Brasil-Futebol-Memória. Magrão, Democracia Corintiana, “Diretas Já”

Memória histórica: Sócrates (magrão), que nos deixou há nove anos . Gênio médico, escritor, craque, líder, ativista pelas “Diretas Já” e referencial autêntico de vida.

Milton Neves

Ontem, dia 4 de dezembro de 2020, faz exatamente nove anos que o futebol e a sociedade perderam Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, um gênio com a bola nos pés e como cidadão.

E eu tive recentemente acesso aos textos-livro do próprio Doutor com colaboração de Kátia Bagnarelli Vieira de Oliveira, sua última esposa.

Kátia, hoje coincidentemente executiva do Departamento Comercial do Grupo Bandeirantes de Comunicação, cedeu-me de forma espontânea o que Sócrates escreveu, pacientemente.

Já estive com ela três vezes e em todos esses encontros a viúva do Doutor chorou, de amor e de saudade.

Abaixo, destaco alguns dos trechos mais interessantes da obra do Magrão analisando futebol e a vida que viveu intensamente, sem rancores ou arrependimentos.

Afinal, quem definiria tão bem as insistentes comparações entre Pelé e o saudoso Maradona?.

«Gente, é uma grande bobagem tentar compará-los. Até porque possuíam habilidades diferentes. Se fosse para criar uma imagem que definisse quem é quem, eu diria que Pelé era o cara do trapézio que fica de cabeça para baixo para receber o colega. Um indivíduo que não pode errar nunca senão coloca a vida do outro em risco. Já Maradona seria este outro que jamais se cansa de dar um milhão de mortais sem se dar conta do perigo que corre. E sem eles, obviamente, não haveria circo».

O Doutor também deixou registrado o seu raciocínio sobre a relação do brasileiro com seus ídolos.

«É interessante perceber que estas demonstrações de puro encantamento sejam tão raras aqui no Brasil. Pelé é um bom exemplo de quão distantes estamos daqueles que nos representam. Na verdade, não possuímos a paixão por estas figuras populares. Só mesmo em caso de um acidente de proporções gigantescas é que nos mobilizamos para cultuá-los. Ou, quando é o caso, se o personagem é realmente representativo do que esperamos deles. Aí sim nos sentimos próximos e existe uma identidade a nos aproximar. Mas, geralmente de maneira humana e realista e quase nada de veneração».

Sobre encarar Telê Santana logo após a eliminação da Copa de 1982, Sócrates relatou:

«Mais uma vez me transportou a meu pai. Julguei que a dor que os dois estavam sentindo era da mesma intensidade. Chorei por eles muito mais que por outra coisa, mas as lágrimas escorriam com dificuldade. Estava esgotado e ressecado. Só vim saber exatamente o que representava aquele sentimento muito tempo depois quando meu velho partiu. Queria ser um milagreiro para trazê-lo de volta, assim como para resgatar aquele título mundial a quem mais o merecia: Telê Santana».

Sobre o seu sorteio para o doping após a vitória brasileira sobre a Nova Zelândia, também em 1982, Sócrates recordou o seguinte:

«Legal, quem sabe não sobra uma cervejinha, pensei. Depois de meses de preparação eu estava numa secura de dar dó. (…) Quando o cara abriu a geladeira, tentei disfarçar o sorriso. Estava entulhada de tudo que é tipo de bebida. Uma beleza! Tomava a minha segunda latinha quando percebi que os outros já haviam terminado a missão. E eu, sem nenhuma vontade. Na verdade, não queria que aquilo terminasse nunca. Acabei como estoque de cerveja e passei para o champanhe. E nada. Vinho, nada. Refrigerante, nada. Só quase 3 horas depois, consegui colher o material. Quando saí do estádio, ninguém mais do time me esperava, mas eu era o mais feliz dos homens. Estava em êxtase. Foi um dos melhores dias de minha vida».

E o Doutor também tinha uma solução para inibir os escândalos de manipulações de resultados.

«Esta é a lógica da corrupção. Centralização de poder e fragilidade dos poderosos. O futebol como ele é constituído até hoje, serve exatamente para que possa haver manipulação de resultados. (…) Deveríamos ter um número maior de árbitros participando das decisões de uma partida de futebol. Assim, o roubo seria mais difícil. Mas será que a FIFA quer isso?».

Viram só, meus amigos?

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira morreu há nove anos, mas ainda tem muito a nos ensinar.

Ave, Doutor!

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https://blogmiltonneves.uol.com.br/blog/2020/12/04/as-memorias-de-socrates-que-nos-deixou-ha-nove-anos/


 

Histórico

Rogério Micheletti e Breno Menezes

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, um dos jogadores mais diferenciados da história do futebol, tanto dentro quanto dos campos, não resistiu à terceira internação e morreu aos 57 anos, no dia 4 de dezembro de 2011, em São Paulo, vítima de infecção generalizada.

Em 19 de agosto de 2011 foi internado na UTI do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, com hemorragia digestiva, provocada por cirrose hepática.

Após oito dias de internação, recebeu alta, mas voltou a ser internado no dia  2 de setembro, em estado mais grave ainda, com uma hemorragia no esôfago, tendo sido encaminhado à UTI do mesmo hospital e recebeu a notícia que precisaria de um transplante de fígado.

