Brasil. Henrique Meirelles à sombra de Temer?

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Após festejar o crescimento de 1% do PIB em 2017 e talvez animado com a última rodada de pesquisas do Datafolha, na qual figura com 1% das intenções de voto, Henrique Meirelles decidiu deixar o comando do Ministério da Fazenda para tentar viabilizar a sua candidatura ao Palácio do Planalto.

Desde a sexta-feira, 23, após um encontro com Michel Temer, os rumores ganharam substância. Ao longo da semana, ainda tentou despistar. Disse que daria a palavra final até a próxima terça-feira 3 de abril.

O jogo de cena não colou. Além de o ministro ensaiar discurso de candidato em convescotes com empresários, o MDB confirmou, pelas redes sociais, que Temer e o senador Romero Jucá assinarão a filiação de Meirelles ao partido nessa mesma data.

Há tempos o candidato do 1% demonstra a intenção de concorrer à Presidência da República. Em dezembro passado, usou o tempo de propaganda partidária reservada ao PSD, sua atual sigla, para apresentar-se à população.

“Meu nome é Henrique Meirelles e, no meio dessa briga política que vivemos, quero pedir licença para falar do futuro da nossa economia”, disse, pouco antes de revelar inesperada vocação para o humor. “Estamos reencontrando o caminho da prosperidade… O rumo está correto e não podemos desviar do trilho.”

Apesar do suspiro após dois anos de recessão (a economia encolheu 7,4% em 2015 e 2016), o assalariado está longe de sentir a prosperidade anunciada por Meirelles. Ainda há no País 12 milhões de desocupados. A taxa de desemprego encerrou o último trimestre de 2017 em 11,8%, tímida queda sobre igual período do ano anterior (12%), segundo a Pnad Contínua, pesquisa oficial do mercado de trabalho do IBGE.

O avanço da informalidade impediu um vexame maior. Mesmo após a aprovação da reforma trabalhista, os empregos formais estão em queda. Pela primeira vez na história do levantamento, a soma dos trabalhadores sem carteira (11,1 milhões) e por conta própria (23,1 milhões) superam em quase 1 milhão o contingente com carteira assinada (33,3 milhões). Com os salários achatados, as vendas do comércio seguem abaixo da expectativa.

O ministro não se deixa abalar. Durante um evento com lideranças empresariais em Porto Alegre, na segunda-feira 26, prometeu que a economia vai crescer acima de 3% nos próximos anos. “Vamos deixar de ter um crescimento de voo de pato para ser de águia”, bravateou, no talk show promovido pela FederaSul.

Quando os organizadores anunciaram que a Oitava Turma do TRF da 4ª Região rejeitou os embargos de declaração apresentados pela defesa de Lula no caso do triplex, a plateia celebrou. Sem o ex-presidente na disputa, Meirelles dobra as intenções de voto no Datafolha: de 1% para 2%. Que feito!

Além do ativo mixuruca de Meirelles, o ministro terá ainda a inglória tarefa de fazer a defesa do legado de Temer, acossado por numerosos escândalos de corrupção. Flagrado em comprometedores diálogos com o empresário Joesley Batista, dono da JBS, o presidente ilegítimo foi duas vezes denunciado pela Procuradoria-Geral da República por corrupção passiva, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

Os processos só não foram adiante porque o Congresso decidiu arquivá-los, após o governo liberar mais de 6 bilhões de reais em emendas parlamentares. Além disso, Temer é investigado pela Polícia Federal pelo suposto recebimento de propina para favorecer empresas no decreto do setor portuário e em contratos no Porto de Santos. A partir de 1º de janeiro de 2019, o peemedebista corre o risco de perder direito ao foro privilegiado e busca desesperadamente um aliado no Planalto para protegê-lo.

Na verdade, Temer tenta a todo custo atrair Alckmin para alguma aliança, mas o tucano não quer o peemedebista, aprovado por míseros 6% dos brasileiros, segundo o Datafolha, por perto na campanha. Diante da recusa, o governo federal fechou os cofres para o estado de São Paulo, e só mantém uma fresta aberta para o prefeito paulistano João Doria, que não vê problema algum em uma aliança com o partido que detém o maior tempo no horário eleitoral gratuito.

É devido ao impasse que, pela primeira vez desde as eleições de 1989, com Ulysses Guimarães na disputa, que o MDB se dispõe a lançar um cabeça de chapa na corrida presidencial. Ou, ao menos, ameaça fazê-lo.

Como o PSD decidiu sair com Alckmin e lhe negou a possibilidade de candidatura, Meirelles ruma para o MDB. Não estão claras as promessas feitas ao ministro, mas ele corre o risco de ver os planos frustrados. Após a cartada da intervenção federal no Rio de Janeiro, até o momento bastante popular, Temer ainda sonha em se lançar candidato. Em recados passados à mídia, seus auxiliares dizem que o mandatário tenta convencer o ministro da Fazenda a se contentar com o posto de vice – o que, até ontem, era uma proposta descartada por Meirelles.

A migração do economista para o MDB aprofunda a divisão na base do governo. Pré-candidato pelo DEM, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, fez o que pôde para minar a candidatura de Meirelles. No início do ano, quando a reforma da Previdência estava pronta para ser analisada pelo plenário da Casa, foi um dos primeiros a apontar a falta de apoio parlamentar à proposta do governo.

Vários de seus aliados passaram a criticar publicamente o ministro, acusado de dar mais atenção às pretensões eleitorais do que à agenda de reformas. Na terça-feira 27, o presidente do BNDES, Paulo Rabello de Castro, também entregou a sua carta de renúncia. Filiado ao PSC, ele também quer concorrer ao Planalto. Todos os candidatos da base governista, incluído o próprio Temer, não passam de 2% das intenções de voto, segundo o Datafolha.

Com a renúncia iminente de Meirelles, o mais cotado para assumir o Ministério da Fazenda é um indicado dele: o secretário-executivo Eduardo Guardia. Meirelles também pretende emplacar o secretário de Acompanhamento Fiscal, Mansueto Almeida, no Ministério do Planejamento. O atual titular da pasta, Dyogo Oliveira, poderá ser deslocado para o comando do BNDES.

Caso a sua candidatura não decole até junho, Meirelles cogita aceitar o posto de vice na chapa de Temer, segundo os relatos que povoam as colunas de jornais. Por hora, fia-se em uma série de pesquisas qualitativas encomendadas.

Espera-se que o chefe da equipe econômica de Temer seja mais criterioso ao analisar as suas chances do que ao fazer a leitura da “próspera” conjuntura econômica. Se confiar demais nas declarações de apoio dos empresários que costuma encontrar, pode acreditar que a vontade do PIB é suficiente para elegê-lo.

A respeito disso, vale recordar um curioso episódio protagonizado por Doria. Em 2006, durante palestra para líderes empresariais promovida pelo Lide, sua empresa de eventos, o tucano fez uma pesquisa eleitoral informal para averiguar quantos dos presentes votariam em Lula na disputa contra Alckmin. Diante da negativa da imensa maioria, questionou: “Como ele pode ser reeleito se o PIB não o quer?” O petista terminou com mais de 60% dos votos no segundo turno.

  

Na revista CartaCapital

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