Publicado en: 22 diciembre, 2015

Brasil: ‘Cunha é muito mais corvo que Lacerda’

Por Alex Solnik

Cartunista lendário conhecido ao retratar Carlos Lacerda como “O Corvo”, em 1954, Lan diz em entrevista ao Alex Solnik,que o presidente da Câmara “é muito mais corvo que o Lacerda”

Cartunista lendário que ficou nacionalmente conhecido ao retratar Carlos Lacerda como “O Corvo”, em 1954, na primeira página da “Última Hora” de Samuel Wainer, o ítalo-argentino-uruguaio-brasileiro Lan diz nessa entrevista exclusiva a 247, em seu sítio de Teresópolis (RJ) que o atual presidente da Câmara, Eduardo Cunha “é muito mais corvo que o Lacerda”.

Socialista ou anarquista de centro, como se auto define, ele conviveu com algumas celebridades mundiais, tais como Che Guevara e Evita Perón e foi um dos fundadores da agência de notícias “Prensa Latina”, de Cuba.

Apaixonado por mulatas, tanto na vida real quanto na profissional ele garante ter ficado chocado ao ver na capa de “O Globo”, em 1992, a então primeira-dama Roseane Collor retratada como presidiária por seu amigo Chico Caruso.

“Eu nunca esculhambava uma mulher” diz ele “mesmo que fosse uma filha da puta”. Ele tem críticas à presidente Dilma, mas não quer ruptura: “Não sou a favor de impeachment. Ela tem que carregar o fardo até 2018”.

ENTREVISTA

E aí, Lan, como estão os preparativos para o Natal?
Pré Natal é uma droga! É uma droga porque… pelo amor de Deus! De festa eu estou de saco cheio! Fora a grana que a gente tem que gatar em presentes. Se tem uma figura que eu detesto é o Papai Noel. O Papai Noel foi inventado para os comerciantes.

Sem dúvida, quem inventou o Papai Noel foi a Coca-Cola.
E o atraso do décimo-terceiro é uma loucura! Está todo mundo a perigo! E depois do réveillon tem uma ressaca fodida de dois, três dias.

Mas a pior ressaca vai ser a do Cunha, né?
Exatamente. A minha ressaca é de vinho, só. É a única coisa que tomo.

E o que você achou da votação de ontem do STF?
O que?

Você viu ontem a votação do STF que acabou com a farra do Cunha?
Eu… palavra de honra…eu estou com o saco cheio do Cunha! E, depois, é um jogo de empurra, é uma coisa vergonhosa! Ontem eu vi o Supremo empurrar para o Senado… a Câmara dos Deputados tinha mandado para… aliás, o Senado tinha mandado para o Supremo… o Supremo lavou as mãos e mandou para o Senado… Moral: isso tudo vai rolar meses e não vai acontecer nada! Essa é a realidade. Porque o que está sendo julgado em relação a Dilma é só o lado jurídico. Ninguém está falando que ela é ladra, entendeu? Mas ela é de uma incompetência total, o país está na merda que está graças ao governo do PT, dela e do Lula.

Mas você há de convir que o tumulto que o Cunha provocou esse ano ajudou a atrapalhar bastante. Ele não deixou governar, com o objetivo de afundar o governo e derrubar a Dilma com o impeachment. Por que? Porque com um novo governo ele tem esperança de se safar da Lava Jato.
É tudo uma droga incrível!

Ele era aliado do governo, imagina só.
Pois é.

E ele foi quem mais atacou o governo. Pior que o Lacerda! Foi o grande corvo do ano!
Não, é pior. É urubu! Claro que ele prejudicou a economia, porque desmoralizou o país, o país está devendo horrores… mas deixa para lá, não vale a pena… prefiro te desejar um bom Natal.

Lan, qual é o teu nome completo?
Lanfranco Aldo Ricardo Vaseli Cortelini Rossi Rossini.

Isso é o que? Nobreza italiana?
Não chega a ser nobreza italiana, apesar de que tem um conde na família. Vaseli. Primo do meu avô paterno. Feito conde pelo rei Emanuele Vitório III. Esse cara é uma tremenda ovelha negra da família. Ganhou o título por fazer toda a rodovia da Abissínia, mais de 3 mil quilômetros de estrada, da qual roubou simplesmente 50 centímetros de asfalto de um lado e 50 do outro. Multiplica isso por três mil quilômetros e você vai ver a grana que esse filho da puta ganhou. Fora o superfaturamento, claro! Não foram só 50 centímetros de um lado e 50 de outro.

