BRASIL | Da farsa da abolição a farsa do combate ao coronavírus: O genocídio prossegue e barricadas se erguem

"A gente nasceu alvo. A gente nasceu alvo. João Pedro foi ontem. Eles são genocida e nós somos alvo do estado, mano! Nós é preto mano" (integrante da Frente CDD, após execução de jovem durante a entrega de cestas básicas)

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Este texto é resultado de longas conversas que tive com um companheiro de luta, que hoje se encontra na linha de frente da auto-organização comunitária durante a pandemia, em uma comunidade que morei, que se encontra frustrado com a inércia da política nacional frente a um governo declaradamente genocida. A seu pedido, resolvi desenvolver alguns pontos da nossa conversa no papel. Logo, o texto é composto por reflexões individuais, e não de uma organização politica, desta forma se torna limitado, porém possui a função que é tentar dialogar com as realidades enfrentadas pelos militantes periféricos e todos aqueles que se arriscam em tempos de pandemia, lutando ombro a ombro com os setores socialmente marginalizados. Espero que os elementos que trago possam contribuir e dar ânimo a caminhada desses camaradas. Avante!


Em tempos de distanciamento social, o genocídio segue a todo vapor na floresta, no campo e nas cidades. Seja pelas mãos do garimpo, latifúndio, polícia ou pela nova arma de extermínio chamada coronavírus. O dia 13 de maio, diferentemente do dia 20 de novembro, vem sendo a data em que as agrupações negras denunciam a farsa da abolição, mas nesse ano ganhou um tom de marcha fúnebre devido ao cheiro de morte que se espalha pelas periferias. Porém, não é o vírus covid-19 que condena os negros estadunidenses a morte, que mata os setores marginalizados no Brasil ou que mata os profissionais da saúde, o vírus que impõe tudo isso, é o capitalismo com o seu racismo estrutural e a sua lei de exploração. Um sistema que permite em plena epidemia a invasão de casas, espancamento de trabalhadores, e que torturou e executou 13 jovens negros[1], como ocorridos nessa ultima sexta-feira no Complexo do Alemão, ou que permitiu pai e filho brancos perseguirem de carro e abaterem um jovem negro[2] como se fosse um animal, como ocorreu nos Estados Unidos, é um sistema que não tem nada a oferecer para os afrodescendentes a não ser superexploração e a morte. Logo, não foi por consequência do vírus, mas sim devido a política genocida do Estado e capital, que o menino João Pedro[3] de 14 anos perdeu sua vida, nesta segunda em São Gonçalo, quando a sua quarentena foi quebrada por policiais que invadiram a sua casa, e o balearam na barriga e sumiram com seu corpo por 16 horas.

Porém, nem tudo é desgraça na pandemia, um ganho positivo foi a ativação do espírito tribal de sobrevivência chamado coletivismo. Porém, esse espírito tão grandioso, que hoje ganha espaço até mesmo nos discursos diários da mídia burguesa, se encontra atualmente limitado ao plano de uma consciência humanitária e que sem recorte de classe se torna ferramenta de desencargo de consciência moral. A combinação entre pandemia, sistema de saúde sucateado, governo assassino, oposição parlamentar quase nula e uma esquerda socialista que majoritariamente se limita a torcer pela queda do presidente genocida, revela, em tempos de coronavírus, sofrimento e morte como o único horizonte possível para as populações historicamente marginalizadas, caso não haja resistência.

Por mais que números significativos de militantes sociais, oriundos das camadas médias, tentem de maneira sincera contribuir para que os setores marginalizados possam ter condições materiais de permanecerem em “segurança” nas suas casas. Existe a problemática em que o que significa ser segurança para uns, pode significar insegurança e risco existencial para outros. As contradições raciais e de classe impõe necessidades e remédios diferentes para cada fração da classe trabalhadora e não seria diferente em tempos de pandemia, quando uns batem panelas, uns montam barricadas e outros simplesmente cruzam os braços. Pois as condições materiais impõem formas diferentes de lidar com as questões potencializadas pela pandemia e distintos também são os meios de como sobreviver a crise, o que desta forma impõe graus de risco diferentes a serem assumidos por cada setor. Exemplo prático: O senso comum do cidadão mediano tende a idealizar ações de solidariedade como um trampo tranquilo e gratificante devido a ter sua subjetividade permeada pelo humanismo burguês, mas muitas vezes é influenciado por alguma experiência empírica em que a tranquilidade do seu trampo foi garantida, não só pela gratidão da comunidade, mais principalmente pelos marcadores sociais de raça e classe que o individuo carrega. Porém muitos deles sabem como é falsa essa idealização, mas para trazer uma pequena amostra realidade e os riscos enfrentados por quem se mobiliza hoje nas quebradas, peço que assistam o vídeo (de 47 segundos) deste link antes prosseguirem com a leitura: https://www.osaogoncalo.com.br/seguranca-publica/82550/dois-dias-apos-morte-de-joao-pedro-jovem-e-morto-durante-entrega-de-cestas-basicas-na-cidade-de-deus-veja-o-video  .

