Brasil. General Rego Barros é o porta-voz de Bolsonaro [Entrevista]

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‘Vamos fazer o combate de domínio da narrativa’

O porta-voz chega ao Planalto após uma série de desencontros nos discursos entre o presidente e seus ministros nas duas primeiras semanas de governo. Ele terá como missão fazer declarações à imprensa em nome do governo e alinhar o discurso entre a equipe.

O general será subordinado diretamente ao gabinete da Presidência. Rêgo Barros chefiava a comunicação do Exército desde abril de 2014. Em 2010, esteve na Missão de Paz das Nações Unidas no Haiti (Minustah), quando ainda era coronel.

‘Vamos fazer o combate de domínio da narrativa’

O general de Divisão Otávio Santana do Rêgo Barros, chefe do Centro de Comunicação Social do Exército, em Brasília, esteve na última semana, no Recife, para participar do Simpósio de Comunicação Social, no Comando Militar do Nordeste, para debater a relação entre Exército e Imprensa.

Chefiando a Comunicação do Exército há quatro anos, Rêgo Barros explicou, em entrevista à Folha de Pernambuco, como vem trabalhando as mídias sociais para apresentar a narrativa da instituição, avaliou a percepção da sociedade a respeito do papel das Forças Armadas e negou a possibilidade de uma nova intervenção militar.

ENTREVISTA


Folha de Pernambuco – O Exército e o general Villas Bôas têm sido ativos nos mídias sociais. Como a instituição tem pensado esse instrumento?

Vivenciamos momentos de transição da sociedade onde o domínio da narrativa de informação está deixando de ser prioritariamente dos jornalistas passando a ser prioritariamente do agente emissor da informação que é a sociedade e o povo de maneira geral. Diante deste contexto, há cerca de dez anos, começamos a meditar sobre a importância de colocarmos o Exército brasileiro diante da sociedade por meio das mídias sociais. Começamos pelo Facebook e passamos a crescer devagar. Depois entramos no Youtube. E mais recentemente detectamos um pouco a perda deste meio (Facebook) em relação ao Instagram e ao Twitter, então, colocamos força nessas duas ferramentas, com prioridade para o Twitter. E inclui o da instituição, Exército brasileiro, e o do comandante do Exercito, o general Villas Bôas. Estes dois caminham em paralelo. O do general Villas Bôas por ser personalidade e as personalidades, em sua maioria, prevalecem sobre a instituição, ele tem o crescimento mais rápido do que o da instituição. Não obstante, o Twitter permite que você atinja efetivamente a todas as pessoas que estão te seguindo, estamos começando a priorizar a sua utilização. E o Instagram que atinge aquela faixa etária mais jovem, que nós queremos buscar contato e receber um feedback. Porque essa faixa etária é o advogado da instituição daqui há cinco, dez, 20 anos. O advogado não que você necessariamente comprou ou pagou, mas que está capturado pela percepção e te defende. Somos os líderes de mídia social de todas as organizações de Governo a nível federal e em algumas delas em nível mundial. O Youtube do Exército é hoje o com maior número de seguidores de Forças Armadas do mundo.

Folha de Pernambuco – Por que a necessidade de impor a narrativa para mudar a imagem da instituição?

A instituição nunca deixou de ser bem vista. Não obstante, identificamos como estratégia de comunicação que uma faixa etária precisava ser conquistada por antecipação, era a faixa etária que estava sendo introjetada nas faculdades e nos colégios de ensino médio por professores que sofreram, ou melhor, foram impactados em algum momento pelo regime militar. E as consequências da evolução e do amadurecimento destes professores, em função do impacto que havia sofrido pelo regime militar, passavam a colocar a narrativas deles contrária à gente para essa garotada. Então, dentro desse contexto que identificamos, vamos fazer um combate de domínio da narrativa e o campo de batalha é o da mídia social.

Folha de Pernambuco – Como tem sido atuação do Exército em relação aos imigrantes venezuelanos em Roraima?