Ou seja, não foi o Brasil que inventou a corrupção.
Mas, olha, está uma corrupção tão deslavada, tão generalizada! Você tem o caso do Cunha. O Cunha é forte ainda por que? Quanta gente está nas mãos dele?! Quantos corruptos estão ao lado dele?! Quantos corvos? O Cunha é muito mais corvo que o Lacerda!O Corvo foi uma história até engraçada. Eu era muito novo no Brasil e não entendia quase nada! O Lacerda naquela época estava culpando a polícia do Getúlio Vargas pela morte do Nestor Moreira, o jornalista de “A Noite”, que foi espancado numa delegacia de Copacabana. Na verdade, ele morreu de enfarte. Mas aproveitaram e jogaram a culpa no Getúlio. Eu estava na redação, no dia do velório do Nestor, e já estava saindo, eram oito da noite, eu tinha um encontro com uma mulata na Praça Onze…que ficava perto de um hotelzinho que eu frequentava muito…O que aconteceu? Na hora que eu estou saindo, o Dudu, que era o contínuo do Samuel Wainer, me pega na porta do elevador e diz: “O Samuel quer falar com você”. E eu: “Nem pensar! Eu já saí”. “Não, ele deu ordem de te pegar em casa”! Fui falar com o Samuel. Ele disse: “Olha, aquele filho da puta do Lacerda estava no velório todo vestido de preto fazendo demagogia com a morte do Nestor… Faz um papa-defunto, alguma coisa no gênero, algo meio sinistro”. Fui voando para minha prancheta, ia ter que mandar o desenho em quatro colunas, na primeira página. Aí pensei: faço um urubu? Mas eu não lembrava a cara do urubu. Então decidi: corvo! E fui de corvo. Fiz um corvo. Fiz o desenho em dez minutos. Cheguei ao encontro às oito e vinte.

E ela estava lá?
Graças a Deus, ela se atrasou um pouquinho. Mandei o desenho e fui para o hotel. Passei uma noite maravilhosa. No dia seguinte fiquei com aquele peso na consciência: que merda que eu fiz, fiz aquele desenho escroto, um corvo. Quando chego no jornal, às 10 da manhã, no meio da redação estava o Samuel Wainer, o Danton Coelho, presidente do PTB, o Elói Dutra e Baby Bocaiúva. Estavam os quatro ali. Quando Samuel me viu entrar, me chamou. Pensei: lá vem bronca. Aí, ele me apresenta ao Danton Coelho, Danton me dá um abraço e me diz: “Lan, parabéns, você fez uma obra prima de uma profundidade psicológica incrível porque você desencavou a alma turva desse filho da puta”! Eu digo: “Viva a mulata”! Eu nem sabia dessa profundidade psicológica… Eu matei o desenho, louco para encontrar a mulher. E o desenho marcou o Lacerda para o resto da vida!

Você botou o nome “o corvo” no desenho?
O corvo. E no dia seguinte o Paulo Silveira fez um editorial intitulado “O Corvo” que reproduziu outra vez o desenho. O Lacerda, num discurso, em Bauru, disse que o desenho só poderia ter sido feito por um espanhol safado que trabalha na “Última Hora”. O espanhol era eu! Você acredita? Quando ele se candidatou anos depois ao governo da Guanabara, a agência de publicidade que estava fazendo a campanha dele me chamou, a pedido do Lacerda, para eu, que tinha feito o símbolo negativo dele, fazer o símbolo positivo. Claro que eu recusei. Todo mundo me conhecia como o autor do corvo, eu ia fazer um beija-flor? Uma pombinha branca?

E você nunca se encontrou com o Lacerda pessoalmente?
Fiquei amigo dos filhos dele. Do Sergio, do Sebastião, da Cristina… nunca tive problemas com eles. Ao contrário: sempre foram muito gentis comigo. E, na verdade, o próprio Lacerda, por ser um puta de um jornalista que ele foi, ele usou a história a favor dele… certa vez trouxe até um corvo de Portugal de mascote. O corvo dele se chamava Vicente. No duro! O Lacerda foi o político que mais me marcou. Mas eu nunca gostei de fazer charge política. Nunca! Mas o sucesso da charge política é misterioso… quanto mais mal-humorado você está, melhor sai a charge! Eu acho que o chargista tem que ter uma carga de mau humor muito grande quando quer fazer uma caricatura. Mas nunca pode passar para a agressão.