Ataques em Tempos de Pandemia

 Neste mês de aniversário da farsa abolicionista, os descendentes de homens e mulheres escravizados(as) — que representam a maioria da população — são as principais vítimas de uma nova tragédia coletiva, tragédia essa que está somente no início e por isso necessitam do maior número de braços possíveis dentro e fora das comunidades. Pois se já não bastasse, em plena pandemia, o povo trabalhador ter que enterrar seus mortos ao som das piadas e gargalhadas do presidente e de seus partidários, a população negra e periférica ainda tem que enfrentar filas infinitas em busca de um auxílio migalha, que não chega para a massa que necessita. E, não só, ainda sofre ações de despejo como a promovida pelo governo Dória contra as 50 famílias da comunidade Taquaral em Piracicaba[4], a tentativa de reintegração de posse contra as 57 famílias da ocupação Nova Coruja em Pelotas, por parte do governo Eduardo Leite[5], ou o despejo de Araucária no Paraná, das famílias da comunidade Santa Cruz no dia 25/04, no qual diversas pessoas ficaram feridas, e o o auxílio médico demorou cerca de 40 minutos até chegar ao local, ação essa que a Guarda Municipal de Araucária classificou como inevitável[6]. Há os que precisam enfrentar as filas da morte para conseguir acesso a respiradores nos hospitais públicos, ou encarar a tristeza em ver seus parentes doentes e sob custódia do Estado, serem jogados a deus-dará em contêineres nas unidades prisionais por todo o Brasil[7], ou, expostos ao vírus, amontoados em celas. Suportar os abusos de autoridade, como o jovem espancado por um policial ao cobrar deste o uso da máscara[8], ou ainda sofrer violência policial dentro da própria casa, como no caso da mulher que teve sua residência invadida e seu aparelho de som quebrado a chutes por policiais militares em Miguel Calmon, na Bahia[9], ou enfartar e morrer após ver seu marido ser acusado injustamente de furto, agredido e chamado de “nego sem vergonha”, como ocorreu com uma idosa em um hospital de Gravataí, no Rio Grande do Sul[10]. Os trabalhadores agonizando, especificamente os setores marginalizados, estão sendo obrigados, de forma literal, a cavarem suas próprias covas coletivas, como ocorreu no Amazonas[11].

Na pandemia não só a humilhação diária contínua, como também prossegue o genocídio da população negra e periférica, são casos e casos que ficam em segundo plano devido à pandemia. A notícia que ficou mais em evidência, não por acaso, foi o caso do corretor de imóveis – branco – assassinado covardemente a tiros de fuzil pela PM do Rio de Janeiro[12]. Entretanto, são inúmeros os casos que não ganharam repercussão: o ambulante David Nascimento foi sequestrado pela PM na porta de casa enquanto esperava uma entrega do ifood, posteriormente torturado e executado, no dia 24/04, na Zona Leste de São Paulo[13]; outro exemplo é o caso das duas “operações” da Polícia Militar carioca, com o objetivo de “proibir um evento”, que resultaram em 8 mortos na Vila Kennedy, em Bangu, Zona Oeste do Rio, todos jovens negros entre 18 e 28 anos[14]; já em Florianópolis, moradores do Morro do Mocotó bloquearam as principais vias de acesso ao centro com barricadas no dia 28/04, em protesto contra a morte de 3 moradores durante operações policiais e hoje vivem sob ameaças[15]. Todos os casos citados ilustram um drama racial e periférico que não é contabilizado na curva epidemiológica e não gera tanta empatia quanto a pandemia, mas que, assim como o vírus, mata dia após dia a população mais vulnerável: e esta possui cor e CEP.

