Publicado en: 6 enero, 2019

Brasil-Debate. Autocrítica

Por Gustavo Conde

A esquerda, no fundo, acabou comprando de barato a demanda por autocrítica que a direita ultraconservadora lhe aponta há anos.

 

 

 

 

A autocrítica da autocrítica

 

Cuidado com a interpretação facilitada de “desvio de foco”. De repente, tudo virou “desvio de foco”. Claro que, em um governo como o de Jair Bolsonaro, tudo parece ser “desvio de foco”, até porque o foco deles não está no país nem em seus problemas reais.

O governo Bolsonaro todo é, em si, um “desvio de foco”.

Mas, dentro deste escopo, declarações bizarras de ministros, como a da ministra Damares Alves sobre “meninos e meninas” não são “desvio de foco”. São extremamente significativas e estampam a sub política sem imaginação do novo governo. Elas são foco, foco temático da “falta de temas”.

Essas pílulas reativas do anti-bolsonarismo (arrisco a estrear esse conceito), campo no qual me incluo, excessivamente prescritivas, acabam funcionando como vetores de paralisia.

É preciso “sentir” a política, não tratá-la como um paper científico. A reações sobre as declarações de Damares, de Ernesto Araújo, de Velez Rodrigues, do próprio hors-concours Bolsonaro são importantes, mobilizam, esclarecem e combatem o combate político básico.

Talvez, seja a hora de ponderar sobre o excesso de autocrítica. A esquerda, no fundo, acabou comprando de barato a demanda por autocrítica que a direita ultraconservadora lhe aponta há anos. Esquerdista tem tara por autocrítica (e este texto é uma autocrítica, a autocrítica da autocrítica).

Em condições normais de temperatura e pressão (condições com ‘democracia’, por exemplo), a autocrítica exagerada é fundamental. Ela ilumina.

Mas nessa situação de violência retórica, ela é paralisante.

É preciso confiar mais na intuição do que nas prescrições. Lula é assim não porque ele é especial. É simplesmente porque ele confia na coletividade e na capacidade que todo e qualquer cidadão tem de formular saídas para crises e encurralamentos históricos.

Todos nós temos essa capacidade, basta exercê-la. Intuição também se “treina”.

O volume de violações e imbecilidade que estão sendo enunciadas pelo bolsonarismo, portanto, é combustível relevante para uma síntese reativa que se qualifique, de posse de sua legitimidade histórica e política.

Em outras palavras: a massa discursiva de absurdidades do grupo que chega ao poder pode ser seu “escudo” ideológico, mas também pode ser seu calcanhar de Aquiles.

A semiótica tensiva, teoria da significações que permeiam o discurso, pode esclarecer algo a respeito das percepções políticas do presente. Para esse campo do conhecimento, tudo é uma questão de “tempo”. É, ademais, sintomático que este enunciado, “tudo é uma questão de tempo”, tenha tanto uma emergência popular quanto teórica – isso afiança seu caráter de “validade” e de conexão com a realidade.

De posse dessa teoria, é possível dizer que o gestos, ações e reações retórico-discursivos da oposição demandam “tempo” para serem devidamente processados e consolidados enquanto sentidos políticos e históricos.

Há, na verdade, uma fobia ao tempo, que tem paralisado a resposta política ao bolsonarismo. Quer-se tudo na hora, em movimento infantil similar ao próprio bolsonarismo. Se uma ação não parece funcionar, abandona-se-a imediatamente – para colocar outra igualmente fadada ao mesmo suposto fracasso em seu lugar, assim, em um processo sem fim (a negação do tempo, mais uma vez).

Esse domínio do “tempo do discurso” tem muito mais chance de ser alcançado com a intuição histórica do que de movimentos impregnados de “estrategismos”. E é paradoxal mesmo que eu invoque uma teoria para defender o abandono das teorias no campo político presente. Faz parte das armadilhas da linguagem e do discurso, em sua produção embaralhada de sentido.

