Brasil-Democracia-Memória. Um pássaro deixa de cantar. Rosa, a Vermelha

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«De repente, nessa atmosfera espectral, à beira da minha janela, ergueu-se o canto do rouxinol. No meio desta chuva, destes relâmpagos, do trovão, dir-se-ia o carrilhão de um sino argentino. O rouxinol cantava com  paixão, como se quisesse abafar o barulho do trovão e iluminar o crepúsculo. Nunca ouvi  nada mais belo. No céu, alternadamente plúmbeo e púrpura, o seu canto fazia lembrar uma cintilação de prata. Tudo era tão misterioso e de uma beleza tão inacreditável que repeti  involuntariamente o último verso do poema de Goethe: 

“Ah, e não estás tu ao pé de mim”… 

 (Carta a Sônia Liebknecht, enviada à prisão, fins de maio de 1917. VARES, Luiz Pilla.

Rosa, a Vermelha. São Paulo: Busca Vida, 1988, p. 250).

 

Rosa Luxemburgo: um pássaro deixa de cantar

Livros lidos, uma ou outra citação, algum artigo – dela já me ocupara, não como de seu merecimento. A gata, recém-chegada ao nosso ninho, meu e de Carla, leva o seu nome – é irrequieta que só o diabo, honra o batismo. Não, não esperem um texto teórico, a servir de bússola. Há tantos estudos, livros sobre ela – não como de seu merecimento, mas há muitos.

 Contentem-se, se forem atraídos à leitura, com a lembrança de seus últimos momentos de vida, ela, Rosa, mártir da revolução.

  Descubram também uma Rosa atenta às pequenas felicidades da vida a dois e apaixonada pela natureza. Se puderem, olhem com carinho para essa Rosa.

Há outras.

A Rosa militante, entusiasmada com a Revolução de 1905 na Rússia, onde nasce a sua noção do papel da classe operária, a essencialidade da greve de massas.

A Rosa quase desesperada em 1914 diante da posição social-democrata alemã, da esquerda a que pertencia, de apoiar os créditos para a guerra, o genocídio da Primeira Guerra Mundial, e para seu desespero uma guerra a contar com o apoio do proletariado.

A Rosa simultaneamente eufórica com a Revolução de 1917 na Rússia e asperamente crítica em relação à supressão da democracia.

A Rosa dividida na Revolução Alemã de 1918, entre a certeza da falta de condições objetivas para o enfrentamento com a burguesia e seu compromisso profundo com a revolução. Preferível seguir com os espartaquistas a trair seus princípios revolucionários.

Nesse texto, só trato de seus momentos finais. Quem sabe, volte a ela em outra ocasião, com outro olhar.

A morte, ela pretendia a surpreendesse numa luta de rua ou na prisão. Diz isso, presa, numa carta a Sônia Liebknecht, de 2 de maio de 1917.

Foi assassinada no dia 15 de janeiro de 1919 pelos verdugos da contrarrevolução alemã, com participação dos social-democratas do seu ex-partido.

Prenderam-na às 9 da noite, nesse dia, no apartamento onde se refugiavam ela e Karl Liebknecht, também preso. Os dois estavam num quartinho dos fundos, escondidos pela família Marcussohn. Alguns vizinhos devem ter avisado a repressão sobre a estranha presença daqueles dois no respeitável conjunto de edifícios de classe média de Berlim. Classe média conservadora tem horror a revolucionários. Basta parecer com um deles para ter horror. É provável os dois tivessem aparência de comunistas. Melhor entregar.

Ao ser presa, tinha faces pálidas e olheiras, a indicar muitas noites sem dormir, a evidenciar seu esgotamento físico. O olhar, no entanto, revelava altivez, força de vontade. Nunca as perdera. Quando os soldados bateram à porta, descansava. Tinha dores de cabeça constantes naqueles tempestuosos dias. Pediu para fazer uma pequena mala e pegou Fausto, de Goethe. Vestiu o casaco, ajustou lentamente as luvas, primeiro a esquerda, depois a direita. Pensava numa nova etapa na prisão, tão comum em sua vida de revolucionária.

Ainda tentaram, ela e Karl, quase tolamente, mostrar documentos falsos. Havia um prêmio de 100 mil marcos sobre suas cabeças. A repressão sabia exatamente quem eram. No luxuoso Hotel Eden, quartel-general de uma das divisões paramilitares no centro de Berlim, foi recebida com injúrias e sarcasmos, “Lá vai a puta velha”, gritavam.

