Brasil. Governo Bolsonaro não é ponto fora da curva

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Conheço o vento
Pelo sopro donde vem;
E a cara do Calavera
Quando não vale um vintém.

Velho ditado pampiano, de aquém e além fronteira, citado pelo gaiteiro Elio Xavier, mais conhecido como “Porca Véia”, em “Coplas de um Viramundo”, de Gaspar Machado e Lenin Nunes.

Há uma ilusão recorrente que venho lendo seguidamente em comentários sobre as arbitrariedades, barbaridades etc., cometidas pelo cortejo insalubre que tomou de assalto, embora pelo voto, o governo federal brasileiro, incluindo aí as e os olavetes aloprados, a turma fardada e a togada, os Chicago Boys e a turma de espírito miliciano (para dizer o mínimo) que se assentou no Palácio do Planalto. Esta ilusão se consubstancia nas expressões que nunca se põem, repetindo-se diuturnamente: “em qualquer país civilizado…”, “num país decente…”, ou ate “em qualquer país do mundo…”

Está certo que com sua boçalidade, seu despreparo para a coisa pública, sua desfaçatez extrema ao anunciar medidas e dar declarações estapafúrdias, mesmo que desmentidas ou recuadas depois, o atual governo brasileiro tornou-se um ponto extremado de uma curvatura mundial, mas não um ponto fora desta curva.

Senão, vejamos. Em Israel, uma parcela ponderável do eleitorado optou descaradamente pela repressão total aos palestinos e uma parte também ponderável desta parcela simplesmente desprezou as acusações de fraude e corrupção que pesam sobre Benyamin Netanyahu. O seu caso ainda está em avaliação pela promotoria do país, mas parte dos eleitores simplesmente votaram contra as acusações e o possível processo. E mais uma vez se lixaram para a ONU, que não reconhece a anexação das colinas de Golan (pertencentes à Síria) e os assentamentos ilegais da Margem Ocidental.

Nos Estados Unidos, alguns analistas já anunciam que provavelmente Trump assegurou sua reeleição em 2020, ou pelo menos abriu caminho para ela, com o anúncio do apoio à anexação de Golan por Israel, lembrando que este anúncio corteja tanto o lobby mais reacionário de Israel quanto o eleitorado pentecostal que vê, neste país e em Jerusalém, o ponto nodal da recuperação do Paraíso Perdido quando este nosso mundo encontrar seu Waterloo cósmico. Bolsonaro e sua corte a Netanyahu simplesmente repetem a ladainha importada de Washington.

Na Europa, o decoro seguido é mais sóbrio. Mas o arreganho dos dentes pelas direitas e extremas-direitas não fica muito atrás. No começo desta semana Matteo Salvini, o homem forte no governo italiano, representando a Lega, ex-Lega Nord separatista, mas igualmente xenófoba e reacionária, fechou um acordo com outros partidos de extrema-direita, entre eles o AfD alemão para a construção de uma atuação e uma plataforma comum tendo em vista as eleições de maio para o Parlamento Europeu, seguindo abertamente ou não, implícita ou explicitamente a senda sugerida pelo estrategista do Brexit, de Trump e de Bolsonaro, Steve Bannon.

Mais ainda: no final do mês a reunião do XIII Congresso Mundial da Família, com representação de vários continentes, traçou estratégias de longo alcance para as direitas mundiais. Entre elas, novamente palmilhando trilhas abertas por Bannon, debateu propostas de alteração no campo educacional, em que o governo italiano vem se notabilizando. Por exemplo, diminuindo a carga de humanidades e aumentando a de atividades profissionalizantes. Tudo para evitar, entre outras coisas, que os jovens adentrem estes «antros marxistas” em que as universidades se viram transformadas.

 

 Qualquer semelhança com propostas hoje correntes no Brasil não é coincidência (inclusive a do líder do PSL na Câmara, acusado de portar arma no plenário, de que os jovens comecem a trabalhar aos 12 anos, jugando no lixo o ECA). Mas ao que parece Bannon quer mais: a criação, na Europa, de um novo centro de formação para a juventude, disputando espaço com o “marxismo cultural”, destinado a lançar no mercado político novas lideranças de direita em escala continental. Uma espécie de Instituto Millenium ou de Casas de Plínio Salgado para a criançada europeia…

Por aí se vê que, ao contrario do que apregoa outra ilusão brasileira, as investidas das e dos olavetes sobre ministérios estratégicos como os da Educação e Relações Exteriores e a disputa de espaço com a direita fardada mais tradicional não são pontos fora da curva nem simples cortina de fumaça para encobrir as maldades (aliás, de momento encontrando dificuldades no caminho) dos Chicago Boys. São estratégias que têm planejamento sim, e de fora do país, inclusive.

Bom, eis agora uma relação de outras curvas que confirmam ser a brasileira parte de uma tendência mundial, ainda que extremada: Duterte nas Filipinas; o assentamento de extremas-direitas na maioria dos países do antigo Leste Europeu; o crescimento vertiginoso, também com a metodologia Bannon, do Vox na Espanha, conseguindo fazer aliança com o PP e o Ciudadanos para as próximas eleições; o Japão está estagnado numa aliança de direita faz bastante tempo, embora também mais sóbria do que muitas das anteriores; os avanços e cooptações das direitas no restante da América Latina.

Ou seja, pontos fora da curva são o México e a Nova Zelândia. Além do Papa no Vaticano, é claro.

 

No site Carta Maior

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