Brasil. Bolso-Moro e o toma-lá-dá-cá da política

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 “Ministro Moro é Judiciário com partido – Os protagonistas da Lava Jato estavam e estão empenhados em um projeto político” (Reinaldo Azevedo, jornalista, hoje na Folha).

 

 

 

Antes mesmo da eleição, como revelou o general Mourão, já tinha sido acertada a entrada triunfal do juiz de Curitiba no novo governo.

Caíram apenas as máscaras de um teatro jurídico-político montado desde 2014 pela Operação Lava Jato, para afastar do caminho quem poderia impedir a manutenção no poder dos golpistas que derrubaram Dilma e mandaram Lula para a cadeia.

Depois de quatro derrotas seguidas nas eleições presidenciais, montou-se um esquema muito bem planejado, em parceria com a maior parte da grande mídia e o mercado, para disseminar o ódio antipetista, em nome do combate à corrupção.

Nem tudo deu certo porque o PT não acabou. Chegou ao segundo turno, fez a maior bancada na Câmara dos Deputados e elegeu o maior número de governadores.

Mas o objetivo principal foi alcançado: retomar o poder que os militares e seus sócios civis haviam perdido três décadas atrás, agora aliados ao fundamentalismo religioso e a tudo o que de mais atrasado existe na sociedade brasileira.

A ordem unida era não perder de novo em 2018, quaisquer que fossem os meios e o preço a pagar para atender a variados interesses daqui e de fora.

Logo na abertura da sua coluna, Reinaldo Azevedo, que pode ser chamado de tudo, menos de petista, resumiu a ópera em latim:

“Consummatum est”. Escreveu ele: “Sergio Moro fulminou a classe política e sai como um dos dois grandes beneficiários da razia que promoveu. Já é o primeiro na fila de sucessão – quando Jair Bolsonaro quiser, bem entendido”.

Apenas um ano atrás, quando a operação por ele comandada estava prestes a atingir seus objetivos, Moro descartou qualquer projeto político em entrevista à revista Veja:

“Não seria apropriado da minha parte postular qualquer espécie de cargo político, porque isso poderia, vamos dizer assim, colocar em dúvida a integridade do trabalho que eu fiz até o presente momento”.

Danem-se os escrúpulos, a tal da integridade foi para o espaço, agora não há mais dúvidas: Moro preparou a cama para ele mesmo deitar e quem não estiver satisfeito que vá se queixar ao bispo (epa!) que será recebido neste Dia de Finados pelo presidente eleito em seu bunker na Bara da Tijuca.

No oba-oba generalizado que tomou conta do país, em que tudo foi rapidamente normalizado e aceito como algo natural na alternância do poder, poucas vozes se levantaram para denunciar a grande maracutaia consumada na véspera do feriadão.

Uma delas foi a voz do jurista José Carlos Dias, ex-ministro da Justiça de FHC, meu companheiro de lutas pelos direitos humanos na Comissão de Justiça e Paz comandada por D. Paulo Evaristo Arns.

Dias considerou “lamentável” a rápida troca de emprego do juiz: “Mostra um partidarismo, uma posição política absolutamente contrária à índole do magistrado”.

Na mesma linha, manifestou-se Carlos Ayres Brito, ex-presidente do STF:

“Esse tipo de mudança de camisa, tão rapidamente, projeta o inconsciente coletivo uma imagem pouco favorável dos membros do Poder Judiciário”.

Há muito tempo estes membros não parecem preocupados com sua imagem, a julgar por todas as decisões que tomaram ao longo da campanha eleitoral para beneficiar um lado e prejudicar outro, e definir o resultado da eleição.

Partidarizado e seletivo, como agora ficou tão claro no açodamento de Sergio Moro para aceitar o convite do novo governo, já de olho no STF, o Judiciário adotou a velha prática do toma-lá-dá-cá da política.

Agora, neste circo-hospício que virou o país, num passe de mágica, todos viraram cidadãos exemplares desde criancinhas.

Parodiando Tim Maia, fumantes inveterados fazem discursos contra o cigarro, velhos cheiradores querem combater o tráfico, escroques defendem medidas contra a corrupção, cafetões querem acabar com o grande meretrício nacional e sonegadores contumazes tecem loas a Sergio Moro, o superministro que vai botar ordem na casa mal assombrada sob a batuta do capitão Bolsonaro.

Só a mídia global, de forma quase unânime, achou estranha a manobra operada no Brasil.

“Bolsonaro nomeia juiz que prendeu Lula”, foi o título-síntese da matéria da Reuters, reproduzida mundo afora pelos principais jornais.

Por aqui, nos telejornais da Record e da Globo, cada vez mais parecidos, a maioria absoluta dos entrevistados só elogiou o “gol de placa” de Bolsonaro, como fez a senadora gaúcha Ana Amélia.

De superministro em superministro, vai sendo montado no Twitter o novo governo da Barra da Tijuca.

São tantas as fusões de ministérios que os funcionários federais já nem sabem onde irão trabalhar no dia 1º de janeiro nem a quem se deverão reportar.

Do jeito que vai, a Esplanada dos Ministérios pode virar cenário de prédios fantasmas – ou, então, tudo não passará da encenação de uma dança das cadeiras.

A Era Bolsonaro está entrando hoje em seu quinto dia, mas por enquanto, hoje de manhã, só apareceram no bunker um cabeleireiro e um alfaiate para preparar o terno da posse.

Bom feriadão.

Vida que segue.

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Fotoarte: «Kotscho»

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