Necessidade de Resistência x Distanciamento Social

Atualmente, o vírus, que chegou de voo internacional e teve como primeiros infectados as camadas médias da sociedade, já se disseminou pela periferia através da relação empregado X empregador[16], ou seja, os primeiros a serem contaminados eram parte do contingente de empregadas domésticas, porteiros e demais trabalhadores que prestavam serviços de forma direta e indireta para quem trouxe consigo o vírus do exterior. Para além de o diagnóstico ser mais lento de acordo com o CEP, o Brasil possui milhões de pessoas sem acesso diário ao abastecimento de água, as quais dividem espaços minúsculos de moradia, sem ventilação com suas famílias, e conta com uma massa de 41,4% de trabalhadores na informalidade. Desta forma, se torna quase impossível a adesão aos métodos preventivos de higienização e principalmente ao distanciamento social, sem haver políticas eficazes de assistência. Sem elas, milhares vão sendo empurrados para a morte. E surge a problemática de como evitar um desastre ainda maior tendo um presidente genocida no poder?

A pandemia gerou um efeito de paralisação, tanto em nível econômico, quanto na dinâmica dos movimentos sociais, devido à necessidade objetiva que impõe o distanciamento social, assim limitando a capacidade de resposta de todas as frações da classe trabalhadora. Mesmo assim, existem tentativas de resposta. Forças sociais proletárias e também as burguesas vêm atuando cada uma de acordo com suas tradições e interesses, seja via solidariedade de classe, por meio de ações de apoio mútuo[17], ou através da “caridade” burguesa. Tais ações, até mesmo as migalhas dadas pelos grandes conglomerados empresariais em forma de “caridade”, são importantes e necessárias para remediar a subsistência dos milhões de vulneráveis nesse momento de crise. Porém, apesar de tão necessárias, são tão insuficientes como usar baldes de água para apagar um incêndio de grande proporção quando simultaneamente, do outro lado da floresta, helicópteros contratados por latifundiários jogam milhares de litros de gasolina sob as chamas. Logo, numa situação hipotética como esta, a materialidade impõe a necessidade da derrubada dos helicópteros ou a sua neutralização, os impedindo de decolarem, e todas as saídas não são possíveis sem procedimentos de segurança ou sem assumir os riscos impostos pela materialidade. Então logo é necessário avaliar e trabalhar para construir condições materiais para alcançar o objetivo.

A Sabotagem Governamental

 Na atual conjuntura, o governo Bolsonaro não só se tornou um obstáculo institucional para o desenvolvimento de uma estratégia global eficaz para o controle da pandemia no território nacional, como também dificulta as ações coordenadas entre os diferentes níveis de governos. Hoje o governo federal vem atuando ativamente para sabotar as políticas pró-distanciamento social, seja convocando protestos, seja decretando que academias e salões de beleza são serviços essenciais, ou enrolando para aprovar a ajuda financeira aos estados e municípios da federação[18], mas, principalmente dificultando o acesso aos míseros reais do auxílio emergencial e assim forçando os setores marginalizados a retornarem aos seus postos de trabalho[19]. Esta última ação de sabotagem se mostrou verdadeira quando, nessa semana, explodiu a notícia de que cerca de 190 mil militares receberam indevidamente o auxílio emergencial, quando mais de 3 milhões de contemplados ainda nem conseguiram mexer no dinheiro do auxílio e outras dezenas de milhões continuam na fila[20]. Como efeito da ação do governo federal para sabotar as políticas pró-distanciamento, ocorreu a morte da funcionária do hipermercado Condor em Araucária/PR, por decorrência de um empresário da cidade vizinha, que queria entrar no hipermercado sem estar utilizando máscara[21], muito provavelmente influenciado por discursos obscurantistas.

O governo Bolsonaro usa como meio de sabotagem a velha tática da operação tartaruga[22], trabalhando lentamente no combate a pandemia, para dificultar cada vez mais a subsistência da população e assim forçar o abandono progressivo do distanciamento social. Assim, o governo de quebra joga a batata quente nas mãos dos governos estaduais, que por sua vez jogam para os prefeitos, e estes últimos acabam em maioria cedendo e flexibilizando o distanciamento para não perderem apoio empresarial nas eleições municipais deste ano, e por fim jogam a culpa da pouca adesão na falta de consciência individual. Desta forma, o maior problema não é o negacionismo científico[23] por parte do presidente e da direita no poder, mas sim, seu objetivo claramente genocida em “sacrificar” os setores marginalizados historicamente, em prol de uma impossível retomada econômica imediata. O único negacionismo com o qual devemos nos preocupar é o nosso próprio, o negacionismo de esquerda, que tomou conta das organizações do povo, que se negam a enfrentar a realidade de que estamos em uma sinuca de bico que obriga, de forma inevitável, a classe trabalhadora organizada a assumir riscos ou simplesmente se limitar a bater panela, fazer “atos virtuais” e que continuando assim só pode esperar para assistir as pilhas de corpos de suas janelas.