Nem de quem você tem muita bronca?
Vou te dar um exemplo. Eu fiz tanta charge do Sarney que dava um livro! Eu fazia charges diárias dele no JB. Os amigos dele me deram uma passagem para eu ir a Brasília. Lá conversei com um ministro dele e um assessor que disseram para eu maneirar, que ele não merecia tantas críticas e olha que eu nunca avancei o sinal com o Sarney! Eu não partia para a agressão.

Quem gosta de caricatura é o Delfim Netto, não é?
O cara mais inteligente que eu fiz charge foi ele. O assessor dele me telefonava de manhã e dizia: “o Delfim quer que você esculhambe isso, isso, isso”… ele era ministro da Agricultura… “para ele depois poder reivindicar: tá vendo, tô sendo criticado por isso, por aquilo”. As ideias que ele me dava para esculhambar ele eram exatamente as minhas ideias. E passou a ministro da Fazenda. Ficamos amigos. Mas ele era tão inteligente! O Ronaldo Bôscoli é que dizia: “fale mal de mim, mas bota a fotografia ao lado”. Agora, se bota a caricatura consagra muito mais que a fotografia! Porque só se faz caricatura de quem é grande. Eu não vou fazer caricatura de um peixinho pequeno, de um vereador que ninguém conhece. Quando Delfim saiu do ministério da Fazenda eu estava num restaurante de Copacabana onde se reuniam ministros, deputados, banqueiros. Ele me chamou para a mesa dele. Perguntei para ele: do que você vai sentir mais saudade agora que deixou o ministério? Ele disse: “Do poder. Saudade do poder”.

E você tem saudade do que?
Se você me perguntar o lado político eu vou dizer o que não posso dizer porque não faço mais charge política. Tenho saudades de fazer charge política! O exército está encolhido aí, com vergonha das cagadas que fez. Essa é a verdade. Porque por muito menos fizeram a revolução contra o Jango Goulart. Agora, não sei qual é a tua posição política…

A minha posição é contra o impeachment porque não há motivo claro e definido e porque um impeachment vai afundar o país ainda mais… Dilma tem que seguir até 2018.
Eu não sou a favor de impeachment, não. Ela tem que carregar esse fardo até 18. Agora, se em 18 o PT for reeleito… olha, eu adoro o Brasil, adoro o Rio, mas, o PT de novo no poder, nem pensar. O Lula está fazendo campanha. Mas a Lava Jato está chegando a ele.

Tudo isso que aconteceu manchou a imagem da esquerda no Brasil?
Aí é que me dói! Aí é que me dói, me dói porque eu sou socialista ou anarquista de centro. Toda a minha família era de socialistas. Eu deveria estar com Lula, se ele fizesse o que prometeu na campanha. A Dilma é de uma incapacidade total! Se o brasileiro fosse um povo mais politizado já estaríamos numa guerra civil! Você acha que o Lula e o PT iam largar o osso deles? Nem pensar!

Você se filiou ao Partidão?
Já, já me cassaram. Basta dizer uma coisa: eu trabalhei na “Prensa Latina”, que era do Fidel Castro. Eu tinha uma relação à distância com o próprio Che Guevara que conheci em Buenos Aires quando ele começou a viagem por toda a América Latina. O Waltinho Moreira Salles não sabia disso senão iria me entrevistar. Eu e Che Guevara batemos grandes papos na redação do jornal onde eu trabalhava. Eu queria ir até a Sierra Maestra entrevistar o Fidel, como todo mundo estava fazendo. Não deu. Me conformei mandando charges a favor da “revolución”, é claro. Porque todo mundo esquece, falam da ditadura do Fidel, mas quem jogou Cuba nos braços da União Soviética foi aquele imbecil do Eisenhower! (Dwight D. Eisenhower, 34º presidente dos Estados Unidos.) E o bom moço do Kennedy também! Se o Fidel desse eleições livres a turma do Fulgêncio Batista compraria a eleição pagando 100 dólares a cada cubano, como compraram tantas!

