Brasil: Espionagem, soberania e o leilão do petróleo

 

Sempre digo por aí, não sem certa tristeza: somos os arautos da desgraça. Aqueles que sobem no mais alto monte e ficam a gritar sobre os males que virão. Não que sejamos videntes, pitonisas, magos. Não. Apenas analisamos a realidade, observamos as relações de causa e efeito e pronto: aí está o que pode acontecer. No geral, as coisas acontecem mesmo. É ciência.

Desde há muito anos denunciamos os programas de espionagem do governo dos EUA. E antes de nós outros já denunciavam. Mas, nossas palavras ficam no vento: teoria da conspiração, coisa de esquerdinhas, maluquices dos que são anti-progresso e tantas outras etiquetas pejorativas que se usam para desqualificar nossas análises e opiniões. Para a maioria da população, que conhece a realidade através da mídia comercial, as relações com os Estados Unidos sempre foram muito boas e assim tem de ser, afinal, esse é um país grandioso que tem muita coisa a ensinar e oferecer. Pessoas há que, inclusive, acreditam ser muito bom ser dependente dos EUA, já que esse é um país importante.

Em todos os meios de comunicação de massa raras são as notícias ruins sobre os EUA. No mais das vezes, as que aparecem são as impossíveis de esconder, como é o caso das chacinas que jovens adolescentes praticam sistematicamente. Mostra-se o fato, a dor, a tragédia, mas quase nunca aparece uma boa análise dos motivos que levam a isso. O jornalismo não se presta a desvelar a realidade. É mera propaganda. Então, fatos como esses aparecem como patologias, falhas na matrix, e não há ligação com o fenômeno da violência de uma sociedade militar. Assim, logo em seguida, novas notícias sobre a Disneylândia ou o lançamento do «Homem de Ferro 3» colocam as coisas todas no lugar outra vez.

Pois agora, nos últimos tempos, a espionagem dos EUA sobre o mundo veio à tona na denúncia de um jovem estadunidense que trabalhou para uma dessas empresas que roubam dados e fuxicam a vida de pessoas e estados para que o governo possa atuar na defesa dos interesses da elite dominante daquele país. A notícia se espalhou. Não havia como negar. Até então, as provas repassadas pelo WikiLeaks eram vistas com ceticismo e seu criador, Julian Assange, era igualmente desqualificado como pessoa, para que suas informações se perdessem no vazio. E, afinal, Assange é um inglês, logo, poderia ser um inimigo dos EUA, ou, quem sabe, um esquerdinha a mais.

Foi apenas quando a denúncia veio de dentro mesmo do «monstro» que os meios de massa tiveram de dar algum destaque. Ainda assim, tudo segue meio nebuloso. E Edward Snowden ainda está revestido de mistério. Afinal, como um «americano» normal iria denunciar seu próprio país. Seria ele um tolo? Assim como foi tolo o jovem Brad Manning ao denunciar as atrocidades dos EUA no Iraque, tentando mudar essa realidade, tentando «ajudar» seu país? Perguntas que a mídia comercial deixa no ar, para que as pessoas passem elas mesmas a formular essas teses, aceitando-as como verdadeiras: os caras são traidores da pátria deles.

Só isso pode explicar o fato de o Brasil ter sido espionado naquilo que tem de mais estratégico que são suas riquezas naturais, e tudo ficar por isso mesmo. Comprovado ficou que os Estados Unidos espionaram a Petrobras, espionaram a presidente do país, espionaram ministros. O máximo que se teve de repercussão foi um discurso na ONU e um pedido de explicações ao governo dos EUA. O governo explicou? O Brasil se satisfez com as explicações? O que está em jogo no tabuleiro da espionagem das riquezas do país?

Alguém já pensou no que aconteceria se fosse o contrário. Se o governo brasileiro tivesse espionado alguma empresa estratégica dos EUA, que respostas receberia do país governado por Barak Obama? Certamente a Quarta Frota ocuparia nosso litoral. Os mariners viriam aos montes, os Seals, a CIA, e toda a sorte de mercenários ou patriotas. Haveria uma guerra? Ocupariam Brasília? Viriam o Rambo, o Duro de Matar, o Homem de Ferro, o Capitão América, os Vingadores? Sim, viriam!