Os países no concerto das nações têm que entender que não são isolados, que compartilham fronteiras e situações de bem viver ou mal viver. No que tange à questão humanitária na região de Boa Vista, em Roraima, e a consequência da entrada destes imigrantes no Brasil, levando-os para outros estados, exigiu do Governo Federal, por meio da nossa instituição, já que foi nomeado um general (Eduardo Pazuello) para ser o coordenador desta atividade, uma ação muito rápida e eficaz sobre o ponto de vista de colocar dispositivos logísticos, como a parte sanitária, a parte de alojamento e transporte. Se não, o estado de Roraima tornar-se-ia inviável, um adensamento populacional muito grande, numa cidade que não tem as condições normais.

É assertivo da minha parte: tornar-se-iam inviável, você perderia controle da entrada, de questões endêmicas de ponto de vista de saúde – algumas doenças que no nosso País já estavam erradicadas voltaram a aparecer, fruto da entrada dessas pessoas. Infelizmente, o país amigo está vivendo problemas sérios do ponto de vista político, econômico, psicossocial e nesses momentos fronteiras terrestres não têm sustentação de contenção de transbordo, é apenas uma fronteira, chão passa-se para um lado e para o outro.

Folha de Pernambuco – O Exército contratou pesquisa de confiabilidade da população em relação à instituição?

Fizemos em final de 2016, depois de muitos anos contratamos uma pesquisa, estávamos vivendo de pesquisas de outras instituições que divulgavam aquilo que os interessavam e, eventualmente, alguma coisa que o Exército aparecesse, nós capturávamos e fazíamos daquele limão uma limonada. Nós vimos que não era suficiente saber que éramos uma das instituições mais confiáveis. Então, em 2016, fizemos a seguinte pergunta: o que significa essa confiabilidade? A população confia 80%, 70%, 70 e poucos por cento, mas queremos métrica. O que significam esses 75%? Como e por que temos esses 75%?

Nós entramos 2018, o País passou todas aquelas dificuldades, em transição do governo da presidente Dilma (Rousseff/PT) para o presidente Michel Temer (MDB) e nós continuamos mantendo esse alto índice de confiança, segundo outros órgãos de pesquisa. Falamos ‘está na hora da gente contratar de novo’. Porque além de nós medirmos o que está acontecendo, comparado com dois anos atrás, nós também podemos, a partir dessa pesquisa, objetivarmos quais são as estratégias nossas para daqui a quatro, cinco anos e não apenas estratégia de comunicação, mas estratégia de consolidação da marca, Exército, e das ações que ele tem que desencadear para ser efetivamente uma instituição de destaque.

Contratamos e recebemos agora em março e abril. Essas pesquisas nos sinalizaram uma manutenção de um elevado índice de confiança, e algumas mudanças de percepção da sociedade no que tange a nossa missão. De uma maneira geral, as pessoas que são mais instruídas, mais intelectualizadas sabem que a nossa missão está definida pela Constituição Federal, no seu Artigo 142. E, lá diz que a missão das Forças Armadas é defender os Poderes constitucionais. Mas a sociedade não identifica isso como a principal função nossa. Hoje, em função da violência, que acomete o nosso País, a sociedade não identifica o tema Defesa, que conceitualmente é: ‘defender a soberania do Estado-nação’. O tema Defesa se mescla com o tema Segurança. E a Segurança para a sociedade é o sofrimento que ela tem no dia-a-dia, do assalto, da morte, do furto, do roubo, do estupro, etc. Que não é nossa missão, não obstante, nós vamos precisar construir uma narrativa para que a sociedade entenda isso, ao menos nesse momento, e consiga diferenciar.

Essa mescla entre Defesa e Segurança fica latente com a questão da Garantia da Lei e da Ordem no Rio, cujo Exército está acoplado com Segurança Pública. Eu diria que tornar rotineiro o emprego das Forças Armadas para a sociedade pode criar uma percepção equivocada da nossa responsabilidade efetiva do ponto de vista constitucional. Quanto mais você vê a tropa (nas ruas), mas você acha que a tropa tem que estar ali.

Folha de Pernambuco – Qual é a sua avaliação sobre a intervenção no Rio de Janeiro?