Mas, Lan, me diga uma coisa: por que essa sua fixação em mulatas?
Meu caro: é uma história longa, que começa em 1929 quando chegamos ao Brasil. Meu pai era músico, tocava oboé, foi contratado pela sinfônica de São Paulo e tínhamos uma babá, chamada Zezé. Mulata. A primeira mulata. Eu criança, quatro anos, nunca tinha visto uma pessoa de cor. Se coloca na cabeça de um menino italiano que nunca viu ninguém de cor que dê repente vê uma pessoa encantadora, de um coração fantástico, de uma paciência, principalmente comigo, porque eu era meio pestinha – ela gostava muito de meu irmão, que era um anjo. A minha paixão, digamos, por ela, eu acho que eu levei a vida toda.

O que você foi fazer em Montevidéu?
Papai foi contratado pela sinfônica de Montevidéu em 1933 e me lembro, eu tinha oito anos, um professor me levou para ver um jogo no Estádio Centenário. Aí eu vi a estréia do Domingos da Guia no Nacional de Montevidéu. Fazendo um partidaço. Logo, virei torcedor do Nacional. Em 1933 ou 34, houve a luta do Joe Louis e Max Schmerling, pelo campeonato mundial de pesos-pesados. Eu estava ouvindo no rádio, com meu papai. E eu torcendo por Joe Louis, um crioulo. Meu pai me fez uma pergunta: “Como é, você está torcendo contra a tua raça?” “Eu gosto de Joe Louis” eu respondi. Eu gostei muito de meu pai numa coisa: ele respeitou a minha opinião. “Você está certo”.

Você começou a desenhar no Uruguai?
Eu estreei em 1947 no El País de Montevideu e morava entre Montevidéu e Buenos Aires. Um ano depois, uma dondoca, mulher do presidente do Country Clube de Punta Del Este quis ser a madrinha da minha primeira exposição, em Punta. Fiquei empolgado. Saí de Buenos Aires, fui direto ao Country, eram dez da noite, claro que ia me hospedar na casa dela, ela ia fazer tudo, organizar tudo…O porteiro me disse: espera um pouco, vou chamar. Passaram dez minutos, quinze, vinte e nada. Lá pras tantas aparece o marido dela, arrastando ela, deu-lhe um chute na bunda, chamando de hija de puta. O que eu ia dizer? Buenas noches, como vai? Pensei: fodeu. Acabou a minha exposição. Eu estava lá com meus quadrinhos, minha mala… Quando o porteiro falou, perguntei: Qué passo? “No, é que o marido pegou ela trepando com o diretor do teu jornal”!

Você ficou abalado?
Eu até hoje agradeço a meu pai ter herdado o espírito de independência e muita segurança, eu nunca tive problema do dia seguinte. Eu às vezes agradeço a Deus uma coisa: eu fui um cara bem tratado pela vida. Sempre tive as portas abertas. Geralmente, o trabalho sempre veio a mim, eu nunca procurei trabalho. Eu nunca ganhei tanta grana de imprensa como em Buenos Aires. Na época da Evita Perón, que era minha patroa.

Era tua patroa???
Ela era dona de toda a imprensa portenha! Eu a conheci na redação da “Noticias Gráficas” de Buenos Aires.

E como ela era?
Era baixinha, era um tipo quase mignon, não era uma grande beleza, mas era de um charme incrível… E a coisa que mais me chamou a atenção, porque eu beijei a mão dela… era a mão dela…A mão dela era uma coisa bonita, bem tratada, dedos afunilados, lindos, as unhas pintadas… E era uma mulher que tinha os dois lados: podia ser de uma crueldade extrema, era melhor tê-la como amiga do que como inimiga, porque ela aprontou muito. Agora, tinha mais poder que o próprio Perón. A única pessoa que podia derrubar o Perón era a Evita. Depois que ela morreu surgiu digamos a primeira tentativa de preparação para derrubar Perón. Derrubaram Perón três anos depois, em 55.

