Publicado en: 12 enero, 2019

Brasil. Já vai tarde, Gal. Villas Bôas. Fanfarrões [Vídeo]

Por Julia Lindner e Felipe Frazão

Ao deixar o cargo, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas fez um forte discurso político no qual disse que o presidente Jair Bolsonaro resgatou o Brasil das amarras ideológicas.

 

Ele será substituído por Edson Leal Pujol. A cerimônia de troca do comando acontece no Clube do Exército, em Brasília, com a presença do presidente Jair Bolsonaro.

Diante de Bolsonaro, Villas Bôas afirmou que o presidente “tirou o País da amarra ideológica que sequestrou o livre pensar” e “tirou o País do pensamento único e nefasto”. Ele também destacou que o Exército é “democrático, apartidário e integralmente dedicado à Nação”. Ao final, Villas Bôas foi aplaudido de pé e cumprimentado por Bolsonaro.

“O senhor traz a necessária renovação e a liberação das amarras ideológicas que sequestraram o livre pensar e nublaram o discernimento e induziram a um pensamento único e nefasto como assinala o jornalista americano Walter Lippmann: ‘Quando todos pensam da mesma maneira é porque ninguém está pensando'”, afirmou.

O comandante, que sofre de uma doença degenerativa e está em uma cadeira de rodas, fez apenas uma saudação com agradecimentos. Com dificuldade para falar, seu discurso de ordem do dia foi lido por um mestre de cerimônia.

(…)

O general Villas Bôas talvez não tenha tido tempo de ler a excelente biografia “Walter Lippmann and the American Century”, de Ronald Steel (An Atlantic Monthly Press Club – 1980).

Se tivesse, saberia que o magistral jornalista Lippmann tinha uma mácula – um certo menosprezo pelos governos derivados da soberania popular…

Ninguém é perfeito, general…

Ou isso não é uma mácula?

No Estadão

(A propósito, não deixe de ouvir o podcast em que Umberto Eco prova que o Fascismo é eterno.)

PHA

Já vai tarde, Gal. Villas Bôas

São os mesmos de 1964

 

O Golpista fardado (E) e outro em trajes civis (antes de vestir a farda da Papuda). Foto: Marcos Corrêa/PR

O Conversa Afiada publica artigo de Joaquim Xavier:

O comandante do Exército Eduardo Villas Boas costuma ser incensado pela grande mídia e até por gente dita esclarecida como prova do “bom senso” das Forças Armadas. A seu favor, pesava o lado humano. Vítima de uma doença degenerativa incurável, sempre granjeou complacência e simpatia. Sob este aspecto, não há como deixar de lado tal sentimento e solidariedade –desde que você não seja um Bolsonaro ou Brilhante Ustra.

No restante, estamos todos diante de um embuste.

Num curto espaço de tempo, Villas Boas demonstrou que militares de alto escalão no Brasil continuam a ser o mesmo desde 1964: viúvas enrustidas da ditadura, das torturas, do ataque a qualquer ameaça de oposição aos interesses do grande capital.

Villas Boas sempre foi adversário da apuração isenta dos crimes dos militares contra o povo brasileiro. Opôs-se até à Comissão da Verdade, que de verdadeiro quando muito teve apenas o nome. Pregou a anistia antecipada à soldadesca que fuzilasse inocentes na intervenção do Rio. Mais tarde, ameaçou os civis e o supreminho caso admitissem que Lula foi vítima de uma armação judissiária condenada mundialmente. O próprio general reconheceu a chantagem em entrevista recente.

Agora resolveu ir mais longe.

Villas Boas prega a apuração de fatos relativos à… intentona de 1935! O objetivo: afastar o perigo do “comunismo” 83 anos depois do ocorrido e 29 anos depois da queda do muro de Berlim. Nenhuma palavra sobre a apuração dos crimes da ditadura militar de 1964. Sobre esta, dele só se ouvem palavras de esquecimento piedoso sobre o passado quando se trata de punir os gorilas da época.

Entre os fatos, o que mais irrita é a ignorância deliberada deste oficialato. A tal intentona nada teve a ver de real luta pelo comunismo. Fez parte de uma operação internacional stalinista – antítese do comunismo! — para dar pretexto aos inimigos de uma transformação verdadeira.

Seguiu, por exemplo, a mesma orientação internacional dada aos militantes do partido comunista da China ao ordenar a criação dos soviets de Cantão, igualmente esmagados por falta de condições objetivas e apoio popular. Com todo o respeito aos mortos nas esparrelas, num e noutro caso todos percebiam ser ações destinadas ao fracasso, mas levadas adiante por uma burocracia financiada pelo ouro de Moscou e Washington em nome da “coexistência pacífica”.

No Brasil, os revolucionários sinceros anteviam que o movimento de 1935 não tinha nenhuma chance de sucesso em face da desproporção de forças. Mas deu argumento para que a reação instaurasse a ditadura de 1937. Para comemoração de Stálin e seus apaniguados, sob a bênção de Getúlio Vargas –o mesmo que entregou Olga Benário Prestes grávida aos algozes do nazismo.

Pergunta: por que Villas Boas não decide investigar a “revolução de 1932”, movimento reacionário organizado pela Casa Grande paulista? Ou a infame guerra do Paraguai? Ou o movimento de Canudos? Ou mesmo a comuna de Paris, de 1870? E então punir, ainda que “in memorian”, quem deveria ser responsabilizado?

Erra quem pensar que os recados de Villas Boas se devem a excesso de remédios. A coisa é mais grave. Com o endosso do general, o Brasil se encaminha celeremente para uma ditadura militar supostamente “democrática”. Contem-se o número de generais indicados recentemente para postos-chaves em Brasília e nos Estados. Quem não vislumbrou que o Brasil será presidido a partir de 20 de janeiro por um general abertamente reacionário, de escassa extração intelectual e rejeitado pelo próprio Exército a que servia?

Quem não percebe que sofra as consequências. Mas qualquer democrata verdadeiro não pode se calar e deixar de agir diante de realidade tão gritante.

Fanfarrões [Vídeo

Esse Governo não governa

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