Negacionismo de Esquerda

 Por mais que parte significativa da esquerda se apegue a uma esperança abstrata, alimentada pela tela da TV, de uma possível queda do presidente genocida, algo que não é impossível, mas esta esperança é de fato limitada e, de qualquer forma, gera um processo demorado que possui outros desdobramentos, como Mourão no poder e o início de uma nova novela a qual o povo trabalhador agonizando não pode esperar ou muito menos depender para se manter vivo.

É a partir dessa aposta em uma virada institucional, somada ao temor fundamentado que o vírus trouxe, que a esquerda vem se negando a reconhecer duas realidades gritantes. A primeira realidade negada, é que o isolamento social não está funcionando nem mesmo nas poucas cidades que estabeleceram lockdown[24], pois mesmo comprovado cientificamente ser a melhor alternativa, necessita ter viabilidade na materialidade, o que hoje no Brasil é impossível graças a sabotagem realizada pelo governo federal e as flexibilizações concedidas ao empresariado por parte de prefeitos e governadores com medo de perderem apoio eleitoral de parte do empresariado local ou mesmo por pura cumplicidade genocida. A segunda realidade negada, é que por mais que as ações de solidariedade sejam necessárias e importantes nesse momento, como já foi dito aqui, o fato é que para garantir uma política eficaz de distanciamento social (garantidora da sobrevivência coletiva), hoje a materialidade impõe, contraditoriamente, para a classe trabalhadora as ruas como única alternativa possível para pressionar o governo federal, o congresso, os governos estaduais e as prefeituras a atuarem de forma efetiva para o controle da pandemia, da mesma forma que a lentidão proposital do governo força parte das frações da classe trabalhadora a saírem para as ruas, para retornarem aos seus postos de trabalho.

A não implementação efetiva das medidas parciais de distanciamento social, ou seja, articuladas localmente, regionalmente e nacionalmente, de um lado significa um prolongamento do sofrimento popular, pois à medida que se obtenha controle da pandemia em determinada região e em outras não, o risco de retorno de contaminação em massa é eminente devido ao transito necessário entre estados (circulação de mercadoria, mão-de-obra, turismo, etc.), a pandemia não será contida sem articulação nacional entre os governos. De outro lado levará ao aprofundamento de uma crise econômica em que o preço será jogado nas costas da classe trabalhadora, sobretudo dos setores marginalizados, através de mais superexploração, repressão e miséria. Sendo assim, quanto mais tempo os trabalhadores ficarem a mercê da displicência e sabotagens de um governo genocida ou de governantes que tem como prioridade as eleições e não a vida, mais condenados à morte no presente e a miséria no futuro estaremos. Não há o que esperar da câmara, do senado ou de messias vermelhos ou verde/amarelos, pois o único motivo para não chutarem Bolsonaro, é que todos possuem acordo parcial ou total com a agenda de reformas antipopulares que ele se propõe a fazer.

Não é por acaso que no encontro fraterno entre Bolsonaro e Maia (presidente da câmara/DEM-RJ), nesta última quinta-feira, o presidente genocida afirmou que está tudo tranquilo entre os dois namorados e que possuem como elo interesses comuns em reformas a serem aprovadas com urgência[25]. Na mesma ocasião Maia fez questão de acalmar Bolsonaro dando sua palavra de que não precisa se preocupar com a sua indicação do deputado Orlando Silva (Partido Comunista do Brasil-SP) para relator da MP 936, que flexibiliza contratos de trabalho, afirmando: “Todas as matérias que ele relatou na Câmara, na minha presidência, foram aprovadas por unanimidade. Pode ter certeza de que é um grande relator e vai fazer um grande trabalho na MP 936”, garantiu Maia[26].

Da mesma forma que Bolsonaro não enfrenta oposição contundente por parte da direita tradicional, também não enfrenta oposição contundente por parte da esquerda institucional, nem mesmo através da propaganda, reflexo disso foi a adesão demorada de partidos como PT e PSOL a campanha Fora Bolsonaro e o atual estado de timidez da campanha[27]. Para, além disso, as celebridades da esquerda aparecem somente para denunciar os absurdos diários do governo e mesmo com audiência garantida se furtam da oportunidade de agitarem os ânimos das massas. Já a celebridade maior da esquerda institucional, Luiz Inácio Lula da Silva, parece ter entrado numa caverna da onde sai de vez em quando para elogiar Dória ou dividir palanque virtual com FHC e Rodrigo Maia no 1° de Maio das centrais[28]. Já o 1° de Maio das centrais demonstrou, que apesar das dezenas de milhões arrecadados em 2019[29], não possuem nem uma alternativa para além da luta institucional ou alianças com inimigos históricos dos trabalhadores[30]. O fato das centrais e dos partidos da esquerda institucional estarem afundados na institucionalidade burguesa gerou uma situação inusitada, hoje as vozes ativas contra o governo “fascista”  vão desde youtubers como o “ex-golpista” Felipe Neto aos repórteres da Rede Globo “golpista” que hoje são vítimas da verborragia e violências físicas protagonizadas pela militância bolsonarista[ 31].