Quando Evita era tua patroa você desenhava o que? Não podia fazer charge do Perón…
Não, não. Eu fazia caricaturas de governadores e políticos peronistas na capa da revista “Pebete”. Tinha a “pebeta” do Lan ou seja, a garota do Lan, que eu fazia por encomenda. A Evita tinha um testa-de-ferro, que era o major Aloé, na Editorial Haynes, que era onde eu trabalhava, em cinco revistas e dois jornais. E tudo era da Evita. Na Editorial Haynes eu desenhava em “Caras y Caretas”, “Pebete”, “Mundo Argentino”, “Mundo Radial” e “Mundo Desportivo”. Em cada uma delas eu tinha salário de primeira categoria. Logo você pode imaginar a grana que eu ganhava com 23 anos, 24 anos…eu não saía dos cabarés de Buenos Aires! Aproveitei bastante a minha boemia da época.

E as vedetes?
O sofrimento meu era esse. Por uma razão: eu sabia que todas ou quase todas tinham um amante que podia ser um general, um almirante, um brigadeiro, porque os milicos já mandavam na época do Perón. Então, o major Aloé, que em matéria de boçalidade era comparável ao Costa e Silva, me chamava e dizia: “Lan, esta semana passa no Teatro Maipo e chama por…” e me dava o nome da vedete que eu tinha que olhar para depois desenhar na revista “Pebete” ou “Caras y Caretas”. “Pode ir direto para o camarim que já está avisada”. Eu ia para o camarim. A vedete me provocava: “Me ajuda a tirar o sutiã”. Eu desabotoava o sutiã. Ela virava, sacudia os seios e dizia: “Te gusta?” E eu: “Me gusta”.

A primeira mulata a gente nunca esquece? Era brasileira?
Não. Eu estava trabalhando na imprensa argentina e me mandaram para uma… tinha uma seção de teatro no jornal “Noticias Gráficas”A de Buenos Aires e o jornal me mandou receber em Montevidéu a companhia da Catherine Dunham, famosa companhia de balé. A Catherine me apresentou uma mulata, mais alta do que eu, pescoço de Modigliani, nariz aquilino, olhos verdes rasgados, amendoados, um corpo simplesmente espetacular. Bailarina. Falava um italiano perfeito e um espanhol perfeito. Italiano porque ela era eritréia, filha de mãe eritréia e pai italiano. Italiano sempre se amarrou numa crioula. Linda de morrer. Foi a primeira namorada mulata que eu tive. Enquanto a companhia esteve lá, durou três meses. Depois, me mudei para o Brasil. Quando ao cheguei ao Brasil, a minha primeira procura foi por uma mulata…E naturalmente encontrei. Mas não é só isso. Porque eu não encaro a mulata como o Sargentelli encarava, como um produto de exportação, mas sempre relacionado a sexo. Eu tenho um profundo respeito pelas mulatas e uma admiração completa… Por que? Porque ela é toda curvilínea… pernas de saracura, pernas longas que já estilizam a figura. E meu desenho é estilizado. Dentro da própria caricatura eu não procuro o grotesco, procuro a estilização. E a mulher é a minha maior fonte de inspiração, eu hoje só desenho mulher… Na época do Collor, eu fiquei arrepiado quando vi na capa do Globo o desenho da Roseane Collor vestida de presidiária, feita pelo Chico. Eu nunca esculhambava uma mulher, mesmo se fosse filha da puta.

Então não são só as mulatas?
Dizem que eu sou mulatólogo. Não – eu sou mulherólogo! Porque mulher é uma coisa fantástica. De todas as cores. Quando Deus criou as raças não foi para elas ficarem em compartimento estanque, branco com branco, preto com preto, não. Eu quando quero fazer um quadro, eu misturo as cores e aí sai um quadro muito bonito. Eu acho que Deus fez isso. Fez as cores para se misturarem. E daí surgiu a mulata, que é uma obra prima de miscigenação. A brasileira, então, atinge a perfeição, porque mistura o branca, o preto e o índio. Eu adoro a mulher brasileira.

