Brasil. “É digno um vice-presidente se prestar a esse papel?»

O líder do governo na Câmara Federal, deputado José Guimarães (PT-CE), considera que a postura de Michel Temer tramando a favor do golpe não é digna de um vice-presidente.

“É digno um vice-presidente se prestar a esse papel? É claro que tenho o maior respeito pelo PMDB, mas é justo esse áudio que foi divulgado pelo vice-presidente da República? Isso é razoável do ponto de vista do que estamos discutindo aqui? Não é!Quanta saudade de um Marco Maciel, de um Itamar Franco e de um inesquecível José Alencar, que foram vice-presidentes que não tramaram, que não exerceram o protagonismo de uma ação golpista como essa”.

Guimarães refutou diretamente a postura golpista do vice-presidente Michel Temer (PMDB), “que faz parte do núcleo político que trama contra a democracia, contra o governo e contra o País”. Segundo o líder, além de Temer, fazem parte do centro do golpe o PSDB e partidos satélites que articulam e determinam o andamento do impeachment sob a batuta do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Para o deputado, esta semana será crucial para a luta contra o golpe. «Estamos firmes e confiantes na vitória! As ruas serão decisivas»! Segundo ele, a democracia tem que ser a fonte de inspiração e a mobilização popular vai vencer a onda conservadora que estimula o ódio e a violência. «Acredito que a democracia não será atingida por esse golpe, pois o País está mobilizado. Aos poucos, estamos vencendo uma onda conservadora que patrocinou a violência e o ódio».

O parlamentar vê como saída para crise econômica no Brasil fazer um grande pacto para o País voltar a crescer, avançar em programas sociais, reduzir as taxas de juros, ampliar as exportações, investir na produção e na retomada do emprego. Guimarães reiterou que o governo está empenhado e disposto a rever pontos importantes para a retomada do crescimento do País, a partir da repactuação após a derrota do golpe. “A ideia do ‘quanto pior, melhor’ arrebentou com o Brasil. Não podemos mais conviver com essa crise política. E temos que resolver isso. Não é por causa de uma crise que é preciso afastar a presidenta Dilma, porque ela é uma mulher honrada. Não se pode dizer que ela cometeu algum ato de corrupção no seu governo, porque ela fez justamente o contrário: deu condições para as instituições investigarem tudo”, argumentou.

 

Áudio de Temer não vazou por acaso

 Rodrigo Vianna

A mim parece evidente que o vazamento do áudio de Temer não foi acidental (clique aqui para saber mais). Aliás, isso pouca importa. O que interessa é saber se a manobra vai ajudar o peemedebista a dar o golpe, ou se vai atrapalhar.

Lembremos que a “carta chorosa” de Temer há alguns meses também foi vazada “por acaso”. Na verdade, era estratégia de comunicação, que depois se revelou desastrada.

O áudio agora vazado terá o mesmo destino? Transformar-se-á em mais um episódio patético a mostrar a pequenez de Temer? Essa é a narrativa em disputa nesse momento.

Aparentemente, pega muito mal junto à opinião pública o fato de Temer falar como “presidente” antes da votação final no dia 17. Ele fica com o carimbo, na testa, de golpista e conspirador. Sentou na cadeira antes da hora. Traiu, mostrou-se patético e pequeno.

Mas me parece que Temer resolveu correr o risco.

Com 1% nas intenções de voto (segundo o Datafolha), Temer não faz nesse momento uma disputa por popularidade. O objetivo dele é simplesmente conquistar votos indecisos, dentro o Colégio Eleitoral que – de forma indireta – pode dar o poder ao peemedebista, num golpe parlamentar comandado por Cunha e tolerado pelo STF.

Ninguém grava “por acaso” um discurso de 15 minutos. Temer planejou o vazamento, para convencer indecisos, ocupando espaço no JN nesta segunda-feira (11 de abril). Hoje, o noticiário estaria dominado pelos atos de rua contra o impeachment: Lula e os artistas no Rio, contra o golpe, estariam na tela.

Temer ofereceu a Ali Kamel 15 minutos, para dividir espaço com Lula.

Isso será suficiente para garantir os votos que hoje a oposição não tem? Difícil saber.

Na Comissão, o impeachment foi aprovado por 38 votos a 27, num total de 65 parlamentares. Isso significa 58% dos votos pela derrubada de Dilma. Agora, tudo segue para o plenário, onde serão necessários 67% (dois terços) dos votos para dar o golpe. Ou seja, mantida a proporção da comissão, o golpe será rejeitado.

A votação final, dia 17, deve ser decidida no olho mecânico. As cúpulas partidárias (PSB, Rede e vários diretórios regionais do PP, sem falar no líder da bancada do PR) migraram nas últimas horas para uma defesa explícita do impeachment. Mas, na ponta do lápis, a conta não está fechada.

O governo conta com uma base firme de 110 deputados, à qual hoje pode agregar, na pior das hipóteses: 20 votos do PP (de um total de quase 50), 15 do PR, 15 do PSD e 10 do PMDB = 60 votos. Contará ainda com votos esparsos no PTB e nos partidos chamados de nanicos (totalizando mais 10 votos, talvez).

A máquina midiática, de um lado, tentará criar um clima de “já ganhou”a favor do impeachment. De outro, Lula nas ruas e nas articulações de bastidor tenta assegurar 60 ou 70 votos na centro-direita (especialmente nas bancadas do Norte/Nordeste), que seriam suficientes para barrar o golpe.

O áudio de Temer inscreve-se nessa estratégia. Tenta apontar a “expectativa de futuro” em torno de um “novo governo” – numa tentativa final de esvaziar essas bancada de 60 votos conservadores que Lula articulou, e que podem salvar o mandato de Dilma.

As contas mais realistas hoje são as seguintes: a oposição teria 320 votos pelo impeachment; e o governo teria 180 votos para barrar o golpe. Mas, provavelmente, haverá menos do que 180 deputados dispostos a ir ao plenário dia 17, para dizer “Não” à avalanche midiática pelo golpe. Ou seja, o “Não” se dividiria em 140 votos em plenário e mais 40/50 abstenções e ausências.

Temer tenta transformar essas ausências em votos pelo impeachment. Essa é a batalha.

Hoje a conta é essa: 320 sim x 140 não. E cerca de 40/50 abstenções/ausências.

O resto é terror midiático.

O lado de cá, que batalha contra o golpe, não deve se abater com as notícias de “deserções”, “desembarques”, “estouro da boiada”.

A mídia tentou criar esse clima quando o PMDB rompeu com o governo. E isso não se confirmou.

A batalha será dura. E hoje a oposição não tem votos pra vencer. Se tivesse, Temer não arriscaria tanto – a ponto de passar para a história como um conspirador assumido.

A sofreguidão do poder levou Temer ao extremo. É o que escrevi hoje no twitter: a ânsia pelo poder une Aécio e Temer. A diferença entre eles é que um aspira e o outro conspira.

Tudo indica que perderão. Abraçados.

E o país seguirá dividido. Mas com a esquerda crescendo nas ruas.

Esse é o cenário que vejo hoje. Sem triunfalismo, sem torcida.

 

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