Vamos estender esse conceito de intervenção mudando um pouquinho porque, a primeira operação de grande envergadura, com um emprego massivo das Forças Armadas, sob o manto da Garantia da Lei e da Ordem, foi em 2010. Foi a operação lá (no Rio) para que nós, apoiássemos a polícia nos morros e nos Complexos do Alemão e da Penha. Nós ficamos lá um ano e oito meses e, no que tange às questões de Segurança, fomos extremamente exitosos, mas os outros atores, as outras agências, não se fizeram presentes efetivamente e a consequência que, quando nós saímos, problemas relativos à saúde, à educação, à creche, ao transporte e ficou na mesma. Então, sai a Segurança e as outras agências que são as que dão um suporte efetivo para a sociedade caminhar não estão presentes, voltou à situação anterior. Aí, dois anos depois, fomos chamados para operarmos no Rio de Janeiro no Complexo da Maré.

Sai do aeroporto, vai em direção à cidade, complexo da Maré, ele fica a direita ali na linha vermelha, a favela, inclusive uma comunidade muito grande, e desta feita já, com grupos rivais distintos, o morro do Alemão e da Penha era um grupo. Então, você tinha quatro grupos que se digladiavam numa favela horizontal, diferente da favela do Alemão e da Penha, que é uma favela vertical. No Alemão e na Penha, a população estava esperançosa do sucesso definitivo da ação governamental. Nós saímos, os problemas voltaram. Quando entramos na Maré, a sociedade já começava a nos ver com certa, não resistência, mas um sentimento de ‘bom, vocês estão aqui, quando vocês forem embora, vai voltar ao status quo anterior’. Nós fomos embora, e de fato a comunidade voltou a ter os seus contenciosos dos mais diversos.

E agora nós temos uma intervenção federal. Primeiro, nós tivemos uma designação de uma operação de Garantia da Lei e da Ordem para toda a cidade do Rio de Janeiro, não era mais uma comunidade. E depois, já na virada do ano, em função também de número de violência, ademais da operação de Garantia da Lei e da Ordem, o Governo Federal determinou que fosse realizado uma intervenção federal no ambiente da Segurança Pública do estado do Rio de Janeiro. Mais ou menos como termos um governador apenas para a Segurança e um governador para o resto das outras atividades.

Eu não estou temeroso com as ações desencadeadas pelas Forças Armadas, nós sabemos como operar, nós temos qualidade nessa operação por experiências anteriores, eu posso citar o Haiti, muito da tropa de lá que está sendo empregada tem experiência de combate lá do Haiti e das próprias outras ações na Maré e no Alemão. Quanto a isso, eu não tenho a menor dúvida. Eu tenho preocupação sobre o tempo que a intervenção federal tem que cumprir para entregar estruturada a Segurança Pública do estado do Rio de Janeiro. Aí, eu tenho preocupação. Porque, lá o pessoal do general Braga Netto, que é o interventor federal, tem feito um belo trabalho, tem modificado o conceito gerenciais da polícia, tem conseguido preparar licitações para a aquisição de material para preparar essa polícia, seja militar seja civil para o prosseguimento da missão em 2019 e por aí afora. Eu sei que é um tempo muito curto e é dentro dessa ótica do estreitamento do tempo que nós nos preocupamos.

Folha de Pernambuco- Como vocês observam, dentro dos quarteis, esses pedidos por parte da sociedade de intervenção militar?

Nós enxergamos o pedido de intervenção, como uma ansiedade da sociedade, por uma correção de rumo, em particular no que tange aos aspectos da corrupção. Você tem uma instituição que tem valores que são considerados, avaliados e bem qualificados, que tem tradições de igual forma, consideradas, analisadas e bem qualificadas, e que, a própria pesquisa nos indicou isso e o imaginário da população diz: ‘olha, esses caras, eles não são corruptos. E quando há corrupção, eles imediatamente atuam para corrigir’. Então, falar de intervenção hoje para nós está muito mais ligado à ansiedade da sociedade em modificar comportamentos que são equivocados e comportamentos que eles desejam que estão bastante enlaçados com nós. Nós não falamos e nem imaginamos, sequer comentamos, qualquer possibilidade de intervenção por parte das Forças Armadas. É até um assunto que a gente tem evitado falar porque fica retroalimentando um processo sobre o qual nós não temos interesse que se mantenha ativo e quente porque não passa nem próximo da gente.

 

Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

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