Por que você trocou Buenos Aires pelo Rio de Janeiro?
A Evita morreu em 1952. Eu morava num apartamento joia em Buenos Aires que tinha recebido do adido cultural da embaixada da Itália, que era muito amigo do meu pai, todo mobiliado, maravilhoso. Mas em 52, quando ela morreu, eu já estava com 27 anos e por causa da carga pesada do trabalho resolvi pedir descanso de três meses. Ia passar por Montevidéu, depois Rio, depois New York, New Orleans… Los Angeles, México, Lima, Santiago. Quando cheguei ao Rio, fiquei deslumbrado. Era um dia tão bonito!. Sabe quando o Rio está sorridente? Me hospedei no Lancaster, tinha amigos argentinos que trabalhavam na “Última Hora”. No domingo fui ao Maracanã ver o jogo da seleção paulista e carioca. Infelizmente os cariocas perderam. Me chamou a atenção Baltazar, cabecinha de ouro. Segunda-feira fui cumprimentar meus ex-colegas que estavam na “Última Hora”. Me entrevistaram, pediram um desenho. Fiz o Baltazar. O Álvaro Paes Leme, que era o chefe de esportes da “Última Hora” paulista aconselhado por Jose Conrado, que foi meu colega e depois meu compadre em Buenos Aires, fez muita força com Samuel para me contratar. A proposta foi ir para São Paulo e seis meses depois para o Rio, porque ele ia lançar o semanário “Flan”.

Mas a grana no Rio era mais curta que na Argentina. Por que você topou?
Porque eu estava querendo fugir de uma mulher. Fugir propriamente não, eu não estava a fim de casar.

Tinha uma noiva argentina te esperando lá?
Tinha uma noiva pegando no meu pé. Quando eu fui contratado, a primeira demissão que me dei foi como noivo! Me demiti sumariamente como noivo.

Quem foi teu melhor patrão?
Roberto Marinho. Foi o melhor patrão deste país. Em matéria de gratidão, de lealdade com seus velhos funcionários, ninguém como ele. Realmente um pai. Vou te dar um exemplo. Meu amigo, Otelo Caçador trabalhou 30 anos n'”O Globo” fazendo a coluna Pênalti. Quando ele se aposentou, além do fundo de garantia normal que sempre foi depositado, Roberto Marinho deu para cada ano 2 mil dólares de gratificação. Ele recebeu 60 mil dólares da mão do Roberto Marinho. Já o Nascimento Brito, que foi sempre aquele pavão enfeitado era ingrato como poucos com seus funcionários e morreu tarde. O filho, o Josa, aliás, os filhos, todos incompetentes… O “Jornal do Brasil” foi se afundado… eu fui demitido com 39 anos de JB, apesar de sempre ser convidado pelo “O Globo”. Minha mulher, Olívia dizia: “Vai para o Globo”. Mas eu amava o JB. Fui demitido porque acharam que eu ganhava muito. Um ano depois eu recebi uma homenagem maravilhosa no sambódromo. No camarote do Mauricio Matos, do “Rio, Samba e Carnaval”, todo decorado com desenhos meus. Quem estava lá? O Nelson Tanure. Aí ele vem e diz: “Lan, parabéns por essa maravilha de desenhos, são realmente maravilhosos e a homenagem que o Mauricio está te prestando é mais do que merecida”. Eu olhei para a cara dele e falei: “Pois é, essa maravilha de desenhos eu fui desenhando durante 39 anos no seu jornal e a homenagem que eu recebi foi ser demitido no dia em que eu completava os 39 anos”. Ele fez um escândalo: “Não pode ser! Temos que almoçar juntos”… “Não fica preocupado, eu não fiquei desempregado, no dia seguinte eu já estava no Globo”. Aí, meu velho, sabe quando você sente a alma lavada? Foi assim que eu me senti.

Deu para você trabalhar durante a ditadura?
Médio… porque eu passei três anos fora do Brasil, porque uma vez eu peguei pesado. Uma das razões foi, primeiro: fui fundador da Prensa Latina, que era uma agência de notícias cubana; e colaborador do jornal “Revolución”, de Havana. E depois fiz uma charge, uns dez dias antes do golpe, onde um general quatro estrelas se olhava no espelho, e no espelho aparecia um gorila com quatro estrelas. Peguei pesado mesmo. O cônsul italiano me chamou. “O DOPS esteve aqui querendo saber de seus antecedentes políticos, se você é comunista, é melhor você viajar”. Fui para Roma, depois voltei, com uma saudade do Brasil, incrível…

Com saudade das mulatas, aposto!
Não, não. Não só. Para mim, o Rio de Janeiro é tudo! É a minha casa!

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