Mesmo sem uma real oposição parlamentar e sem o perigo das ruas, o governo Bolsonaro definha lentamente, graças às crises internas geradas pela ingerência do próprio presidente. Porém, as mortes avançam a galopes por todo o país e já passam 16 mil em números oficiais, ou seja, não são os números reais. A única forma de evitar uma tragédia ainda maior é aliando as ações de apoio mútuo existentes à construção de uma saída através das ruas da maneira mais segura e incisiva possível, aproveitando assim tanto a momentânea oposição da mídia burguesa ao governo Bolsonaro, quanto o divisionismo de posições da burguesia (expressado nas posições dos governadores) frente às medidas restritivas, como também de ser aproveitado o medo dos partidos de sofrerem desgaste político em ano eleitoral. O próprio presidente expressou em entrevista o temor com a possibilidade de revoltas populares, em entrevista na frente do Palácio da Alvorada, no dia 05 de maio, após a famosa audiência surpresa com empresários e com o presidente do Supremo[32].

O governo sabe que a forma mais eficiente de conservar a “ordem” é mantendo a oposição mansa e neutralizada. Bolsonaro pode ser um idiota, mas não burro, ou pelo menos é um burro bem assessorado pelos militares. Pois no dia 14/05, na reunião com Maia, quando afirmou que “tem várias reformas que podem ser potencializadas agora[33]” é porque sabe que a bandeira das reformas anti-povo é capaz de gerar uma momentânea unidade entre a mídia burguesa, o empresariado e os partidos, e desta forma consegue neutralizar a oposição desses setores, já contando de quebra com a ausência de oposição das ruas.

Barricadas se Erguem do Brasil ao Chile

Por mais que a situação seja muito complicada para ir às ruas, de norte a sul os trabalhadores começaram a dar sinal de que a paciência está se esgotando. Em Caruaru (PE) trabalhadores ergueram barricadas na BR-232 denunciando a falta de água para higienização diária[34]. Em São Gonçalo (RJ), trabalhadores informais atearam fogo em sacos de lixo e bloquearam a rua de acesso para a receita federal devido à falta de atendimento para solicitar o auxílio emergencial[35]. Em Ribeirão Preto (SP), assim como em Caruaru, moradores ergueram barricadas fechando a Avenida Renê Oliva Strang devido à falta de água[36]. Em Florianópolis (SC), moradores do Morro do Mocotó ergueram barricadas contra a violência policial[37]. Em São Paulo (SP), torcedores do Corinthians ocuparam a paulista em defesa da democracia[38]. Em Porto Alegre (RS), militantes antifascistas intervieram contra o ato em defesa da ditadura[39]. Atos como estes, entre outros, ao contrario dos realizados pelo rebanho de Bolsonaro, não se tratam de subestimar o risco de contaminação ou irresponsabilidade, mas sim que a conjuntura está empurrando dia após dias os trabalhadores a ocuparem as ruas na tentativa de garantirem a sobrevivência através da ação direta. As ações diretas de rua nesse momento, mesmo com baixa adesão, cumprem papéis importantes de resistência ativa e de agitação do ânimo popular, pois ao mesmo tempo em que cumprem papéis desde a luta por reivindicações imediatas até o enfretamento politico-ideológico contra a militância bolsonarista que sai às ruas, também se tornam um meio de propaganda pelo ato que vem ganhando visibilidade nas redes sociais e mídia burguesa. Como grande exemplo, de que atos e ações diretas de rua nesse momento, são necessários para garantir a sobrevivência das populações mais vulneráveis, temos o Chile, no qual em meio a quarentena total em sua capital, no dia 18/05 centenas de pessoas foram as ruas protestarem pela falta de comida e auxilio por parte do Estado[40], o qual poderia tornar viável o isolamento para os mais vulneráveis, porém como ocorre no Brasil e em diversas partes do mundo, muitos recorrem à quebra do isolamento para conseguirem o mínimo para a sua subsistência, pois quando o auxilio vem ainda é insulficiente, sendo asim a materialidade não possibilita o isolamento. Portanto temos um grande exemplo dos trabalhadores do Chile, que mediante a pressão material que estão sofrendo durante a pandemia, que foi agravada por restrições de saúde ou distanciamento social, pois já viviam em terríveis condições, se rebelaram e dão uma grande lição aos(as) trabalhadores(as) do mundo todo, mostrando que esse é um exemplo a ser seguido pelo proletariado mundial. Quando os governos querem salvar  bancos e os patrões, a  luta é a única salvação!

