que uma estratégia jurídica, é uma estratégia militar, na qual não faltam protocolos de procedimento contra “inimigos” internos e externos. Delegados da Polícia Federal que ousaram apontar irregularidades na escuta colocada na cela do doleiro Alberto Yousseff, foram alvos de pesadas tentativas de assassinato de reputação, conduzidas tanto por delegados quanto por procuradores da Lava Jato.

Então, esqueça-se a história de que a operação é conduzida pelas descobertas levantadas de forma isenta nas delações. Dentro da estratégia desenhada, a Lava Jato define, antes, o que pode e o que deve ser descoberto, quem é do “nosso time”, quem é o time adversário.

Eduardo Cunha, assim como Renan Calheiros, nunca frequentaram o time dos aliados da Lava Jato. Pelo contrário, ambos estavam na mira da Lava Jato desde o início, como base de apoio do governo e como beneficiários do esquema Petrobras.

Com o tempo, houve o rompimento de Cunha com Dilma e ele se tornou peça do jogo do impeachment. Mas, aí, o inquérito não estava mais com Moro e a Lava Jato, devido às prerrogativas de foro da Cunha. As informações apuradas pela justiça suíça são decorrência das providências tomadas pelo Ministério Público Federal assim que o STF aceitou a denúncia.

O mesmo teria ocorrido com Aécio Neves, caso o PGR tivesse encaminhado ao STF a recomendação de abertura de inquérito.

O “nosso time” da Lava Jato consiste no PGR, em Moro, no grupo de trabalho, associados aos grupos de mídia e ao PSDB. A Satiagraha foi anulada por ter investido contra grupos aliados da mídia. Então, há que se pensar em novas estratégias.

Se por estratégia política ou por convicção partidária, pouco importa.

Na fase inicial, provavelmente por descuido da Lava Jato, escaparam da delação de Alberto Yousseff informações sobre o senador Aécio Neves. Janot corrigiu a tempo, recomendando ao STF (Supremo Tribunal Federal) a não aceitação da denúncia por não se referir à Petrobras. Depois disso, a tropa foi devidamente alinhada, para não incluir nas delações nenhuma pergunta sobre governos tucanos.

A constante dos dois casos é o poder da mídia de pautar o Judiciário. E não o oposto: o poder da Lava Jato de pautar a mídia.

Umberto Eco a a Mãos Limpas

Na semana passada escrevi alguns posts sobre as questões geopolíticas envolvidas na Lava Jato e nos acordos de cooperação internacional.

O livro “Número Zero”, de Umberto Eco, trata dos acordos entre Mãos Limpas, imprensa italiana e geopolítica internacional:

“Craxi teria até dito que Chiesa era só um pilantra, e o teria liberado, mas o que o leitor de 18 de fevereiro ainda não podia saber é que os magistrados continuariam investigando, e estava emergindo um verdadeiro mastim, o juiz Di Pietro, que agora todos sabem quem é, mas de quem ninguém tinha ouvido falar na época.

Di Pietro deu uma prensa em Chiesa, descobriu contas na Suíça e o fez confessar que não era um caso isolado, e aos poucos está pondo a nu uma rede de corrupção política que envolve todos os partidos, e as primeiras consequências foram sentidas exatamente nos dias recentes, os senhores viram que nas eleições a Democracia Cristã e o Partido Socialista perderam um monte de votos, e quem se fortaleceu foi a Liga, que, hostilizando os governos romanos, está tirando proveito do escândalo. Estão chovendo mandados de prisão, os partidos estão se desagregando aos poucos, e já há quem diga que, depois da queda do Muro de Berlim e do desmantelamento da União Soviética, os americanos já não precisam dos partidos que podiam manobrar e os deixaram nas mãos dos magistrados, ou talvez, poderíamos arriscar, os magistrados estão seguindo um roteiro escrito pelos serviços secretos americanos, mas por enquanto não vamos exagerar. Essa é a situação hoje, mas em 18 de fevereiro ninguém podia imaginar o que aconteceria. O Amanhã, porém, vai imaginar e fazer uma série de previsões. E esse artigo de hipóteses e insinuações eu confio ao senhor Lucidi, que precisará ser hábil para, dizendo é possível e talvez, contar de fato o que depois de fato aconteceria.

Com alguns nomes de políticos, bem distribuídos entre os vários partidos, ponha as esquerdas no meio também, dê a entender que o jornal está coletando outros documentos, e diga isso de um modo que faça morrer de medo até aqueles que lerem o nosso número 0/1 sabendo muito bem o que aconteceu nos dois meses depois de fevereiro, mas se perguntando o que poderia ser um número zero com a data de hoje…Entendido? Ao trabalho.

– Por que a mim a tarefa? — perguntou Lucidi.

Simei o olhou de um modo estranho, como se ele tivesse de entender o que nós não entendíamos:

– Porque algo me diz que o senhor é muito bom em coletar rumores e transmiti-los a quem de direito.


No Jornal GGN

Fotoarte: “Nassif e seu amigo inseparável”

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