Levada ao primeiro piso do hotel, subiu as escadas serenamente, tentando controlar sua claudicação decorrente de sua condição de coxa. O capitão Waldemar Pabst, oficial do estado-maior do exército alemão, a interroga formalmente. A rigor, não queria mais nada dela. Ele a mandaria para a morte. É o carrasco da Rosa. Como de Karl Liebknecht.

– A senhora é Rosa Luxemburgo? – perguntou Pabst.

– Cabe ao senhor determinar – respondeu, altiva e secamente.

– De acordo com o retrato, deve ser a senhora.

– Se o senhor assim o diz – retrucou, olhando fixamente para a parede atrás do oficial.

Rosa desceu as escadas e caminhou em direção à saída para o carro que a levaria à prisão de Moabit, no centro de Berlim. Antes de chegar à porta giratória, um soldado destaca-se da pequena multidão enfurecida e a golpeia na cabeça com a coronha do rifle. Cai no piso acarpetado, sem emitir um único som.

O soldado atinge-a novamente, agora na têmpora. O sangue escorria, da boca e do nariz. O militar foi impedido de novo ataque. Foi levantada do chão, um dos sapatos soltou-se do pé, um militar o levou como troféu. Foi posta no assento traseiro do carro, entre dois soldados.

O carro não andou nem cem metros. O tiro foi ouvido no hotel. “Com toda probabilidade quem o disparou foi o tenente Vogel, de pé no estribo do automóvel”, conforme a biógrafa Elzbieta Ettinger. O militar tirou a arma do coldre, apontou para a cabeça de Rosa e puxou o gatilho. O revólver só disparou na segunda tentativa. A bala atravessou a têmpora esquerda. Um estremecimento, apenas um, e ela restou inerte. Um dos militares jogou um cobertor sobre sua cabeça.

É jogada no canal de Landwehr. Um dos militares ainda comentou:

– Agora, a piranha velha está nadando.

O corpo, só encontrado no dia 31 de maio, enterrado no dia 13 de junho, levado por uma apaixonada multidão ao cemitério de Friedrichsfelde, na mesma Berlim.

Havia terror das forças contrarrevolucionárias em Berlim diante da revolução espartaquista, Rosa, a principal dirigente. No dia anterior, 14 de janeiro, Rosa escrevera seu último texto, com o sugestivo título de “A ordem reina em Berlim”, publicado no Bandeira Vermelha, publicação do Partido Comunista da Alemanha, fundado por ela e Karl Liebknecht no final de 1918.

Fora seu último grito em favor da revolução socialista, consciente da derrota daquela empreitada, mas confiante da continuidade da caminhada da luta do proletariado em direção ao socialismo.

“A revolução é a única forma de ‘guerra’ onde a vitória final não poderá ser obtida senão através de uma série de ‘derrotas’. E esta é precisamente uma das leis do processo revolucionário.” As palavras são dela,estão em “A ordem reina em Berlim”.

Acreditava nisso.

Os espartaquistas não quiseram recuar. Ela tinha consciência da impossibilidade da vitória. Mas, ao mesmo tempo, não iria abandoná-los.

A revolução, pensava, e sobre isso escrevera no seu último texto, a revolução não tem facilidades, não tem comodidade, não atua ao seu bel prazer, como se seguisse com exatidão um plano sabiamente estruturado por estratégias sábias.

Os adversários também têm sua própria iniciativa.

E por regra geral, os adversários a exerciam com muito mais frequência que a própria revolução. E o fazem com toda violência, de modo a aniquilar o quanto possam as movimentações revolucionárias da classe operária. Não hesitam.

Experimentava isso na própria pele agora, mais uma vez. Havia uma singularidade naquela conjuntura: a atmosfera de ódio contra ela e seus companheiros espartaquistas nunca fora tão violenta, nunca vira tanta sede de sangue por parte dos esquadrões da contrarrevolução.

Os adversários agem. Com toda violência.

Será Leo Jogiches, amor de toda a vida, revolucionário dedicado e corajoso, a publicar a verdade sobre o assassinato dela e de Karl Liebknecht, no Bandeira Vermelha, no dia 12 de fevereiro de 1919. Fora aconselhado a sair de Berlim por seus companheiros. Não saiu. Impôs-se a tarefa de revelar os assassinatos, e o fez. No início de março, é preso e trucidado, assassinado pela repressão alemã.

Rosa não pôde ver ou saber da morte de seu companheiro de militância, Karl Liebknecht. Fora levado em outro carro.

O motorista da escolta parou no Parque Tiergarten, o pulmão verde de Berlim. O carro enfrentava problemas – disse. Os soldados ordenaram a Liebknecht:

– Siga a pé.

