Publicado en: 3 enero, 2019

Brasil. Bolsonaro e as Fake News

Por Kenendy Alencar- Alex Solnik 

O novo regime inicia com discursos e ações neofascistas: “O dia em que o povo começou a se libertar do socialismo” “Nossa bandeira nunca será vermelha”.

 

 O presidente Jair Bolsonaro dispensou o tom conciliatório tradicional dos vitoriosos nos discursos de posse e difundiu a primeira fake news de sua administração.

Numa fala típica de campanha eleitoral, ele disse que sua posse foi o “dia em que o povo começou a se libertar do socialismo”.

Nunca houve socialismo no Brasil. É uma mentira dita pelo presidente no primeiro dia no cargo.

Bolsonaro não desceu do palanque nos dois discursos que fez hoje.

No primeiro, na posse oficial no Congresso, falou em combater a “ideologia de gênero”.

No segundo, no parlatório do Palácio do Planalto, adotou tom agressivo, afirmando que implementaria a agenda aprovada pela maioria na eleição.

“É com humildade e honra que me dirijo a todos vocês como presidente do Brasil e me coloco diante de toda a nação neste dia como um dia em que o povo começou a se libertar do socialismo, se libertar da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto”.

Segurando a bandeira do Brasil com o vice, Hamilton Mourão, ele disse: “Nossa bandeira jamais será vermelha… só será vermelha se for preciso nosso sangue para mantê-la verde e amarela”. Foi ovacionado por um público aguerrido, mas que compareceu em número bem inferior ao projetado por seus aliados.

A imprensa recebeu tratamento desrespeitoso, com confinamento de jornalistas durante horas, ameaças de ser alvo de atirador de elite e restrições para alimentação e até idas ao banheiro.

No primeiro dia de governo, Bolsonaro deu mostra de que a sua relação com a imprensa será ruim e dispensará prestação de contas por meio do jornalismo.

A agenda econômica não ficou clara em nenhum momento.

Falta estratégia para aprovar a reforma da Previdência, por exemplo. Sobra improviso.

Em resumo, Bolsonaro é o político mais despreparado a se sentar na cadeira presidencial.

Kenendy Alencar

Em seu blog

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“Nossa bandeira nunca será vermelha”

A “ameaça vermelha” foi pretexto para duas ditaduras

Alex Solnik

Bolsonaro não perdeu tempo. Logo no primeiro discurso disse a que veio. “Nossa bandeira nunca será vermelha”, gritou para aplausos delirantes dos seus seguidores reunidos em frente ao Palácio do Planalto. “Se for preciso, daremos o nosso sangue para ela permanecer verde-amarela”, disse ainda, conseguindo mais aplausos.

A “bandeira vermelha” nunca chegou perto de existir no Brasil. Nunca houve ameaça “vermelha”, muito menos hoje. O problema é que a ameaça vermelha já foi usada duas vezes como pretexto para dois golpes de Estado, em 1937 e em 1964.

Não havia ninguém criando ou imprimindo bandeira vermelha. Em 1937, o setor integralista do governo Getúlio produziu um “documento” apócrifo, com o consentimento do Alto Comando das Forças Armadas que conteria instruções do Komintern para os comunistas brasileiros tomarem o poder.

Ninguém viu esse documento, mais tarde denominado “Plano Cohen”, porque ele nunca existiu. Mas foi tomado por verdadeiro porque os chefes militares mandaram colocar o caso nas manchetes dos jornais. E Getúlio instalou a ditadura para evitar a ameaça vermelha. A ameaça era ele, como logo os brasileiros veriam.

Em 1964, os generais repetiram a dose. Dessa vez não forjaram documentos falsos, mas acusaram o presidente João Goulart, um rico fazendeiro, de preparar um golpe comunista. Não havia indícios, provas, documentos. Nada. Nem fake News. Mas criou-se essa narrativa na imprensa, de que ele era o inimigo número da pátria e que a vendeu aos soviéticos. Deveria ser derrubado, portanto. E foi.

Hoje em seu discurso Bolsonaro disse absurdos tais como “no Brasil não haverá mais socialismo” (como se alguma vez tivesse havido), “vamos afastar ideologias nefastas”, “acabar com a ideologização das crianças ” (onde? Ele acha que está na Coréia do Norte???), “acabar com a ideologia que defende bandidos” (que ideologia é essa?), “acabar com o politicamente correto” e finalmente “vamos restabelecer a ordem” (há alguma desordem por aí?).

Todas as frases são autoritárias, ameaçadoras e hostis à democracia. E tentam criar uma assombração que não existe.

Não é bom sinal começar o governo com discurso que repete o de duas ditaduras.

**Alex Solnik- Jornalista. Já atuou em publicações como Jornal da Tarde, Istoé, Senhor, Careta, Interview e Manchete. Autor de treze livros, dentre os quais “Porque não deu certo”, “O Cofre do Adhemar”, “A guerra do apagão” e “O domador de sonhos”

 

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