Mas, e o Brasil, que poderia fazer? Uma guerra? Possivelmente não. Temos de ser realistas. Mas, uma coisa poderia ser feita sim. Ou melhor, deveria. Cancelar os leilões da Petrobras. É fato notório e comprovado que espionaram a empresa brasileira de petróleo. É fato que o Brasil tem reservas imensas no pré-sal. É fato que as empresas estadunidenses estão de olho no petróleo, não só aqui, mas em todo o mundo. Logo, se espionaram a Petrobras estão de posse de informações estratégicas sobre os campos de petróleo. E, sendo assim, serão as vencedoras nos leilões que mais lhe interessarem. Não é esquerdismo, nem teoria da conspiração. É matemática. Junta dois mais dois e tem o quatro. Não há erro.

Pois apesar de todo esse cenários de filme roliudiano, a presidente Dilma (que foi espionada também) decidiu manter o leilão do Campo de Libra para o dia 21. Está ajoelhada diante do império. Nenhuma reação prática além das palavras na ONU. E mais, chamou o exército para cercar as ruas impedindo que a população se manifeste. Submete-se vergonhosamente aos interesses externos e enfrenta o povo de seu país como inimigo. Porque, afinal, exército é uma instituição que existe para defender o país de agressões externas, de inimigos.

As perguntas que as pessoas devem se fazer é: quem são os inimigos do país? Quais são os que devem ser enfrentados? As pessoas que aqui vivem e que querem proteger as riquezas naturais? Ou os estrangeiros que vêm explorar o petróleo, levando as riquezas para fora do país? Seriam os trabalhadores da Petrobras, os sindicalistas, os militantes do Movimento Sociais os verdadeiros inimigos do Brasil? Pensem nisso… Com calma!

E aqui vão outras indagações para ligar os fios da realidade social: que relação tem tudo isso com os protestos que tem sido realizados nos últimos tempos? Por que foi votada uma lei que transforma em «bandido» e «perigo nacional» aqueles que estão nas ruas se expressando da única forma com a qual conseguem ser ouvidos? Por que se manda para os presídios estudantes e populares que enfrentam a polícia na luta por direitos e por soberania? Seria realmente «vandalismo» a reação desesperada de quem não consegue ser escutado como cidadão que pensa e decide as políticas de governo? Afinal, os governantes não deveriam governar baseado nas demandas do seu povo? Ou devem governar baseados nos desejos de empresas transnacionais ou governos estrangeiros?

Pois essa é a trama do tecido social que temos estendido sobre nossos olhos. Segunda-feira acontece o primeiro leilão do pré-sal. Nossas riquezas sendo entregues possivelmente aos mesmos que nos espionaram. Nas ruas, as pessoas que insistem em ver o Brasil soberano, dono de suas própria riquezas, enfrentarão mais que a polícia. Enfrentarão o exército, colocado nas ruas para «defender» a nação. Defender o Brasil dos brasileiros. Jovens, sindicalistas, populares, reagirão organizadamente, pacificamente. Outros reagirão desesperadamente. A luta é desigual. De um lado, homens armados, treinados para exterminar o inimigo. Do outro, gente indignada, apaixonada, desesperada diante da força bruta.

E na televisão os repórteres bem-mandandos ouvirão pessoas que chamarão de «vândalos» aos que lutam. E aparecerão pessoas do povo dizendo que o lugar de quem está mascarado e reage violentamente num protesto deve ser mesmo o presídio. E toda essa gente que luta pelo Brasil soberano será colocada na condição de bandido, terrorista, baderneiro. E os âncoras dos telejornais farão aquelas caras constritas para falar da «violência» perpetrada por pessoas que não querem o progresso do Brasil. O progresso deles, dos âncoras, que são os ventríloquos daqueles que dominam, é o da entrega das riquezas, o da submissão, da dependência. E as pessoas «de bem» dormirão tranquilas, sabendo que os «bandidos» estarão nas cadeias.

Só que as pessoas que lutam pela soberania nacional não são bandidas. Elas são o povo. E isso não se acaba assim, na prisão de alguns. A luta recomeça e, de novo, nas ruas, estarão milhões. Porque a realidade mesma é clara. Esses espaço geográfico é dos brasileiros e dos que aqui escolheram viver. Não pode servir de lugar de exploração, como sempre tem sido desde a invasão em 1500.

A segunda-feira que virá escreverá os destinos do país.

 

Elaine Tavares é jornalista.

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