O povo trabalhador pode aprender com a ação do próprio povo em luta (indígenas, camponeses, moradores das favelas, militantes antifascistas, etc.), que a luta pela sobrevivência não pode mais esperar. Que não pode esperar que a Rede Globo, os partidos da burguesia nacional ou, até mesmo os partidos da “classe trabalhadora” irão resolver os problemas dos trabalhadores. Apesar da capacidade de mobilização nacional, são décadas de domesticação dos partidos da esquerda onde desaprenderam a pensar além da via institucional e isso somado ao temor, justificado, que o vírus trouxe, acabou por paralisá-los e dificilmente iram cuprir o papel de agitação dos ânimos das massas. Mesmo assim, sua força e importância não deve ser ignorada, já que o PT com seus 1.534.315 filiados, o PCdoB com 416.174, o PSOL com 186.661, o PSTU com 15.823 e o PCB com 12.757, formam um contingente virtual de cerca 2,5 milhões[ 41].

Fortalecimento da Solidariedade de Classe

Numa conjuntura tão adversa, receios e duvidas do que fazer são recorrentes, por isso deve-se voltar os olhos as ações que a própria classe trabalhadora realiza em tempos de pandemia. Para além de atos de rua, trabalhadores e trabalhadoras vem encampando ações de solidariedade e para isso tiveram que entender métodos para prevenir a contaminação antes de botarem a mão na massa, assim foram se multiplicando grupos por todo o país. Caso haja acirramento da guerra de classes e pipoquem ações “espontâneas” pelo Brasil, como previu Bolsonaro[42], ou melhor: como a história nos mostra, a tendência é que esses grupos existentes se tornem pontos de referencia e aglutinação em suas respectivas comunidades. Por isso é tão necessário que os militantes comprometidos com o povo negro e periférico se somem a eles para advogarem a favor da ação direta, quando esta se colocar como única alternativa para resolução de problemas imediatos em nível local.

Porém, nem todos os grupos que estão desempenhando esse trabalho nas comunidades possuem uma posição classista ou são puramente comunitários, seria o mais ideal, mas não é bem assim. Existem nos bairros e comunidades iniciativas de ONGS, partidos, igrejas, associações, etc., que mesmo com seus problemas devem ser fortalecidos. Em uma comunidade, onde há mais de uma iniciativa sendo impulsionadas por setores diferentes (ex.: uma da igreja e outra da associação de moradores) o ideal é somar o esforço militante na de maior abrangência e trabalhar para que haja unificação das ações, assim potencializando as ações de solidariedade e aumentando a diversidade de pensamento na tentativa de equilibrar a correlação de forças e também influências geradas por afinidades (ideológicas, religiosas, partidárias, bairristas, etc.). Já nas localidades onde não existem essas iniciativas se faz necessário ter a iniciativa militante e dialogar a construção com as lideranças formais e informais presentes na comunidade, desde presidente de associação à pastor. Apesar do tom de receita de bolo nesse parágrafo, somente a relação dialética entre teoria e pratica irá dizer o que realmente funciona e os melhores caminhos a serem trilhados. Além das dicas aqui contidas e das experiências históricas concreta da classe trabalhadora, existem na internet vários materiais em páginas de grupos de apoio mútuo que podem auxíliar e evitar tropeços.

Há de se ter em mente que nem todo mundo pode ou deve sair para somar nas ações de solidariedade e de ações diretas, seja por estar ou morar com alguém do grupo de risco, etc., e que nem por isso deixam de ser valiosos nesse momento de limitação da militância. Logo, se deve envolver tais pessoas, com atividades que possam desempenhar em casa, dentro ou fora das comunidades onde se dará a atuação, desde a difusão das ações via mídias sociais, como a confecção de mascaras e outros materiais necessários.

