Brasil, Floripa: Eu pulo a catraca, sim

 

Num átimo ele percebeu que já estava velho demais. Tudo o que tivera para fazer, estava feito. Agora, os dias iam escoando entre dores físicas e espirituais. Nada mais importava. Já não tinha no corpo aquele vigor que o fazia varar as noites no trabalho, garantindo o pão para os irmãos pequenos, acossados pela fome na periferia de Florianópolis. É, porque a ilha da magia sempre teve periferia, espaço dos pobres, dos desvalidos. E ele fora um. Ainda era, 75 anos depois…

Por isso, iria fazê-lo. Nada mais o prendia nessa vida de dor. A mulher que amara há muito se fora, vencida pela tuberculose. E ele lembra bem das romarias aos hospitais, a cada ataque, a cada crise. O sangue jorrando pela boca. “Tem que ter boa alimentação”, dizia o médico. “Mas, como???” Era o que se perguntava, na imensidão da impotência. O trabalho como carpinteiro mal dava para pagar os remédios. Nunca tivera tempo para os estudos, na luta pela vida desde criancinha. Vendeu balas na porta do velho cinema, engraxou sapatos, vendeu jornais. Encantavase com as letras e o que elas podiam trazer de belezas, mas quase nunca pudera juntá-las em palavras inteligíveis. Mal sabia assinar o nome, assim, bem desenhado.

A doença levara Lucinda e não sobrara nada. Não houve espaço para filhos. Mas o tempo passado juntos foi bom demais. “A gente ia dançar no Clube 25 e Lucinda era como uma rainha. Todos tinham inveja de mim”. E talvez tenha sido o olho gordo mesmo, o que fizera com que a mulher definhasse, até suspirar como um passarinho e abandonar o corpo. Nunca mais se casara. Não seria possível. Tivera uma mulher aqui e ali, passeava com algumas lá da Conselheiro, mas, no barraco, a presença de Lucinda ainda existia nos vestidos floridos pendurados no velho guarda-roupa, na foto tirada pelo lambe-lambe da praça XV. Ela ainda era rainha.

Agora, ali na rua, diante daquele momento abissal, essas lembranças vinham com a força de um raio. Ele sempre fora um homem valente. Lutara pela vida, lutara por Lucinda, lutara com a morte. Nunca se percebeu desistindo de qualquer batalha. Encarava com a cabeça erguida, cabeça de homem trabalhador, que sabia o valor das coisas, que sempre respeitara a lei, que nunca caíra no fácil e vantajoso mundo do crime. Convites, sim, tivera. Como quando Jovelino lhe ofereceu a boca de fumo como parceria. O dinheiro jorraria. Não quis. Não era dinheiro o que lhe encantava. Melhor aquela sensação gostosa de homem de bem, estirado no sofá, sentindo perfume de Lucinda, ouvindo a televisão.

Agora ali estava ele, no meio daqueles que a mesma televisão repetia serem os “vândalos”. E, por algum tempo, ele acreditara. Até que uma passeata o pegou distraído no meio da Felipe. Seguiu no roldão e foi se encantando com a gritaria. Olhou cada carinha e não via desordeiros. Via valentia, desejos de coisas boas. “A gente quer a catraca livre, tio. Pra ninguém mais ter de pagar passagem”. “Ninguém, ninguém?” “É, nenhuma pessoa, de qualquer idade”. Ele remoeu aquilo. Não pagava mais, podia andar por toda a cidade, mas sabia que a passagem era cara. Aquela gurizada era bem maluca. Mas, seria bom para os pobres.

Por isso que naquele dia, quando a muvuca se formou em frente ao terminal, ele foi até lá. Largou as ferramentas, botou o melhor terno, guardado para festas e velórios, ajeitou o chapéu e rumou para o Ticen. A gurizada tinha invadido o Setuf, espaço da administração do transporte coletivo, e exigia o passe livre para todos. As pessoas, estupefatas, paravam nas catracas, sem saber o que fazer. Ele não. Sabia que já era tempo. Nada havia a perder, a não ser o medo. Ele enveredou para a massa, cruzando os rostos paralisados de estupor, e pulou a catraca. Foi o que bastou. E aquele foi um dia histórico em Florianópolis.

 

Elaine Tavares é jornalista.

NOTICIAS ANTICAPITALISTAS