Voltou ao hospital na madrugada do dia 3 de dezembro, em função de um choque séptico, que ocasionou a infecção generalizada que vitimou um dos mais marcantes jogadores da história do Corinthians e Seleção Brasileira.

Ele tinha  residência fixa em Ribeirão Preto (SP), escrevia para jornais (entre eles o «Agora São Paulo») fazia parte do programa «Cartão Verde» da TV Cultura e era formado em medicina.

Nascido no dia 19 de fevereiro de 1954, em Belém (PA), Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, começou a carreira no Botafogo, de Ribeirão, em 1974. No Pantera, o Doutor fez sucesso ao lado do ponta-direita Zé Mário (já falecido) e o artilheiro Geraldão (que depois também defenderia o Timão).

Em 1978, graças ao presidente corintiano Vicente Matheus, Sócrates foi para o Corinthians. Na época, o São Paulo cobiçava o alto, magro e extremamente talentoso meia-direita, mas ficou a ver navios e sofreu com o Doutor principalmente nas finais dos paulistas de 82 e 83, quando o time da «Democracia Corintiana» derrotou o Tricolor, em pleno estádio do Morumbi.

Matéria especial

 Em 19 de fevereiro de 2020, dia em que Sócrates completaria 66 anos, o Portal Terceiro Tempo publicou uma matéria com passagens marcantes do Doutor, com fotos e vídeos, assinada pelo jornalista Marcos Júnior Micheletti. Clique aqui e veja.

A Democracia

Culto e sempre ligado aos assuntos políticos, Sócrates foi um líder dentro de campo. «Era engraçado quando discutíamos no vestiário do Corinthians. Todo mundo falava e ninguém chegava a uma conclusão.

“Diretas Já” e a Ditadura Civil Militar de 64

Proposta pelo deputado federal Dante de Oliveira em 1983, a emenda tinha o objetivo de reinstaurar as eleições diretas para presidente da República no Brasil, suspensas desde o golpe militar de 1964. Entre os anos de 1983 e 84, houve uma enorme pressão popular para que a emenda fosse aprovada. Conforme esse movimento civil em favor das eleições diretas foi se intensificando, foi batizada como “Diretas Já”.

Junto de diversas personalidades, como Fafá de Belém, Chico Buarque e Martinho da Vila, Sócrates se fazia presente e engajado no movimento que clamava pelo fim do regime militar.

Durante a mobilização da população para a aprovação da emenda Dante de Oliveira, o Doutor discursou em diversos comícios para milhares de manifestantes. A mais marcante presença de Sócrates se deu na maior das manifestações. No dia 16 de abril de 1984, mais de um milhão de pessoas se reuniram no Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, exigindo eleições diretas para presidente.

De repente, o Sócrates abria a boca, todos ouviam e concordavam», disse o goleiro Sollito, que foi titular da meta corintiana na conquista do Paulista de 1982.

Para o Doutor Sócrates, o movimento Democracia Corintiana serviu como lição. «Foi uma época em que os subordinados eram escutados. E acho que isso é necessário hoje. A humanidade precisa ouvir mais», disse Sócrates em entrevista à Rádio CBN, em 2008.

No dia 28 de julho de 2012, a diretoria do Corinthians inaugurou um busto em homenagem ao ídolo Sócrates, no Parque São Jorge.

Pelo Corinthians:

Magrão, como era chamado pelos companheiros, realizou 297 jogos, marcou 172 gols e conquistou os títulos paulistas de 79, 82 e 83. Pela seleção brasileira, ele disputou dois mundiais (1982 e 1986).

Fonte: Almanaque do Timão, de Celso Unzelte.

Pela Seleção Brasileira:

Com a camisa canarinho foram 63 jogos (41 vitórias, 17 empates, 5 derrotas) e 24 gols marcados.

Fonte: Seleção Brasileira – 90 Anos – 1914 – 2004, de Antonio Carlos Napoleão e Roberto Assaf.

Fiorentina e Flamengo

Depois de uma passagem apagada pela Fiorentina, da Itália, onde esteve de 1984 a 1986, o Doutor voltou para o Brasil, desta vez para jogar no Flamengo. No entanto, as contusões atrapalharam a permanência dele na Gávea. Foram apenas 20 jogos com a camisa do Fla (10 vitórias, 3 empates, 7 derrotas) e cinco gols marcados.

Santos F.C.

Em 1988, após ficar um ano longe dos gramados, Sócrates foi defender o Santos, seu time de infância. No Peixe, ele jogou apenas um ano e sua melhor partida foi contra o Corinthians, na vitória por 2 a 1, no Brasileiro de 88. Ainda nos anos 80, ele viu uma outra estrela de sua família brilhar: o irmão Raí, que se tornou ídolo do São Paulo.

 

 DEPOIMENTO DO JORNALISTA FLAVIO GOMES SOBRE SÓCRATES, GRAVADO EM 2016

Vídeo: Flávio Gomes fala sobre Futebol e Política

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https://terceirotempo.uol.com.br/que-fim-levou/socrates-1650


PS do colaborador:

Fotoarte: “ Magrão, Presente!”

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