A tese aqui subscrita é relativamente singela: quando os discursos (e a sociedade) estão fortemente desorganizados, não há força subjetiva (individual, programática) que possa reorganizá-los. Nesses casos, eles são tomados por uma força espontânea de reorganização discursiva e histórica. Traduzindo: o debate franco e espontâneo tem mais chances de re-estabelecer algum tipo de lógica político-social do que os ímpetos de controle técnico.

É aí que entra a intuição – mas não uma intuição errática, transcendental e sim uma intuição discursiva, social: os enunciados que somos capazes de produzir diante de tal configuração caótica do discurso agem espontaneamente como elementos de reorganização. Eles seguem uma lógica “coletiva” de produção de sentido, justamente, porque são aparentemente “irrefreáveis”, “irrefletidos”.

O detalhe deste processo é justamente o tempo. É preciso permitir que o tempo aja na codificação dos discursos e enunciados para que eles tomem novamente consistência histórica e política (perdida com o bolsonarismo, que nega o sentido e a história, basicamente).

Esse movimento – que Bakhtin chamaria de “responsivo” – se projeta naquilo que chamamos de “paixão política”. É preciso fazer política com paixão, caso contrário o imobilismo tecnicista toma conta dos sujeitos e dos enunciados.

É nesse contexto que também entra a onipresença política de Lula. Lula é o sujeito histórico que criou condições de “furar” certas tendências ‘normativizantes’ do discurso e, ao mesmo tempo, “sentir” o momento e fazer uso de sua imensa intuição (que é uma intuição “trabalhada”, “elaborada”, “social”, “coletiva”).

O grande “pulo do gato” é “sentir” para onde o universo do discurso social nos leva e seguir essa tendência, sem deixar de elaborar os sentidos adicionais, seja com frases de efeito, seja com “palavras de ordem”, seja com teses insinuantes.

Essa é a origem de toda e qualquer força política: a sensibilidade para se sentir aonde o mundo da linguagem e do discurso nos leva, ao mesmo tempo dentro de uma ação planejada delicada (sutil) e paciente (que respeite os tempos do sentido social e do sentido histórico).

Em suma: a paixão política nunca foi tão necessária (aliás, a palavra paixão tem cifras tensivas temporais, porque ela tem em sua etimologia o sentido de sofrimento, de percurso gradativo: a “paixão de Cristo”). Só o sentimento devidamente exposto com toda a sua verdade histórica é que pode superar esse ciclo de aberrações enunciativas que ‘barram’ o sentido e ‘represam’ o tempo.

Ainda há tempo para se fazer isso.

 

* Gustavo Conde é linguista, colunista do 247 e apresentador do Programa Pocket Show da Resistência Democrática pela TV 247.

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https://www.brasil247.com/pt/colunistas/gustavoconde/379320/A-autocrítica-da-autocrítica.htm

 


PS do colaborador:

Rosa Luxemburgo expôs certa vez que:

“Sem dúvida, não existe outro partido para o qual a crítica livre e incansável de seus próprios defeitos seja, tanto quanto para a social-democracia, uma condição de existência. Como devemos progredir na medida da evolução social, a contínua modificação de nossos métodos de luta e, por conseguinte, a crítica incessante de nosso patrimônio teórico, representam as condições de nossa existência. Pertence, entretanto, à sua natureza, que a autocrítica em nosso partido não atinja seu objetivo de servir ao progresso, e só poderíamos nos felicitar muito se ela se move na direção de nossa luta… Qualquer crítica que contribua para tornar mais vigorosa e consciente nossa luta de classe para a realização de nosso objetivo final merece nosso agradecimento. Mas uma crítica procurando retroceder nosso movimento, fazê-lo abandonar a luta de classe e o objetivo final – uma tal crítica, longe de ser um fator de progresso, só seria um fermento de decomposição”. 

Fotoarte: “Lula e Rosa”

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