Fortalecimento das Ações Diretas

 No atual momento as ações diretas se encontram dispersas e fragmentadas pelo vasto território brasileiro, tendo alcance limitado, mas que, possibilita pequenos ganhos materiais imediatos e políticos em nível local, como por exemplo, o caso dos manifestantes que conseguiram o retorno do abastecimento de água, ou os militantes que encurralaram os manifestantes bolsonaristas na cidade de Porto Alegre. Porém é necessário que a prática das ações diretas se generalizem em cada localidade do território nacional para poderem se tornarem uma ameaça política real. Logo as ações diretas localizadas, cumprem o objetivo material de conquistar pequenas vitórias imediatas em nível local. Porém, também cumprem o objetivo de agitação ideológica quando ganham visibilidade nas mídias, desta forma podem servir para denunciar os ataques do governo e suas sabotagens contra o combate ao coronavírus; incentivar a solidariedade de classe para com os trabalhadores essenciais; encorajar a juventude, e as massas em geral, a se rebelarem; intimidar as manifestações pró-genocídio realizadas pelos grupos bolsonaristas; constranger centrais sindicais e direções dos partidos da esquerda institucional com a intenção de gerar pressão em suas bases, para quem sabe, começarem a agir. Para isso é preciso que elas sejam exploradas de forma propagandista, tanto usando a sede da mídia burguesa por noticias contra o governo, como também recrutando apoiadores capacitados, seja para registrarem nas ruas as ações ou para difundirem de suas casas.

Apesar dos setores marginalizados se mostrarem como a força social com maior potencial para desencadeamento de revoltas populares localizadas durante a pandemia, tanto por seu contingente numérico, mas também por ser o setor mais afetado e com isso possuir em tese mais interesses em jogo. Não significa, caso isso ocorra, que haverá capacidade do setor para a generalização da revolta popular de maneira suficiente para gerar o recuo da sabotagem governamental. Por isso antes de tudo, é necessário entender, que todo o trabalho militante desenvolvido durante a pandemia é pré-requesito para a criação de condições objetivas, por meio da auto-organização das massas, não só visando dar respostas para a conjuntura imediata, mas também  como preparo prévio para a crise que virá após a pandemia onde os setores marginalizados continuarão no olho do furação e tendem a aumentar numericamente.

Essa estratégia pode se demonstrar insuficiente para conseguir construir o ambiente de pressão popular necessário e frear o genocídio promovido pelo governo, porém na atual conjuntura é o mínimo possível a ser feito. Um risco que já foi assumido por homens e mulheres em diversas comunidades espalhadas pelo país, e que deve ser assumido com todo dispêndio de forças pelos setores de vanguarda. Num momento que a cada dia a morte avança sob o nosso povo. Infelizmente está se mostra como a única alternativa real em nossas mãos: OUSAR LUTAR, OUSAR VENCER!

*Por J. Nascimento. (Militante da Causa Negra)

Referencias:

[1] https://oglobo.globo.com/rio/apos-operacao-policial-que-deixou-13-mortos-moradores-do-complexo-do-alemao-relatam-tiros-na-manha-deste-sabado-24430974

[2] https://www.pragmatismopolitico.com.br/2020/05/pai-filho-jovem-negro-eua-ahmaud-arbery.html

[3] https://extra.globo.com/casos-de-policia/a-policia-interrompeu-sonho-do-meu-filho-diz-pai-de-jovem-de-14-anos-morto-tiro-em-casa-durante-operacao-em-sao-goncalo-rv1-1-24434914.html

[4] https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2020/05/despejo-piracicaba-violencia/

[5] http://reporterpopular.com.br/urgente-tentativa-de-reintegracao-de-posse-em-pelotas/7

[6] http://reporterpopular.com.br/tiro-trator-e-farda-demolicao-de-casas-ocorre-em-meio-a-pandemia-em-santa-cruz/

[7] http://g1.globo.com/globo-news/jornal-globo-news/videos/v/quarenta-e-dois-presos-sao-achados-mortos-dentro-de-cadeias-em-manaus/7647209/

[8] https://www.metropoles.com/brasil/pm-de-alagoas-agride-rapaz-apos-ser-cobrado-por-nao-estar-de-mascara-video

[9] https://www.bnews.com.br/noticias/policia/policia/267902,mulher-filma-policial-militar-quebrando-aparelho-de-som-durante-abordagem-no-norte-da-bahia-veja-video.html

[10] http://www.esquerdadiario.com.br/Idoso-negro-acusado-de-furto-e-agredido-em-hospital-e-sua-esposa-assustada-infarta-e-morre

[11] https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2020/04/27/com-falta-de-coveiros-familia-tem-que-enterrar-idoso-morto-com-suspeita-de-covid-19-em-cemiterio-de-manaus.ghtml

[12] https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/05/06/corretor-de-imoveis-e-morto-com-tiro-de-fuzil-apos-entregar-cesta-basica-no-rj.ghtml

[13] https://ponte.org/jovem-levado-pela-pm-quando-aguardava-entrega-de-comida-e-encontrado-morto/