Recebeu vários tiros pelas costas depois de dar alguns passos. O relatório oficial registrou tentativa de fuga. Por isso, o mataram. Assim agem os adversários da revolução. Sempre. Lembram-se da ditadura no Brasil?

Volto à carta para Sônia Liebknecht, mulher de Karl Liebknecht, de 2 de maio de 1917.

Não, Rosa não era uma só. Era muitas.

Nessa carta, confessa: por vezes tinha o sentimento de não ser um verdadeiro ser humano. Talvez um pássaro ou um animal qualquer que houvesse tomado a figura humana.

No fundo da alma, interiormente, sentia-se muito mais em casa num pequeno pedaço de jardim ou num campo, estendida sobre a erva, cercada de zangões.

Muito mais isso do que num congresso do partido.

A ela, Sônia, sua companheira, amiga querida, podia dizer isso sem quaisquer receios. Não teria dela a suspeita de ser uma traidora do socialismo. Verdade, esperava morrer na luta.

“Mas em meu foro interior, pertenço mais aos canários do que a meus ‘camaradas’.”

Rosa, com fina sensibilidade, revela-se apaixonada amante da natureza.

Na prisão, lia antes de tudo, livros de ciências naturais: geografia botânica e zoológica. Está na mesma carta essa revelação.

No dia anterior à carta, havia lido um livro sobre a causa do desaparecimento dos pássaros cantadores na Alemanha. A cultura de florestas, de jardins e de terras, que se estendia e se racionalizava cada vez mais, tirava daqueles pássaros todas as possibilidades naturais de fazerem seus ninhos e procurarem sua comida.

Aquela prática na relação com a natureza faz desaparecer as árvores ocas, as terras sem plantação, os matos, as folhas secas caídas na terra.

“Não é que me inquieto com o canto dos pássaros pela alegria que dele os homens tiram, mas é a própria ideia de um desaparecimento silencioso e inevitável destes pequenos seres sem defesa que me causa pesar a ponto de me deixar com lágrimas nos olhos.”

Por isso, compreensível ela dizer, insista-se:

“Pertenço mais aos canários do que a meus camaradas”.

Numa carta a Leo Jogiches, a quem chamava Dyodyo, não esconde seus desejos, sonhos de mulher.Está na introdução à seleção de cartas, na biografia escrita por Luiz Pilla Vares, página 242.

Delírios pequenos burgueses em meio ao vendaval da Revolução?

Para Jogiches, sim.

Não compartilhava com nada disso. Tipo durão, inflexível. Nada de casamento, nada de morar junto, nada de filho.

Isso a fazia sofrer muito. Ela não se escondia. Sonhava com as pequenas coisas da vida. E não temia revelar seus sonhos, delírios, chamassem como quisessem.

“Nosso pequeno apartamento, nossa mobília, nossa biblioteca; trabalho tranquilo e regular, passeios a dois, uma ópera de tempos em tempos, um pequeno, bem pequeno, círculo de amigos que podem algumas vezes ser convidados para jantar; todos os anos férias no campo, um mês sem nenhum trabalho!”

Ter um filho, por que não?

“Não poderemos, nunca? Nunca? Dyodyo, sabe o que me aconteceu de repente durante um passeio pelo Tiergarten? Sem exagero! De repente, uma criancinha, de três ou quatro anos, loura, bem-vestida, se plantou na minha frente, a me olhar. Invadiu-me uma compulsão de raptar a criança, fugir para casa e guardá-la para mim.”
Quase um grito ao final:
“Dyodyo, será que nunca terei um bebê?”

Na revista Teoria e Debate

Referências bibliográficas

ETTINGER, Elzbieta. Rosa Luxemburgo – uma Vida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1989, 345p.
GARCIA, Marco Aurélio. “A experiência da derrota”. Folha de S. Paulo, Jornal de Resenhas, 7/8/1995, p. 12.
GERAS, Norman. A Atualidade de Rosa Luxemburgo. Lisboa: Edições Antídoto, 1978, 235p.
GIETINGER, Klaus. O homem que matou Rosa Luxemburgo. Jacobin Brasil, 17/1/2020.
LOUREIRO, Isabel Maria. Rosa Luxemburg: os Dilemas da Ação Revolucionária. São Paulo: Editora Unesp; Editora Fundação Perseu Abramo, 2004.
VARES, Luiz Pilla. Rosa, a Vermelha: Vida e Obra de Rosa Luxemburgo. São Paulo: Busca Vida, 1988, 281p

 PS do colaborador:

Fotoarte: “Rosa para Rosa”

 

 

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