[14] https://ponte.org/em-18-dias-duas-acoes-da-pm-na-mesma-favela-deixam-8-mortos/

[15] https://folhacidade.com.br/2020/04/28/comunidade-do-morro-do-mocoto-protesta-contra-violencia-policial-no-centro-da-capital/

[16] https://istoe.com.br/primeira-vitima-do-rj-era-domestica-e-pegou-coronavirus-da-patroa-no-leblon/

[17] http://sindscope.org.br/lutas/geral/corrente-solidaria-apoio-mutuo-da-classe-trabalhadora-para-enfrentar-a-pandemia

[18] https://folhape.com.br/politica/politica/folha-politica/2020/05/18/NWS,140933,7,459,POLITICA,2193-AINDA-SEM-SANCIONAR-SOCORRO-AOS-ESTADOS-BOLSONARO-CONVOCA-PAULO-CAMARA-GOVERNADORES-PARA-REUNIAO.aspx

[19] https://extra.globo.com/noticias/economia/mulheres-chefes-de-familia-nao-conseguem-receber-auxilio-emergencial-de-1200-24390502.html

[20] https://odia.ig.com.br/economia/2020/05/5914555-cerca-de-190-mil-militares-receberam-auxilio-emergencial-de-forma-irregular–diz-jornalista.html

[21] https://www.opopularpr.com.br/morte-de-funcionaria-do-condor-causa-comocao-nas-redes-sociais/

[22] https://www.jusbrasil.com.br/artigos/busca?q=OPERA%C3%87%C3%83O+TARTARUGA

[23] https://pt.wikipedia.org/wiki/Negacionismo_da_COVID-19

[24] http://g1.globo.com/ma/maranhao/videos/t/todos-os-videos/v/3-dia-de-lockdown-em-sao-luis-tem-ruas-cheias-em-bairros-da-periferia/8537869/

[25]  https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/05/14/interna_politica,854882/bolsonaro-diz-que-voltou-a-namorar-maia-deputado-fala-em-construir.shtml

[26] https://oglobo.globo.com/economia/mp-936-camara-quer-aval-de-sindicato-em-novos-contratos-de-corte-de-salario-maior-complemento-do-governo-24390680

[27] https://www.poder360.com.br/governo/pt-muda-discurso-e-agora-tambem-apoia-impeachment-de-bolsonaro/

[28]https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/04/03/interna_politica,842128/luladoria-rivais-doria-e-lula-trocam-elogios-nas-redes-sociais.shtml

[29] https://noticias.r7.com/brasil/contribuicao-sindical-cai-95-dois-anos-apos-reforma-trabalhista-24072019

[30] https://www.midiamax.com.br/brasil/2020/lula-fhc-dilma-maia-doria-e-witzel-devem-dividir-palanque-virtual-no-dia-do-trabalho

[31] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/05/manifestantes-pro-bolsonaro-agridem-e-ameacam-jornalistas-em-ato-no-planalto-veja-video.shtml

[32] https://valor.globo.com/politica/noticia/2020/05/05/bolsonaro-se-a-economia-nao-voltar-a-funcionar-teremos-um-problema-serio-no-brasil.ghtml

[33] https://globoplay.globo.com/v/8554869/

[34] https://interior.ne10.uol.com.br/noticias/2020/04/01/moradores-de-residencial-fecham-a-br232-em-caruaru-para-cobrar-agua-186338

[35] https://extra.globo.com/noticias/economia/auxilio-emergencial-falta-de-atendimento-para-regularizar-cpf-em-agencia-da-receita-federal-provoca-protestos-em-sao-goncalo-rv1-1-24362519.html

[36] https://www.gazetasp.com.br/estado/2020/03/1065237-moradores-de-ribeirao-preto-protestam-contra-falta-d—agua.html

[37] http://desacato.info/pm-assassina-mais-3-jovens-em-florianopolis/

[34] https://catracalivre.com.br/cidadania/corintianos-impedem-manifestacao-de-bolsonaristas-na-paulista/

[38] http://reporterpopular.com.br/antifascistas-intervem-contra-ato-que-pedia-a-volta-da-ditadura-em-porto-alegre/

[39] https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_partidos_pol%C3%ADticos_do_Brasil

[40] https://oglobo.globo.com/mundo/manifestantes-quebram-isolamento-protestam-contra-falta-de-ajuda-do-governo-no-chile-24433487

[41] https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_partidos_pol%C3%ADticos_do_Brasil

[42] https://noticias.uol.com.br/colunas/balaio-do-kotscho/2020/05/14/bolsonaro-faz-terrorismo-e-anuncia-quebradeiras-caos-saques-miseria.htm

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